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De Lisboa a Moscovo são 4300 quilómetros, o Chile tem 4300 quilómetros de comprimento e 4300 quilómetros tiveram os braços de Cláudio Bravo

Portugal está fora da final da Taça das Confederações, após cair frente ao Chile no desempate através de grandes penalidades, que vieram decidir um jogo pouco brilhante e em que a Seleção Nacional não foi a equipa coesa e organizada que nos tem habituado. Agora há o penoso jogo do 3.º e 4.º lugar, domingo, na capital da Rússia

Lídia Paralta Gomes

YURI CORTEZ/Getty

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O Chile tem 4300 quilómetros de comprimento, de norte a sul, e 4300 quilómetros de comprimento parecia ter Cláudio Bravo naquelas grandes penalidades. Defendeu todas, uma a uma, as três que Portugal tentou marcar. Uma atrás de outra. Quaresma, Moutinho, a terceira já com Nani a hesitar porque, lá está, à sua frente estava um guarda-redes com 4300 quilómetros de comprimento.

Portugal está fora da final da Taça das Confederações, após cair nos pontapés da marca de grande penalidade, que nos tinham feito tão felizes no Euro’2016, frente à Polónia, quando Moutinho, ao contrário desta noite, em Kazan, bateu bem. Ronaldo, ficou para o fim. Não chegou a ter a oportunidade de marcar.

Portugal caiu depois de um jogo sem brilho e que chegou ao final dos 120 minutos sem golos, golos esses que estiveram sempre mais perto de acontecer na baliza de Rui Patrício, verdade seja dita. E agora vem aí o mais penoso dos jogos, o jogo da medalha de bronze, que já não faz sentido no Mundial, quanto mais numa Taça das Confederações. É no domingo, em Moscovo, cidade em que ninguém queria estar no domingo. Era em São Petersburgo que queríamos terminar esta viagem.

De Moscovo a Lisboa também são 4300 quilómetros, mais coisa, menos coisa, o tamanho dos braços de Cláudio Bravo e o tamanho da nossa desilusão, neste momento.

Mas o guarda-redes do Chile, capitão de equipa, não foi culpado único de irmos parar a Moscovo e não a São Petersburgo. Esta noite, em Kazan, Portugal deixou de ser a equipa coesa e organizada que costuma ser, que pressiona a toda e qualquer hora. Falhou muito na transição, esteve disparatado nos passes e não aproveitou quando o físico dos chilenos começou a dar de si. Em suma, não correu nada bem.

Ian Walton/Getty

Sem dramas. Esta noite não tivemos Paris, mas para o ano, se tudo correr bem, há mais. Numa cidade que fica a 4300 quilómetros de Lisboa.

Uma sombra

O Chile tem 4300 quilómetros de comprimento e quase tão grande é o hino do país, que os chilenos foram cantando já para lá do tempo regulamentar dos hinos, um bocado como os atores que desafiam a orquestra que teima em lhes cortar o pio quando, emocionados, agradecem à mãe, ao pai, ao agente, a Deus e ao periquito o Oscar que acabaram de ganhar.

E 4300 quilómetros de comprimento tem também a raça dos jogadores do Chile, curiosamente todos eles de fisionomia oposta ao seu país: o Chile é alto e esguio, eles são para o pequenote, mas armários. Tudo isto terá assustado os jogadores portugueses, que na primeira parte foram uma sombra de si mesmos, principalmente depois de André Silva falhar a única e flagrante oportunidade de golo que a Seleção Nacional teve ao longo dos primeiros 45 minutos de ação na Kazan Arena.

Foi logo aos 7 minutos que Cláudio foi Bravo a fechar a baliza ao futuro jogador do AC Milan, que desbaratou um cruzamento perfeito de Ronaldo, ele que, por sua vez, também já tinha sido lançado em velocidade de forma perfeita pela esquerda.

Dizem que há alturas certas para marcar. Esta teria sido uma delas.

Porque na jogada anterior tinha sido Rui Patrício a salvar Portugal: o Muro de Leiria não tinha deixado passar um remate de Vargas, que surgiu sozinho em frente ao guardião da Seleção Nacional após ser desmarcado por Alexis Sanchéz.

