Tribuna Expresso

Perfil

Seleção

Matámos o complexo de inferioridade

Portugal venceu e apurou-se diretamente para o Mundial da Rússia. Sem continhas extra e mesmo com Ronaldo a jogar mal, a seleção afastou os fantasmas da Grécia e da Dinamarca, campeãs europeias que resultaram em nada

Pedro Candeias

FRANCISCO LEONG

Partilhar

Mesmo quando não é uma final a sério - e a de ontem objetivamente não era, já que depois dela havia ainda a incómoda hipótese playoff contra uma seleção de igual ou menor qualidade do que a portuguesa -, dizia eu, uma final é sempre o jogo mais simples e ao mesmo tempo importante em qualquer desporto. É binário. Sim ou não. Vou ou não vou. Ganhei ou perdi.

Portugal anda há uns anos anda a conseguir coisas jeitosas e até históricas, a maior delas ter triunfado sobre um inimigo jurado do futebol, em casa dele, sem Cristiano Ronaldo, e com um golo improvável no prolongamento que rasgou o complexo de inferioridade agrafado ao contexto social - o português pedreiro e a portuguesa-a-dias em França. Porque foi como foi, e não devemos esquecer os empates na fase de grupos e as exibições forçadas e os jogos ganhos no limite das forças e do tempo, Portugal foi um campeão europeu desconsiderado pelos colegas europeus. Escreveu-se que teve sorte no emparelhamento, e é evidente que teve, que jogou à defesa, o que também é verdade, mas poucas vezes se falou em competência - e Portugal teve-a.

Portugal foi competente quando anulou Modríc, Lewandowski, Bale e Griezmann. E foi competente quando marcou mais golos do que o adversário. Seja como for, Portugal foi comparado à Grécia de 2004 ou até à Dinamarca de 1992, equipas que, segundo os puristas alemães, espanhóis, ingleses, franceses e italianos, tinham sido campeãs da Europa vá lá saber-se como e porquê.

Ir pelo caminho da inexplicabilidade para justificar o nosso falhanço é uma possibilidade legítima como qualquer outra, mas esconde o ressentimento; e foi assim que a narrativa do acaso se colou a gregos e dinamarqueses, espécies de one-hit-wonder do futebol europeu porque nunca mais fizeram algo remotamente parecido.

Obviamente, Portugal corria o mesmo risco: a seleção de Ronaldo era apenas isso, a seleção de Ronaldo que ganhou estupidamente um Euro num belo final de tarde parisiense com traças à mistura. E é por isso que a final de ontem, era mais do que uma final, mesmo não sendo uma final a sério: Portugal tinha de provar que era capaz de chegar a um Mundial sem recurso a continhas extra num grupo que era francamente acessível. E fê-lo mesmo com Ronaldo a jogar mal e a falhar ridiculamente um golo, mas com boas exibições de João Mário, Moutinho, Pepe, André Silva e Bernardo Silva, gente de tempos diferentes que constroem o puzzle de Fernando Santos, o supremo agregador de personalidades do nosso tempo.

Porque, convém recordar, Santos começou por chamar os proscritos de Paulo Bento - Tiago, Bosingwa, Ricardo Carvalho ou Quaresma - e foi com alguns deles que chegou ao Euro2016; depois, caíram todos, menos um (Quaresma), sem broncas ou justificações, enquanto outros se foram aproximando consistentemente da titularidade. E, hoje, Portugal tem uma equipa com múltiplas soluções para jogar de múltiplas formas contra múltiplos adversários: em contenção, em contra-ataque, e em posse.

Não sei se é a melhor seleção de sempre, mas no meu tempo nunca vi tantos selecionáveis acima da média. E este é um jogo que em última análise depende da qualidade de quem o joga. É um conceito binário bastante simples e: ou se é bom, ou não se é.