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La donna è immobile (e assim se acabou o romantismo)

A Itália ficou fora do Mundial e a culpa é dela, porque parou no tempo enquanto o mundo andou para a frente. E a ideia romântica associada à infalibilidade italiana deixou de existir

Pedro Candeias

MARCO BERTORELLO/afp/getty

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Apesar de tudo, ninguém estava a sofrer por antecipação. Fatalmente como o destino, a Itália iria marcar um golinho aos 90’ e numa recarga de um penálti falhado o jogo seguiria para prolongamento e a um minuto do fim chegaria naturalmente o 2-0 num cabeceamento do Totti.

Sim, do Totti, que nesta coisa da improbabilidade não há como os italianos: o Totti interromperia a reforma, disfarçaria o perímetro abdominal e pularia mais alto do que um cacho de grandalhões aloirados, repondo, assim, o curso natural da História. Como em tantas outras ocasiões, a Itália não ia jogar nada mas ia jogar o Mundial, e no Mundial - é uma verdade universal , já se sabe - há que “contar sempre com os italianos”.

Só que a Itália nem aos descontos chegou. A Itália, imagine-se, teve 75% posse de bola, massacrou a Suécia, cruzou que se fartou, quase tanto quantos os lances que falhou, e não fez o golo proverbial que nos acostumámos a escarnecer, roídos por não termos o Casiraghi, o Schillaci ou o Pippo Inzaghi, avançados com jeito para poucochinho mais do que, vá, marcar. E a Itália foi eliminada pela Suécia (1-0 e 0-0) e ficou fora do Mundial pela terceira vez 60 anos depois da segunda vez, no Suécia 1958.

O futebol, esse acontecimento de emoções

O futebol, esse acontecimento de emoções

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Para alguns é irónico e merecido, para outros é apenas natural que apareçam outras equipas a jogar futebol; para mim é desolador e é estúpido. Porque havia uma ideia romântica associada à infalibilidade italiana que deixou de existir frente a uma seleção tornada irrelevante desde que Ibrahimovic abdicou.

Cresci com o meu pai a contar como tinha festejado o Mundial de 1982 no meio deles e no meio de África, com o Chianti e a birra e a carbonara e o festejo épico do Tardelli. Até sei os primeiros versos do hino, “irmãos de Itália, a Itália acordou com o elmo de Cipião e cobriu a cabeça”, sendo Cipião Africano o estratega que bateu habilmente Aníbal, o que calha bem, tendo em conta aquilo que se conta do futebol transalpino, cínico e assim.

A Itália foi sempre a minha segunda seleção, porque fui criado no meio de italianos no tempo em que eles jogavam seriamente à bola: anos 80 e 90. E quando digo seriamente, também digo revolucionariamente, e o exemplo maior é o do AC Milan do Arrigo Sacchi que tinha o meu herói futebolístico, o Gullit.

O Milan, aliás, continuou a ser a minha equipa lá fora, embora – e por mais incoerente que possa parecer – confesso ter fraquinhos pela Juventus e pela Roma e pela Fiorentina. Como muitos de vós, posso nomear de cor e sem dificuldade alguns grandes jogadores de futebol de então, e não são todos necessariamente defesas: Baresi, Maldini, Tardelli, Costacurta, Ferrara, Donadoni, Dino Baggio, Roberto Baggio, Albertini, Chiesa, Zola, Casiraghi, Paolo Rossi, Cabrini, Mancini & Vialli, Scirea, Del Piero, Vieri, Inzaghi.

O futebol nem sempre era bonito, só que era terrivelmente cínico e eficaz, e havia jogadores francamente talentosos em todas as posições do campo. À partida, havia uma probabilidade estatística que os rivais tinham de circundar: a derrota por 1-0.

Hoje, se fizermos este mesmíssimo exercício, e se formos absolutamente honestos, há uma única equipa fortíssima, que é a Juventus, e o fora de série é Buffon, que faz 40 anos em janeiro.

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Bonucci tem 30 e Candreva também, Parolo 32, Barzagli 36, Chiellini 33 e De Rossi 34. Estes sete jogaram contra a Suécia em Estocolmo e em San Siro só De Rossi não foi a jogo de início, nem quando o selecionador Gian Piero Ventura o quis pôr a meio. Ou seja, estão todos velhos.

E já estavam velhos quando Antonio Conte operou aquele pequeno milagre no Euro 2016, em que pôs a Itália a jogar no campo todo, olhos nos olhos com a Espanha (2-0). Só que isso aconteceu num contexto especial - o enérgico e competente Conte fora treinador de muitos deles na Juventus e a Itália aproveitou o seu 3x5x2 surpreendentemente maleável e intenso para surpreender os adversários.

Por outro lado, Gian Pero Ventura, cujo grande feito fora pôr o Torino na Liga Europa, espalhou-se ao comprido nas convocatórias, nas escolhas e nas táticas, que variaram entre o 4x2x4, o 3x4x3, até ser obrigado pelos jogadores, diz-se, a optar pelo 3x52 de Conte. O homem não estava evidentemente à altura do trabalho, e a embirração com Insigne (Nápoles) é disso exemplo, mas a culpa só é dele na medida em que aceitou o irrecusável - ser selecionador italiano. O problema é maior do que a nomeação de um treinador; o problema é endémico.

E por mais que agora se fale na renovação e em miúdos como Romagnoli (AC Milan), Rugani, Spinazzola, Caldare, Bernardeschi (Juventus) e Belotti (Torino), o declínio do futebol italiano, sobretudo a qualidade dos futebolistas italianos, é inegável.

Uma forma de olhar para isto é analisar o histórico recente nas camadas jovens: em sub 21, a Itália foi finalista vencida em 2013 e semifinalista em 2017, mas não vence um Europeu há 13 anos (entre 1992 e 1996 conquistou três, consecutivamente; foi ainda campeã em 2000 e 2004). Por outro lado, a Itália não se qualificou para os mundiais de sub 20 de 2011, 2013 e 2015, e ficou em 3.º este ano. E se repararem na última convocatória desta categoria - um particular contra Portugal, em outubro -, verão que só três futebolistas são de clubes grandes (Juventus, AC Milan e Inter) e que os outros estão emprestados por emblemas menores a emblemas ainda menores.

Uma última curiosidade: nesse mesmo jogo, Portugal fez-se representar por jogadores do Benfica B, Sporting B, FC Porto B e Vitória de Guimarães. Resultado? 4-2, para Portugal

“La donna” de Verdi deixou de ser “mobile”; ficou imóvel e agarrada à presunção da superioridade enquanto o mundo andou para a frente.