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Fomos ao Ronaldo dos museus e vamos precisar de pelo menos três meses de fisioterapia

O Hermitage é um dos maiores museus do Mundo e nele está a maior coleção de quadros do planeta Terra. O desafio era simples: conseguir ver o mais possível em apenas um dia, porque ir a São Petersburgo e não ir ao Hermitage é como ir a Roma e, bem, vocês sabem o resto. É que o Hermitage não é grande: é um colosso. As nossas pernas sofrem, mas sobrevivemos à maratona

Lídia Paralta Gomes

Um dia no museu Hermitage

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A internet tem tudo, tudo mesmo, e uma pesquisa por “Quanto tempo é necessário para ver o Museu Hermitage?” traz-nos os mais variados resultados. Há quem diga que um dia safa a coisa, mas também quem se tenha dado ao trabalho de fazer contas, relacionando o número de peças em exposição com o número de minutos necessários em média para os ver e o número de horas que o museu está aberto por dia (o que dá para cima de um mês).

Mas, regra geral, a opinião é que dois ou três dias dão para ter uma perspectiva geral daquele que é um dos maiores museus do Mundo - só o Louvre de Paris tem mais área de exposição - e a maior coleção de quadros do planeta.

Pois entre jogos, treinos e viagens de avião por esta Rússia da Taça das Confederações fora, não temos dois ou três dias. Mas estar em São Petersburgo e não ir ao Hermitage é mais ou menos como ir a Roma e, bem, vocês sabem o resto (nota: já fui a Roma e não vi o Papa). Porque o Hermitage é assim uma espécie de Cristiano Ronaldo dos museus. Aliás, é provavelmente muito mais do que isso: é o melhor onze da história num só edifício.

Uma das incontáveis alas do Hermitage, em São Petersburgo

Uma das incontáveis alas do Hermitage, em São Petersburgo

d.r.

O Hermitage é muito maior, muito mais labiríntico e muito mais colossal que um campo de futebol. É impossível não se perder lá dentro pelo menos um par de vezes e vê-lo num dia apenas é assim como correr a maratona sempre no máximo. Mas, ei, como diria o poeta, se fosse fácil não era para nós. Vamos lá.

A entrada, a primeira desorientação

Hermitage: 66.842 metros quadrados de área e mais de 3 milhões de objetos em exposição entre quadros, desenhos, esculturas, artefactos arqueológicos e uma coleção absurda de numismática.

Tudo começou pelas mãos de Catarina, a Grande, imperatriz da Rússia, que em meados do século 18 desatou a comprar peças de arte a qualquer mercador ou herdeiro caído em desgraça que metesse os pés em São Petersburgo. E se a coleção de Catarina ia crescendo, também o Palácio de Inverno, que servia de residência e sede de governo da monarquia russa, precisava de obras constantes para acomodar tantas peças, até porque os seus sucessores continuaram a engordar os corredores do edifício.

Apesar de a fundação datar de 1754, a verdade é que foi apenas em 1852, com Nicolau I que o museu abriu ao público. Daí para cá, o Hermitage foi aumentando mais e mais, sobreviveu à Primeira Guerra Mundial (período em que parte das salas se transformaram em hospital), a incêndios devastadores e com a queda dos czars tornou-se num edifício do Estado. Já durante a II Grande Guerra, e antes do início do Cerco a Leningrado, que durou 872 dias e matou mais de 1,5 milhões de pessoas, boa parte da infindável coleção do Hermitage foi enviada em dois comboios para Ecaterimburgo, longe das mãos dos soldados de Hitler. O Hermitage sofreu bombardeamentos, mas ficou de pé, reabrindo em finais de 1945.

Paul Cezanne, na sua melhor imitação de José Sá

Paul Cezanne, na sua melhor imitação de José Sá

d.r.

O Hermitage não é, portanto, apenas uma viagem pela história da arte: é também uma viagem pela história da Rússia em que cabem Alexandre, o Grande, os czars, ministros, generais que impediram Napoleão de conquistar estes territórios, enfim, gente de fibra que teria dado um certo jeito à seleção russa por estes dias, face à desilusão que foi a participação na Taça das Confederações que organizam.

Mas para ver tudo isso, há o primeiro teste. E é logo um dos complicados: o de entrar, simplesmente entrar. O museu abre às 10h30, às 11h estou à porta, mas até entrar verdadeiramente no museu perco uns bons 45 minutos. Há que subir e descer uma série de escadas e serpentear entre grupos de chineses e tours de alemães, húngaros, enfim, escolham uma nacionalidade. A loja já está cheia. Pergunto-me como é que se faz compras num museu ANTES de realmente ver o museu.

Ali perto está o primeiro ponto de “uau”, chamemos-lhe assim. Uma série de artefactos do antigo Egito, alguns deles do ano 13 AC. Há uma série de sarcófagos que se abrem e dentro têm sarcófagos mais pequeninos. Percebo onde é que os russos foram buscar as ideia das matrioskas. Lembro-me também de Sabry, rapaz que um dia, talvez também inspirado nestes sarcófagos, demorou oito minutos a preparar as botas e as caneleiras antes de entrar em jogo, dando azo a um dos primeiros momentos-Mourinho que tenho memória.

