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As noites de Budapeste são noites de rock & roll. E eles gostam

Portugal venceu um jogo complicado em Budapeste. Os húngaros optaram pelo caminho nada simpático da intimidação e houve cotoveladas, solas à mostra e pés em riste. O golo de André Silva, no arranque da segunda-parte, deu os três pontos necessários para manter vivo o sonho da qualificação direta para o Mundial 2018

Pedro Candeias

ATTILA KISBENEDEK

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É preciso contextualizar a referência pouco subtil aos Mão Morta, mas as coisas são o que são e o que se vê, e o que se viu em Budapeste foi uma noite de concerto rock and roll. Não daquele R&R dos refrães orelhudos, mas do outro, do pesado e duro, que, presumo, todos nós associamos a filmes manhosos de Hollywood passados em masmorras igualmente manhosas no leste europeu.

Eu, que nunca estive em Budapeste e nem conheço pessoalmente um húngaro - posso dizer que sei quem são Liszt, Bartók, Johnny Weissmuller e até Cicciolina - só tenho de pedir desculpa por antecipação pela injustiça desta crónica, que resulta somente da pequenina amostra que tenho - o jogo de hoje. E como me pedem para retirar algumas conclusões sobre o mesmo, aqui vai:

Desde o início,os húngaros procuraram o caminho nem sempre simpático da intimidação. O pezinho que fica para trás, a sola que fica para cima, o agarrão na camisola, a peitaça contra as costas - e a muito gráfica cotovelada na cara. Numa delas, Pepe ficou agarrado ao sobrolho a sangrar e o adversário foi expulso. Noutra, Cédric ficou com um olho negro.

Isto aconteceu na primeira-parte, depois da lesão de Fábio Coentrão e da entrada de Eliseu, o homem que continua a aparecer contra todas as improbabilidades que a vida lhe põe no caminho - a idade, o peso, Grimaldo, Raphaël Guerreiro e, agora, Fábio Coentrão.

Fernando Santos apostou em Danilo, Bruno Alves, Gelson Martins, porque percebeu ao que a Hungria ia. Portanto, num jogo mais físico e em que Portugal se sujeitaria a contra-ataques, o melhor era ter músculo e velocidade. Antes do intervalo, houve muito do primeiro item e pouco do segundo, porque Gelson nunca fez o que faz em Portugal - partir para cima do adversário e provocar o erro.

Ainda assim, as melhores oportunidades foram da seleção campeã da Europa, é sempre bonito recordar, que teve em João Mário e, claro, Cristiano Ronaldo os seus melhores jogadores. As trocas constantes entre ambos baralharam os voluntariosos húngaros e o golo só não aconteceu por manifesta azelhice própria na hora de rematar.

Em resumo: Portugal jogou melhor até à expulsão (30’) do jogador húngaro. Portugal somou 16 remates contra quatro, fez três faltas contra 10, e teve 57% de posse de bola. O lógico era que a coisa se resolvesse, mais cedo ou mais tarde.

E, logo no arranque da segunda parte, Cristiano Ronaldo foi quase até à linha de fundo, cruzou e André Silva fez o seu sétimo golo em oito jogos nesta qualificação. Obviamente, sendo este o jogo que foi, o cabecemaneto foi tosco e enrolado - mas contou.

É verdade que, instantes depois, a Hungria podia ter feito o empate, mas não é menos verdade que Portugal assumiu o controlo, diferente de domínio, territorial do encontro. Às tantas, chegou a rondar os 70% de posse de bola ativa, enconstando os magiares lá atrás à procura do 2-0 que nunca apareceu. O que não abona muito a favor de uma equipa que jogou contra 10 durante uma hora, mas acabou por ser suficiente - apesar daquele suspiro final húngaro sustido por Rui Patrício.

Das quatro finais até ao final da campanha, Portugal venceu duas. Agora, faltam Andorra (7 de outubro) e, sobretudo, a Suíça (10 de outubro), com quem a seleção tem umas contas a ajustar.

Desta vez, e se nada lhe acontecer até lá, com Ronaldo. E isso faz toda a diferença.

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