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Alô, daqui Frente Oriental: sofremos mas estamos bem

Portugal venceu a Rússia por 1-0 (marcou Cristiano Ronaldo) no seu segundo jogo na Taça das Confederações, num encontro em que começou bem, bastante bem até, marcou cedo e depois, na 2.ª parte, deixou-se dominar. Os 3 pontos colocam a Seleção Nacional a um pequeno passo das meias-finais

Lídia Paralta Gomes

YURI KADOBNOV/Getty

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Uff, deu para sofrer - como já estamos habituados, diga-se. Portugal bateu a Rússia por 1-0 num jogo em que entrou à leão, mas saiu de coração nas mãos, depois da equipa da casa ter tomado o controlo das operações de guerra na 2.ª parte.

Foi a primeira vez que Portugal venceu a Rússia deste lado da Frente Oriental - aliás, foi a primeira vez em jogos oficiais que marcou um golo por estas terras -, num jogo que começou fácil e depois se complicou, mesmo que os anfitriões tenham tido mais pujança do que exatamente cabeça e as melhores ocasiões tenham, na verdade, pertencido a Portugal.

Emoção, essa, houve até ao fim, até porque guerreavamos em território hostil e isso, num teatro de guerra, é toda uma desvantagem. Mas estamos bem, estamos vivos e prontos para seguir em frente nesta Taça das Confederações.

Ao contrário do que aconteceu no encontro com o México, desta vez Portugal não permitiu que o adversário agarrasse o jogo início. Mas com os anfitriões a defender com uma linha de cinco, a Seleção Nacional foi obrigada a fazer um verdadeiro jogo de paciência.

Ajudou que desta vez, e também ao contrário do que aconteceu no primeiro jogo, Portugal conseguisse engatilhar mais do que dois ou três passes. Porque Adrien Silva e William Carvalho jogam de olhos fechados e porque Bernardo Silva tem uns pézinhos que dá vontade de escrever poemas. Daqueles grandes e épicos. Porque os pés de Bernardo parecem ter o dobro ou o triplo das soluções dos restantes pés terrenos e, na hora em que é preciso uma pessoa desenvencilhar-se de dois ou três matacões russos, isso dá muito jeito.

Raramente caindo na tentação do jogo direto (aconteceu uma vez, que eu tenha visto), a nacional perseverança acabou por dar frutos bem cedo, bem mais cedo do que provavelmente esperaríamos. Logo aos 8 minutos, Cristiano Ronaldo deu razão àqueles que lhe apontam uma estatística engraçada e absolutamente científica (aquela que diz que em meia oportunidade faz um golo) e marcou o primeiro do jogo.

Kudriashov, o homem da máscara, ficou nas lonas (como aconteceu quase sempre na 1.ª parte, diga-se) e Ronaldo respondeu em suspensão a um cruzamento redondinho e perfeitinho de Raphael Guerreiro. Tão redondinho e perfeitinho que até nos esquecemos daquele erro que deu o primeiro golo ao México no domingo.

Com o golo o jogo de Portugal não se alterou: muita paciência, muita troca de bola, ainda que aqui e ali tenham voltado a aparecer uns passes falhados - André Gomes foi o mais trapalhão - mas com Portugal sempre muito mais perto da área adversária do que a Rússia, que teve apenas uma situação de algum perigo durante a 1.ª parte, num cruzamento em que Smolov meteu mal o pé na bola, que saiu muito ao lado.

A 2.ª parte foi mais ou menos isto: a Rússia tentar e Bruno Alves (e Pepe) a limpar

A 2.ª parte foi mais ou menos isto: a Rússia tentar e Bruno Alves (e Pepe) a limpar

Ian Walton/Getty

A 2.ª parte podia ter começado logo com um golo português, não fosse Akinfeev, em dias bons, ser um dos melhores guarda-redes da Europa. André Silva cabeceou na pequena-área à queima-roupa com o capitão russo a fazer-se valer dos seus belos reflexos para tirar um golo feito à Seleção Nacional.

Para piorar, aquela defesa de Akinfeev teve o condão de dar corda à Rússia, que a partir daí se tornou na equipa pressionante que não conseguiu ser na 2.ª parte. E Portugal tremeu. Tremeu para nunca mais se encontrar. A bola passou a estar demasiado tempo junto à área portuguesa e, por muito que a Rússia não criasse verdadeiras oportunidades de golo, durante largos minutos os níveis de nervosismo estiveram lá em cima - e em nada ajudava o barulho ensurdecedor vindo das bancadas cada vez que surgia o mínimo sinal de perigo russo.

Nos intervalos das cavalgadas russas para a nossa área, Portugal ia contra-atacando e falhando golos que, por esta altura, não deviam ser falhados. Porque Portugal precisava do segundo golo. Cristiano falhou por duas vezes o alvo, primeiro num cruzamento (difícil, é verdade) de André Gomes e depois num remate que lhe saiu muito por cima. André Silva imitou-o nas duas vezes que esteve perto de Akinfeev. E também não deu jeito nenhum que Raphael Guerreiro se tivesse lesionado (suspeita-se de fratura), queimando uma substituição que Fernando Santos não estava à espera de gastar.

A meio da 2.ª parte, Portugal tinha perdido o controlo do jogo. Bernardo Silva, que tanta magia tinha trazido ao jogo na 1.ª parte, desapareceu (coisa de ilusionistas) e nem a entrada de Danilo para dar músculo ao meio-campo acalmou o jogo português. Valia a muralha lá atrás: Pepe em nível Euro’2016 e Bruno Alves, como sempre, em modo operário a limpar tudo da forma mais simples possível - que é como deve ser.

Os últimos minutos foram passados a tentar suster a Rússia, a quem faltou talento, e essencialmente isso, talento, para mais.

Tendo em conta que nos nossos antípodas a malta tem mais jeito para jogar com as mãos do que com os pés, este resultado deixa Portugal muito próximo das meias-finais, com Rússia e México a discutirem a outra vaga numa verdadeira final que marcará a última jornada do Grupo A. Ainda assim, nunca fiando: na 2.ª parte, a Seleção Nacional esteve demasiadas vezes a aproximar-se do fio da navalha.

(Nota: é sempre uma emoção quando temos, a poucos metros, um dos melhores cromos da nossa infância. Este mesmo, o treinador russo. Bom saber que o bigode se mantém)

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