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Mais uma final da seleção contra a história

Hoje há Andorra-Portugal (19h45, RTP1), sim, mas é terça-feira, contra a Suíça, que Portugal irá decidir o apuramento para o Mundial-2018. Só que a última vitória contra os suíços aconteceu em 1993

Mariana Cabral

O último português a conseguir marcar à Suíça foi João Vieira Pinto, em 1993, no apuramento para o Mundial-1994

Clive Brunskill/Getty

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13 de outubro de 1993. Dou um momento ao leitor para se lembrar do que andava a fazer nessa altura — esta jornalista tinha 6 anos, de modo que tem pouco para recordar — e seguimos para o que interessa: já tinha passado o ‘verão quente’ em que Paulo Sousa e Pacheco trocaram a Luz por Alvalade (João Vieira Pinto resistiu à tentação, mas anos depois aconteceu o que se sabe), Fernando Santos já havia começado o campeonato liderando o Estoril Praia (que iria ficar em último lugar), e Cristiano Ronaldo, bom, Cristiano Ronaldo tinha 8 anos e estava a estrear-se pelo Andorinha.

Nessa noite, no antigo Estádio das Antas, no Porto, mais de 40 mil pessoas viram a seleção portuguesa fazer algo que, desde então, nunca mais conseguiu: vencer a Suíça. “Joguei de início, mas não foi um jogo muito bem conseguido, porque, como era hábito, quando a seleção jogava com um ponta de lança contra dois centrais gigantes, era complicado retirar partido das nossas capacidades”, recorda ao Expresso o então ponta de lança titular, Jorge Cadete.

Ainda assim, com um golo de João Vieira Pinto, a seleção do professor Carlos Queiroz vencia um dos últimos jogos decisivos e continuava a sonhar com o apuramento para o Mundial-1994. Mas, infelizmente, acabaria por ficar pelo caminho, ao perder com a Itália e ao ver a Estónia ser derrotada pelos suíços. “Foi quando a Suíça começou a despontar como uma seleção mais coesa. Pensava-se que ia ser um jogo fácil, mas, devido ao facto de a maior parte dos jogadores atuar no campeonato alemão, isso tornava-os mais fortes do que nós”, explica Cadete, então jogador do Sporting. A seleção de Ciriaco Sforza, Alain Sutter e Stéphane Chapuisat terminou com mais um ponto do que a geração de Cadete, Futre e Paulo Sousa e qualificou-se para o Mundial-1994, nos EUA.

Outra vez os (malditos) suíços

24 anos depois, a Suíça está de novo no caminho de Portugal rumo a um Mundial, mas, desta vez, Cadete não tem dúvidas de que serão os portugueses a qualificar-se para a prova do próximo ano na Rússia. “Sendo nós campeões europeus, quem irá para o playoff será a Suíça. Digo isto com convicção”, explica. “A Suíça é uma seleção forte, mas nós somos fortíssimos, somos campeões europeus e jogamos em Portugal, perante o nosso povo, o que nos dará uma energia extra.”

Portugal recebe a Suíça na terça-feira, dia 10 do mês 10, na que será a 10ª jornada do grupo B de apuramento e na que pode ser a 10ª qualificação consecutiva da seleção para fases finais; as outras foram: Euro-2000, Mundial-2002, Euro-2004, Mundial-2006, Euro-2008, Mundial-2010, Euro-2012, Mundial-2014 e Euro-2016.

E é aqui que está a diferença: se, em 1993, Portugal ainda lutava para se afirmar entre os grandes, escorregando aqui e ali, em 2017 é 3º classificado do ranking mundial FIFA (a Suíça é 7ª), já é tão grande como os maiores. E é por isso que todos esperam uma qualificação direta, em 1º lugar do grupo, evitando a passagem pelo playoff, destinado ao 2º classificado.

Jaime Figueiredo

Só que a Suíça não é, historicamente, um adversário fácil. Além de, no apuramento atual, só ter somado vitórias (veja as tabelas), ultrapassa Portugal no registo histórico (em 21 jogos, 10 vitórias para os suíços, 6 para os portugueses e 5 empates) e ganhou os últimos dois jogos que disputou com a seleção nacional: no Euro-2008 (2-0, com os únicos ‘sobreviventes’ de então a serem Bruno Alves, Pepe, Quaresma, Patrício, Moutinho e Ronaldo) e em setembro do ano passado, no que foi o primeiro jogo do grupo de apuramento (2-0).

De lá para cá, Portugal tem tido algo que naquele jogo inaugural não teve: Cristiano Ronaldo, claro está. O capitão não jogou contra a Suíça, por lesão, mas desde então tem sido peça fundamental no ataque português: é o mais rematador da zona europeia de qualificação (64 tentativas) e só não é o melhor marcador, com 14 golos, porque esta semana o polaco Robert Lewandowski fez um hat-trick contra a Arménia e chegou aos 15, o máximo histórico de golos apontados numa qualificação europeia.

Mas Ronaldo ainda tem dois jogos para ultrapassar essa marca, começando já hoje, no jogo que Fernando Santos apelidou de “meia-final”, antes da “final” com a Suíça. É certo que Portugal é amplamente favorito perante a frágil Andorra (venceu sempre com goleadas), mas há constrangimentos a ter em conta: a partida disputa-se num campo sintético e há seis portugueses em risco de ficar de fora contra a Suíça caso sejam ‘amarelados’ esta noite: Fonte, Cédric, André Gomes, Gelson, Quaresma e... Ronaldo.

PASCAL PAVANI/GETTY

Pelo menos no que pode controlar, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) não deixou nada ao acaso, desde a última vitória frente à Hungria, em setembro, quando o engenheiro da seleção disse: “Acima de tudo, é uma viagem terrível. Se tivermos de ir de autocarro, teremos uma viagem de três horas e meia, o que não será bom, especialmente porque pouco depois jogamos com a Suíça. A Federação vai analisar esta opção.”

A solução foi viajar numa aeronave C-295 da Força Aérea, uma operação custeada (habitualmente à volta de €30 mil) pela FPF, que permitiu aterrar no aeródromo de La Seu D’Urgell, em Andorra, e evitar um percurso de três horas de autocarro, que teria de ser cumprido em caso de deslocação num voo comercial para Lérida. A viagem seria especialmente massacrante após a partida contra Andorra, já que o período de recuperação para o jogo com a Suíça é curto. Mas, assim, o impacto nos jogadores é menor e as hipóteses de sucesso maiores. Ou seja, está tudo pronto para a “final”.

Texto originalmente publicado na edição de 7 de outubro de 2017 do Expresso