Adiante. Chego finalmente à escadaria que dá acesso ao andar onde estão os principescos aposentos dos Romanov, alguns deles com paredes revestidas a ouro porque, amigos, quem não quer dormir num quarto revestido a ouro. Os enormes salões onde a família real fazia as suas festas e recebia os seus convidados são tão colossais que, mesmo estando ali dentro cinco ou seis estádios Azteca, uma pessoa anda à vontade.

Olho para o relógio: de repente passaram duas horas.

A circulação (e respiração) começa a complicar quando começam a surgir as salas com as obras dos mestres. Leonardo da Vinci, Rafael, Tiziano, Miguel Ângelo. Uma equipa para a Europa. E é só aqui, nesta ala do Palácio de Inverno. As pessoas amontoam-se, há cotoveladas, correrias, encontrões. Tudo não para ver a Madonna Litta de Da Vinci mas sim para tirar uma fotografia da Madonna Litta de Da Vinci. Tento ver, sou atropelada por 30 chineses de telemóvel na mão e desisto.

Continuo o meu caminho, já com duas ou três nódoas negras (um conselho: caso cá venham, tragam caneleiras, joelheiras, cotoveleiras, bebidas isotónicas, enfim, o que tiverem à mão). Caminho entre mais não quantas salas cheias de arte da idade média, passo depois para a pintura dos séculos XV, XVI e XVII. Dos flamengos aos britânicos, dos franceses aos italianos. Olho para a planta do museu e, não sei bem como, só vou a pouco mais de meio do primeiro andar. Pergunto-me se não devia ter trazido mantimentos, uns enlatados para o caso de ficar encurralada ali dentro. Passo por salas inteiras de Rembrandts e Rubens, mas o que me chama à atenção é um quadro de Paulus Potter (sem relação familiar com o feiticeiro) chamado “A punição do caçador”. Nele um grupo de animais condena à morte em tribunal um caçador e os seus cães. Muito orwelliano.

A prova de que a relação Miguel Ângelo/centenas de telemóvel na mão é uma realidade

A prova de que a relação Miguel Ângelo/centenas de telemóvel na mão é uma realidade

d.r.

Volto a olhar para o relógio. Tenho fome, mal sinto as pernas. Opto por ver os restantes pisos, atestados com antiguidades do império grego e romano, quase em passo de corrida. Do outro lado da praça está o General Staff Building, quase do mesmo tamanho e onde o Hermitage guarda a sua coleção de arte contemporânea. Mas perco-me novamente, volto a salas por onde já tinha andado e perco mais uns bons 15 minutos até encontrar o caminho certo.

À saída, ainda esboço uma tentativa de perguntar se posso ir às catacumbas, onde o Hermitage alberga outra importante coleção: um grupo de 60 gatos que tem um departamento próprio (true story), um assessor de imprensa próprio (no joke) e três tratadores a tempo inteiro.

A história remonta ao século XVIII, quando a imperatriz Isabel quis livrar-se de uma infestação de ratos que colocava em perigo as obras do museu. Os lindos gatinhos trataram do assunto de forma tão eficaz que até hoje continuam a fazer parte da história do museu. Aliás, se o Mundial de 2010 teve o Polvo Paul, esta Taça das Confederações tem o Gato Aquiles, um dos residentes das caves do Hermitage e que também tem jeito para adivinhar resultados.

O melhor onze de pintores

São três da tarde e o museu fecha daqui a três horas. E ainda me falta metade. Atravesso a Praça do Palácio para o General Staff Building. Não sei onde é a porta e os policias a quem pergunto, muito menos.

Agarro qualquer coisa para comer numa banca de rua, encontro a porta enquanto dou uma trinca num bolo com queijo doce (sabe melhor do que soa), volto a passar pela segurança (em qualquer edifício público ou estação de metro é necessário passar por detetores de metais) e “atiro-me” aos contemporâneos.

Antes, páro 10 minutos e bebo meio litro de água, só mesmo para não desfalecer.

Começo pela coleção de Matisse, que é enorme e atravessa várias salas. O francês teve uma amante russa e alguns dos quadros que aqui estão foram doados por ela. Continuo, aparece-me Kandinsky, Rivera, Picasso, Van Gogh, Gauguin, Cezanne, Renoir, Degas, Manet e Monet. Só aqui estão onze, um onze de luxo. É como se de repente alguém me dissesse: “Olha, naquele campo estão o Yashin, o Beckenbauer, o Maldini, o Roberto Carlos, o Di Stefano, o Cruyff, o Zidane, o Maradona, o Messi, o Ronaldo e o Pelé”. Assim todos, ao mesmo tempo.

É assim sem sentir as pernas mas de coração cheio que me dirijo para a saída. Antes, sento-me numa das confortáveis cadeiras do auditório desta parte nova do Hermitage e por lá fico, sem me conseguir levantar. Foram quase sete horas a percorrer o Hermitage e mesmo assim ficou muito por ver. Penso: "Vou precisar de uns três meses de fisioterapia", mas que não há problema nenhum nisso: afinal, vi os melhores de sempre a jogar todos de uma só vez.