A partir daí, com instinto assassino de férias, Portugal meio que se encolheu e como que recusou ser tudo aquilo que nos torna fortes: deixámos de pressionar, deixámos de ser coesos, deixámos de sair bem com a bola (que falta fez Pepe) e demos espaços, muitos espaços. E o Chile, equipa sem grande paciência para rodriguinhos, como quem diz, para grandes rendilhados de trocas de bola, ia atacando com alguma vertigem.

E assim, calafrios na 1.ª parte foram mais dois, cortesia de Aranguiz, rapaz que foi deixado a vadiar pela esquerda a seu bel-prazer. Aos 27 minutos penteou um cruzamento de Vidal e a bola por muito pouco não entrou no canto inferior direito da baliza de Patrício. E um par de minutos depois recebeu um passe acrobático/involuntário (riscar o que não vos pareceu) do mesmo Vidal, encheu o pé e só não foi golo porque o jogador do Bayer Leverkusen deu, como diz o povo, nas orelhas da bola.

Um puxão de orelhas, por esta altura, não ia mal à Seleção Nacional e Fernando Santos, exasperado no banco, pensaria o mesmo. A Portugal faltava o critério que Pepe dá à equipa no primeiro momento da transição defesa/ataque e na frente, quando a lentidão, os maus passes e as más decisões não abortavam desde logo a operação, Cristiano e André Silva tinham muitas dificuldades em lidar com os defesas chilenos. Eles que são baixos, mas limpam tudo pelo ar. Por terra também não são piores, com Jara e Isla a fazerem um par de cortes a Cristiano que deixaram o capitão da Seleção algures entre o surpreendido e o irritado.

Isla raramente deu espaço a Ronaldo

Isla raramente deu espaço a Ronaldo

Laurence Griffiths/Getty

Fazia falta a magia de Bernardo e a intensidade de Adrien também não estava naquele nível a que estamos habituados.

Na 2.ª parte, algo mudou, mas não muito. O ataque continuou estéril mas Portugal começou a defender melhor individualmente, com a única oportunidade do Chile a surgir na sequência de um canto, ainda antes dos 60 minutos: sem ver o remate à meia-volta de Vargas partir, Rui Patrício salvou mais uma vez Portugal.

Depois correria da 1.ª parte, os jogadores do Chile pareciam mais desgastados que os portugueses: Fernando Santos percebeu e lançou Nani e Quaresma para a velocidade. Mas de nada vale ter velocistas quando a bola mal lhes chega aos pés. Porque antes disso já houve um mau passe ou uma perda de bola. E quando tentou rematar de longe, Portugal nunca conseguiu um tiro enquadrado.

E com tudo isto, um jogo que tinha arrancado com duas oportunidades e que parecia destinado a ser um festival de ataque, chegou aos 90’ sem golos ou emoção.

Destino: prolongamento. Nada a que não estejamos habituados: foram três nos Euro’2016 e nesses três jogos acabámos a festejar. É claro que convém não confiar apenas na história e na estatística e muito menos deixar Alexis Sanchéz sozinho na área. Numa das poucas falhas de marcação da defesa portuguesa depois do intervalo, o jogador do Arsenal cabeceou com pouca força mas colocado e a bola passou muito perto do poste direito da baliza de Rui Patrício.

A 2.ª parte do prolongamento parecia assim uma espécie de pró-forma, tal o ritmo lento das duas equipas, visivelmente rebentadas, mas deixou de ser quando nem o árbitro Alireza Faghani nem o vídeoárbitro tiveram dúvidas num lance que de duvidoso teve muito na área de Portugal, quando Gelson entrou e tornou-se na primeira quarta substituição desta Taça das Confederações e, aos 119’, quando Vidal rematou ao poste e, na emenda, Rodriguez atirou à barra.

No final, nas grandes penalidades, é possível que os deuses tenham feito as contas àquelas bolas nos ferros. E não se pode dizer que tenham sido injustos.

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