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Depois de Pepe e Bruno Alves, mais nada?

Não falta qualidade para o futuro da Seleção, que já garantiu a sua presença no Mundial. Tirando no eixo da defesa, em que não há soluções óbvias para o pós-Rússia. Mas o ex-central Jorge Andrade diz à Tribuna Expresso que há esperança

Lídia Paralta Gomes

Pepe deverá fazer na Rússia a sua última competição internacional 
pela Seleção de Portugal

FOTO PEDRO NUNES/REUTERS

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Por estes dias, Fernando Santos deve dormir descansado. Portugal está no Mundial, tem equipa e jogadores para jogar como quer, a piscina de selecionáveis é grande e já ninguém se envergonha na hora de chamar a esta a melhor Seleção de sempre. É só contar estes, um por um: Bernardo Silva, João Mário, William, Danilo, André Silva, Gelson, Bruno Fernandes, André Gomes, Renato, Cancelo, Nelson Semedo, Raphäel, Cédric, Ricardo Pereira... Enfim, aconteça o que acontecer na Rússia, o futuro parece risonho.

Mas, esperem, será mesmo assim tudo perfeito? Ou no meio do sono dos justos do selecionador nacional há um daqueles pesadelos recorrentes que nos fazem acordar estremunhados e com suores frios?

Pois, esse pesadelo existe e chama-se ‘eixo da defesa’, onde o leque de jogadores de comprovada qualidade está longe de ser vasto. Na Rússia, os três centrais em quem Fernando Santos mais confia estarão bem para lá dos 30 anos. Pepe terá 35, Bruno Alves 36 e José Fonte 34. Já Neto, outro dos habituais convocados, terá 30. Para Pepe e Bruno Alves, o Mundial de 2018 será mais do que provavelmente a última grande competição por seleções em que estarão presentes. Talvez também para José Fonte. Depois do Mundial, restará Neto e a dúvida: quem vai ocupar o lugar dos trintões?

Além dele e antes de Pepe, Bruno Alves e José Fonte, houve Fernando Couto, Jorge Costa, Ricardo Carvalho ou Fernando Meira. Agora, e pela primeira vez em anos, não parece existir um sucessor de caras. Mas Jorge Andrade, o antigo central do FC Porto e do Deportivo da Corunha, diz que as soluções, mais ou menos óbvias, existem.

“Há jogadores que, num futuro próximo, gostava de ver na Seleção nacional. O Ricardo Ferreira do Braga, por exemplo, que tem tido muitas lesões, mas é um jogador com muita qualidade. Ou o Rúben Semedo, que foi para o Villarreal e, apesar de ainda estar numa fase de adaptação, tem experiência nos sub-21, tal como o Tobias Figueiredo, do Sporting. São jogadores que podem chegar à Seleção no imediato, mas esperemos que até lá outros possam aparecer e fixar-se nos seus clubes”, frisa o agora treinador, que aponta outra possível hipótese para Fernando Santos: a adaptação de Danilo ou William Carvalho a defesa central. “São dois jogadores que já fizeram a posição, e essa é uma opção viável. Mesmo durante o Campeonato do Mundo, se existir algum problema com lesões com os centrais, parece-me uma solução que pode ser usada, não vejo qualquer tipo de problema”, explica.

Jorge Andrade, ex-internacional português que jogava a defesa central

Jorge Andrade, ex-internacional português que jogava a defesa central

Clive Mason/Getty

A veterania da linha defensiva da Seleção não é algo que, para já, preocupe o antigo central. Até porque estamos a falar de uma posição bastante específica, em que a experiência conta muito. “Acho que não podemos ficar preocupados com os jogadores que temos. Talvez apenas no caso de aparecerem avançados muito rápidos. Mas aí os jogadores com mais experiência, como os nossos, jogam não tanto na velocidade mas sim na colocação.”

Por muito que as soluções existam, a verdade é que nenhuma delas nos deixa absolutamente descansados, contrastando, por exemplo, com a lateral direita, em que sobram opções para Fernando Santos: no último ano, chamou Cédric Soares, Nélson Semedo, João Cancelo e Ricardo Pereira. Todos eles potenciais titulares.

A falta de centrais com carimbo de qualidade para substituir Pepe e Bruno Alves tem culpados. “Também tem muito a ver com a aposta dos clubes. Se formos analisar, FC Porto, Sporting e Benfica jogam com centrais estrangeiros, o que mostra que a aposta não tem sido feita. O Sporting ainda o fez numa primeira fase, mas entretanto já vendeu o Rúben Semedo e o Paulo Oliveira”, sublinha Jorge Andrade. O ex-central diz que a procura de “resultados imediatos” faz com que os principais clubes portugueses não sejam pacientes e apostem em centrais mais velhos e experientes. “E isso prejudica a Seleção nacional”, lembra.

Essa é a grande preocupação de Jorge Andrade no que ao futuro da Seleção diz respeito. O futuro que chegará não tarda, logo a seguir ao Mundial da Rússia, no verão do próximo ano. “Preocupa-me, naturalmente, que nenhum dos três grandes tenha um central português a titular. Mas há outro tipo de apostas que se pode fazer. Como já disse, descer um trinco como o Danilo ou o William, e a eles juntar, por exemplo, Rúben Semedo. No Benfica, o Rúben Dias está à espreita... Mas vamos ter de esperar para ver.”

Fernando Santos, que não é homem de esperar para ver, tem os próximos meses para começar a testar o futuro da defesa da Seleção nacional. Para não ser apanhado desprevenido no pós-Rússia.

Texto originalmente publicado na edição de 14 de outubro de 2017 do Expresso