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Fernando Santos e os 40 convocáveis

Ao contrário do que aconteceu com a Arábia Saudita, Portugal não se conseguiu impor perante os EUA (1-1), mas o objetivo essencial de Fernando Santos foi cumprido

Mariana Cabral

FRANCISCO LEONG/GETTY

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Antes de irmos ao Portugal-EUA, temos de falar sobre o elefante na sala.

A Itália não vai ao Mundial-2018. E o problema está aqui:

"Che cazzo entro io? Non dovemo pareggià, dovemo vince!"

Quando os italianos estavam desesperados por marcar, frente à Suécia, De Rossi disse o que qualquer um com olhos e cérebro (e que costume ver o Nápoles jogar, já agora) diria: “Por que caralho entro eu? Temos de vencer, não empatar”.

E, enquanto desabafava, De Rossi apontava para Lorenzo Insigne, assumindo que deveria ser o avançado a entrar. Mas o pequeno criativo do Nápoles não saiu do banco. E a Itália não marcou - e não se qualificou para o Mundial.

É o que dá quando não se aprecia o (pouco) talento que se tem.

O que nos traz, então, a Portugal. Onde a história, hoje em dia, é bem diferente. E começa assim:

era uma vez um selecionador chamado Fernando Santos, que viajava por todo o Portugal (e arredores) para trazer jogadores para a seleção. O engenheiro tanto observou que, desde setembro de 2014, conseguiu estrear 31 novos jogadores. E, segundo o próprio, ter agora "40 jogadores que podem ser convocados para o Mundial-2018".

A lista, mais coisa, menos coisa, deve ser esta:

Guarda-redes: Anthony Lopes (Lyon), Beto (Goztepe), Rui Patrício (Sporting) e José Sá (FC Porto);

Defesas: Fábio Coentrão (Sporting), Antunes (Getafe), Bruno Alves (Glasgow Rangers), Cédric Soares (Southampton), Eliseu (Benfica), José Fonte (West Ham), Luís Neto (Fenerbahçe), Ricardo Ferreira (Sp. Braga), Nélson Semedo (Barcelona), Pepe (Besiktas), Edgar Ié (Lille), Kévin Rodrigues (Real Sociedad), João Cancelo (Inter), Ricardo Pereira (FC Porto), Raphaël Guerreiro (Borussia de Dortmund);

Médios: Adrien (Leicester), Pizzi (Benfica), André Gomes (Barcelona), Bernardo Silva (Manchester City), Bruno Fernandes (Sporting), Danilo Pereira (FC Porto), João Mário (Inter), João Moutinho (Mónaco), Renato Sanches (Swansea), William Carvalho (Sporting), Rúben Neves (Wolves), Manuel Fernandes (Lokomotiv Moscovo);

Avançados: André Silva (Milan), Cristiano Ronaldo (Real Madrid), Eder (Lokomotiv Moscovo), Gelson Martins (Sporting), Gonçalo Guedes (Valência), Ricardo Quaresma (Besiktas), Nélson Oliveira (Norwich), Bruma (Leipzig), Rony Lopes (Mónaco).

Bom, 41, se contarmos - e temos de contar - com Nani (Lázio), que não é chamado desde o jogo contra a Letónia, no final do ano passado, mas é sempre um dos preferidos de Fernando Santos.

Octavio Passos

Isto quer dizer que, juntando convocatórias habituais com ocasionais, chegamos a uma conclusão inapelável: em 2017, há muitos bons jogadores de nacionalidade portuguesa (e isto vem da base da pirâmide: esta terça-feira, os sub-17 portugueses venceram a Rússia, por 5-3; os sub-19 venceram a Espanha, por 2-1; e o sub-21 venceram a Suíça, por 2-1).

Citando Fernando Santos: "Vai ser muito difícil para mim, mas é bom ter esta dor de cabeça, é sinal da qualidade do jogador português".

Sim, o jogador português tem talento e sim, Fernando Santos tem, depois destes dois particulares, mais opções entre as mãos - começando por Manuel Fernandes, o médio que andou esquecido durante cinco anos e regressou (e logo com um golo) contra a Arábia Saudita.

Ainda assim, também foi óbvio para todos que, esta terça-feira, contra os EUA, a seleção não esteve tão bem como contra a Arábia Saudita. Os norte-americanos, que não se qualificaram para o Mundial, queriam mostrar serviço e apareceram muito pressionantes em campo, dando pouco tempo e espaço aos portugueses para decidir e executar, com a solução mais fácil a ser invariavelmente os lançamentos longos na frente.

Com sete alterações em relação ao último jogo, esta noite entraram em campo Beto, Semedo, Pepe, Ricardo Ferreira, Antunes, Danilo, Manuel Fernandes, Gelson, Bruma, Bruno Fernandes e Gonçalo Guedes - destaque para Ricardo Ferreira, central do Sporting de Braga que se estreou.

Em 4-3-3, faltou a Portugal a capacidade de manter a bola em seu poder, porque hoje não tínhamos no meio-campo os (super) talentosos Bernardo Silva e João Mário e porque a frente de ataque era mais propícia à velocidade do que à pausa.

Gonçalo Paciência estreou-se na seleção A frente aos EUA

Gonçalo Paciência estreou-se na seleção A frente aos EUA

FRANCISCO LEONG/GETTY

Logo no primeiro minuto, os EUA assustaram Beto com dois remates de seguida e ainda não estavam decorridos uma dezena de minutos quando Pepe teve de ser substituído por Neto, por lesão. E não demorou muito para se perceber que, ao que tudo indica, as maiores dores de cabeça de Fernando Santos estarão no centro da defesa.

Aos 21', na área portuguesa, Weston McKennie livrou-se da contenção ineficaz de Ricardo Ferreira e avançou sozinho para golo, já que Neto estava demasiado longe para conseguir fazer a cobertura ao colega.

O 1-0 espelhava com justiça o que se via em campo: uns EUA mais eficazes e mais perigosos do que Portugal. Ainda assim, aos 30', a seleção conseguiu começar a melhorar e... empatar: Antunes, com um cruzamento que saiu diretamente para a baliza, superou o guarda-redes Ethan Horvath, que deixou a bola passar por baixo das pernas.

Se o frango já era mau, a imagem do guardião ainda piorou, quando entregou a bola de forma deficiente e Danilo quase aproveitou para fazer o 2-1. Ao intervalo, Horvath saiu e Bill Hamid entrou, mas o substituto também ia borrando a pintura quando largou um forte remate de Antunes à entrada da área.

Corrigiu a tempo e conseguiu manter a baliza segura durante os últimos 45 minutos, mesmo quando não tocou na bola: o estreante Gonçalo Paciência (entrou ao intervalo) cabeceou à trave.

Do outro lado, a trave também ajudou a evitar o golo, assim como duas grandes defesas de Beto, que teve bem mais trabalho do que Anthony Lopes contra a Arábia Saudita.

No final, 1-1 e mais três estreias na seleção (Rony Lopes também entrou, pelo que José Sá foi o único 'novato' que não jogou). E a certeza de que temos uma bela lista de convocáveis.