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A russa que quer bailar no Rio ou a falsa antipatia de quem cá vive

Uma semana e meia depois, começo a achar que isso dos russos serem antipáticos, frios e mal-encarados é mais mito do que outra coisa

Lídia Paralta Gomes

d.r.

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Há ainda algumas coisas (e com “algumas” estou a ser gentil) que poderão fazer com que a organização russa do Mundial de 2018 não seja um sucesso e sobre elas falarei lá mais para o final desta Taça das Confederações – tenho sempre esperança que as coisas melhorem, desculpem, sou muito naif.

Essa esperança naif vem de algum lado, claro está. Existe por causa daqueles que normalmente não têm culpa nenhuma por não haver transportes para os estádios ou por o trânsito em algumas cidades ser absolutamente caótico.

Existe por causa das pessoas. Ou, pelo menos, da maior parte delas.

Estou há quase duas semanas na Rússia e, com o passar dos dias, cada vez mais me parece que a antipatia e frieza dos russos é mais mito que outra coisa. As dificuldades para comunicar são reais e por vezes aflitivas, nomeadamente em cidades mais pequenas como Kazan, onde nos estreámos na Taça das Confederações e à qual estamos de regresso para jogar as meias-finais. Mas não conseguir comunicar não é o mesmo que não querer comunicar e, parece-me cada vez mais, há uma tentativa sincera de boa parte russos em ajudar.

E uma vontade grande das novas gerações em aproximarem-se do mundo, num país em que o inglês não é obrigatório em todas as escolas.

Lembro-me agora de repente da minha caótica chegada a Moscovo. Para evitar ficar parada quatro meses no trânsito, optei por viajar de comboio do aeroporto para a cidade e depois tentar um táxi na estação de Belorusskaya, no centro da capital russa.

Pois bem, quando chego à estação chovem cães, gatos e outros animais, enfim, abate-se sobre Moscovo uma bátega de água bíblica. Para piorar, tudo em volta da estação era um enorme estaleiro. Caminho, dou voltas e mais voltas à estação. Não encontro um único táxi, não sei sequer onde está a estrada no meio de toda aquela confusão e lama. E, de repente, estou à chuva, com uma mala quase do meu tamanho, sem fazer ideia para onde me virar.

Nestas situações, não há volta a dar: há que tentar a bondade das pessoas. Vejo duas jovens voluntárias e pergunto-lhes como posso apanhar um táxi naquele caos apocalíptico.

Elas olham para mim como se eu lhes tivesse perguntado pela arca do tesouro, mas com o seu inglês esforçado começam desde logo a delinear um plano para me colocar sã e salva no meu hotel.

(Chega àquela parte em que vocês dizem: “Oh, são voluntárias, só estão a fazer o trabalho e o dever delas”. Mas olhem que eu já fiz algumas grandes competições e nunca ninguém me ofereceu o seu casaco para eu não me molhar).

O primeiro passo foi abrirem um hotspot do seu telemóvel para eu ter acesso à internet e tentar uma das aplicações que fazem concorrência aos taxistas (vocês sabem bem quais são). Success! E mal dou por mim, já estão mais cinco voluntárias à minha volta, prontas para me ajudar. Portanto, faço ali as contas e já são sete pessoas a tentar salvar-me o pêlo.

Uma delas percebe que sou portuguesa e revela: “A sério? Estou a aprender português!”. Diz-me duas ou três frases ainda a custo. “Boa diááá”, “como essstáhhhsh”. Logo me confessa que só começou as aulas há mês e meio. “Não está mau”, digo-lhe, para lhe dar aquela forcinha.

(Enquanto isto, nem sinais do motorista que chamei)

A voluntária continua a tentar dizer coisas em português, para logo me explicar o porquê de querer aprender a nossa língua. Preparem-se, porque isto vai destruir anos e anos de ideias pré-concebidas sobre a frieza dos russos: “No próximo ano quero ir ao Carnaval do Rio para bailar”.

Solto um “uau” de surpresa e ali ficamos uns minutos a falar das diferenças entre o português do “Brasiu” e o português de Portugal. Enquanto isso, o motorista continua desaparecido em combate e não está a chover menos. Ela liga ao rapaz, porque encontrar por aqui um motorista que fale inglês é como encontrar um jogador de futebol na seleção da Nova Zelândia. Ele diz que está preso no trânsito (welcome to Moscow!). Passado uns minutos, liga-lhe novamente, combinam em russo o lugar onde ele me vai apanhar. E como não há aqui ajudar pela metade, leva-me até ao sítio, apesar de continuar a chover toda uma Barragem do Alqueva sobre as nossas cabeças.

No final, agradeço-lhe, digo-lhe que ela me salvou a vida, que não me teria safado sem a ajuda daquele grupo de miúdas. Ela ainda me aconselha a ter atenção para não ser enganada no preço. Pergunto-lhe como se chama, para agradecer mais uma vez, e ela lança um nome que eu não entendo. No meio daquela chuva toda e com o carro em segunda fila, não tenho tempo de ir à mochila buscar papel e uma caneta para ela me escrever o seu nome, dando assim cabo de uma das regras do jornalismo.

Isto é só uma historieta, mas acreditem que é um exemplo entre muitos. Podia falar aqui de como qualquer pessoa na rua se disponibiliza para nos chamar táxis ao telefone ou da rececionista do meu primeiro hotel, que me deu o seu número pessoal para lhe ligar a qualquer hora no caso de ter alguma emergência linguística. E os meus colegas terão outras estórias para contar.

Se daqui a um ano tudo correr bem, é por causa de gente assim.

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