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O jogo que só teve uma história e essa história chama-se Cristiano Ronaldo

Portugal venceu as Ilhas Faroé por 5-1 em mais um jogo da caminhada para o Mundial de 2018, com Cristiano Ronaldo a ser, bem, Cristiano Ronaldo: marcou três golos, deu mais dois e ultrapassou Pelé na lista dos melhores marcadores de sempre nas seleções

Lídia Paralta Gomes

RAFAEL MARCHANTE/REUTERS

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Um jogo de Portugal frente às Ilhas Faroé tem tudo para não ter história. Portugal entra em campo, mais tarde ou mais cedo marca um golo, a seguir marca mais dois ou três, o árbitro apita para o final, vitória, vitória, acabou-se a história, amanhã há mais.

Mas quis o destino - e o talento de alguns, diga-se - que este Portugal-Ilhas Faroé, disputado a 31 de agosto do ano da graça de 2017, dia de fecho de mercado, tivesse duas histórias. A primeira, a história do golo das Ilhas Faroé, numa altura em que a Seleção Nacional ganhava apenas por 2-0. E já se sabe que um 2-1 é sempre perigoso. Mas como Portugal resolveu rapidamente esse tema, a coisa deixou de ser história para passar a ser, apenas, uma curiosidade do jogo.

A verdadeira história deste Portugal-Ilhas Faroé é a história de como Cristiano Ronaldo se tornou melhor que Pelé. No plano meramente não quantitativo, ou seja, aquele que entra na eterna discussão de ‘quem é o melhor de sempre’, isto será sempre uma afirmação polémica. Mas aqui estamos a falar de golos e aí, amigos, Cristiano já é melhor que Pelé.

Quando marcou pela terceira vez no Estádio do Bessa, naquele que seria o 4.º golo de Portugal, Cristiano fez o 78.º golo por Portugal, mais um do que os 77 que Pelé marcou pelo Brasil. Os 109 golos de Ali Daei, iraniano de bigode frondoso, que fez carreira na Alemanha e que ainda hoje é o melhor marcador de sempre nas seleções, ainda estão longe, mas não será de todo impossível lá chegar.

Principalmente se se repetirem mais jogos como o desta noite, em que Ronaldo esteve em todas: marcou três, fez o passe para outro e no último, a jogada também é sua.

E o primeiro foi particularmente espectacular. Ainda nem estavam cumpridos 3 minutos de jogo quando Bernardo Silva cruzou na esquerda e Ronaldo respondeu com uma meia bicicleta acrobática.

A partir daí e durante largos minutos foi difícil ver um jogador de branco a tocar na bola. As Ilhas Faroé, mesmo sofrendo um golo aos 3 minutos, nunca esconderam ao que vinham: defender, defender, defender mais um bocadinho e nos intervalos tentar um contra-ataque. Assim, colocaram uma linha fortificada de cinco matulões a defender a área, mais três a fazer uma segunda linha, só para reforçar, o que obrigou a Seleção Nacional a procurar as alas e a bombardear com cruzamentos atrás de cruzamentos, normalmente após aberturas de William Carvalho, que por esta altura já jogava quase a 10.

Com os cruzamentos a não surtirem efeito (André Silva esteve em dia não e Ronaldo também se deu ao luxo de falhar duas ou três emendas), foi de grande penalidade que Portugal chegou ao 2.º, após uma falta sobre João Mário e que Cristiano, naturalmente, não falhou.

Estávamos a terminar a primeira meia-hora de jogo e Portugal já jogava em ritmo de amigável conta equipa abaixo do lugar 100 do ranking da FIFA quando, surprise, surprise, um golo das Ilhas Faroé. Um lançamento de linha lateral à inglesa para a área, um ressalto e uma bola que chega sabe-se lá como a Baldvinsson que, sem deixar cair a bola no chão, encheu o pé e marcou.

Na 2.ª parte Portugal não perdeu muito tempo a pensar que só tinha um golo de vantagem. Assim que foi logo à procura de a aumentar. O 3-1 apareceu aos 58 minutos, com William Carvalho a responder como mandam as leis (ou seja, com um cabeceamento de cima para baixo) a um cruzamento de Cristiano Ronaldo e menos de 10 minutos depois, William devolveu a gentileza, encontrando Ronaldo no meio dos grandalhões, na primeira vez que Portugal conseguiu fazer uma jogada pelo meio. E como eles são grandalhões, mas não são grande coisa e Ronaldo é o que é, no espaço de um quadradinho o capitão recebeu com um pé, tirou um adversário em drible e rematou com o outro. Fácil.

O último golo surgiria já aos 84 minutos, do pé esquerdo de um improvável Nelson Oliveira que, no coração da área, apenas teve de aproveitar um corte imprudente do barbudo Faero a um cruzamento de Cristiano Ronaldo, o homem do jogo, o homem que marca mais que Pelé e que, esta noite, foi dono disto tudo.

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