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O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. E o tempo respondeu: “Mário Rui? É complicado”

Este será o último par de encontros que Portugal joga antes de, algures em maio, se saber quem vai ao Mundial. Serão os 180 minutos de jogo, os treinos e a convivência que Mário Rui e Rolando, os únicos que nunca tinham sido convocados por Fernando Santos, mais terão de aproveitar

Diogo Pombo

NurPhoto

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Ei-lo, com as mãos entre as pernas, com um quê de cara de quem está algo nervoso por ali estar. É a primeira vez que Mário Rui apareceu, cumprimentou toda a gente, treinou, foi praxado e, como não poderia de ser, falou aos jornalistas por ser a novidade que restou dos infortúnios. Admite que não o esperava, que nervoso ficou quando, em Roma e a aproveitar uns dias de folga com a família, recebeu um telefonema a convocá-lo para Lisboa. Daí para a frente, nada de nervos ou formigueiros no estômago, garante.

E o melhor para ele é que não os tenha mesmo.

Mário Rui, um lateral atacante, mas baixo em altura, sprintador para a frente, mas frágil nas bolas que exploram as suas costas, um senhor de bigode que, em décadas idas, abundava na seleção, é um de dois jogadores rodeados por um contexto especial - e urgente.

O português com sete anos de vida em Itália é, como Rolando, um jogador que Fernando Santos nunca vira a treinar. A dois meses, mais coisa ou menos coisa, de se saber quem serão os jogadores que irão com a seleção ao Mundial da Rússia, eles são os únicos a quem a expressão recuperar o tempo perdido nem se aplica. Porque Mário Rui e Rolando nunca o tiveram com o selecionador.

Para eles, o tempo urge.

O italiano de bigode

Mário Rui partirá sempre atrás de Raphaël Guerreiro, o suposto titular à esquerda da defesa, mesmo que com lesões várias esta época e a jogar num Borussia Dortmund inconstante (terceiro lugar na Bundesliga, caído da Liga dos Campeões e eliminado nos “oitavos” da Liga Europa). Terá os jogos contra o Egito, na sexta-feira, e a Holanda, na segunda-feira, mais os treinos e a convivência pelo meio, para se equiparar a Fábio Coentrão na vaga que pertenceu a Eliseu no Europeu de há dois anos.

Ser, em teoria, o plano B para a lateral esquerda, embora pouco fiel ao que o açoriano do Benfica era: alguém mais posicional, atinado e prudente que Guerreiro, por ser mais lento, pesado e demorado a reagir e a rodar o corpo para compensar distrações.

Tanto Mário Rui como Fábio Coentrão, que já fora convocado durante a qualificação (28 minutos frente à Hungria), têm mais intensidade, olho para a frente e chegada na passada à linha de fundo, a sítios onde possam cruzar a bola, do que Eliseu. Mais do que um plano B, será um plano parecido a Raphaël Guerreiro que oferece umas quantas coisas distintas.

O homem do bigode, especialmente. Não tanto pela suas qualidades inatas, que são várias, mas talvez porque vem de Nápoles e de uma equipa que impõe que se jogue, corra e pense a tocar muito na bola, mas com poucos toques de cada vez. Em progressão conjunta, a explorar os espaços, a parar, olhar e pensar, e não apenas ir para a frente com tudo.

Mário Rui está habituado a um estilo de jogo, sobretudo, de segurança no passe e de muitos passes, o que pode favorecer a seleção de um lado em costuma estar um médio de bola no pé e não um extremo de ataque à área – por hábito, Bernardo Silva ou Ricardo Quaresma jogam à direita e Fernando Santos sempre compensou a presença de um jogador de linha com um homem de meio campo, do outro lado do campo.

O francês

Mais atrás, ao centro da defesa, Rolando é uma novidade que, radiografada pelos números, parece não destoar. O central tem 32 anos e enquadra-se no que já é tradição ser um lote trintão de centrais.

Manuel Blondeau

O problema não é de agora e não será fácil que haja brevidade na sua solução, devido a várias coisas.

Além de os defesas para jogarem ao centro não terem caído das árvores nas últimas duas décadas – como, por exemplo, os extremos ou os médios –, os que apareceram não chegaram ao nível de José Fonte, Bruno Alves e, sobretudo, de Pepe, que têm 34, 36 e 35 anos (isto para não escrever que, não tendo o luso-brasileiro, como não terá neste par de jogos, a seleção sofrerá sempre mais).

Apenas Pepe é um central ágil a movimentar-se, rápido a reagir a bolas nas costas e sem medo quando tem de enfrentar um adversário com espaço entre ele e a baliza. José Fonte e Bruno Alves são o oposto, muito mais especialistas a guardar a posição, a não errarem na colocação em campo e cautelosos em formar a linha longe da sua área. E, mesmo Pepe, não está a ficar mais novo, o que faz com que a seleção, com Fernando Santos, nunca tenha os quatro defesas muito longe de Rui Patrício quando a equipa adversária tem a bola, com gente de frente para a baliza portuguesa.

Não será Rolando a dar um tipo de central diferente, embora dê a experiência e segurança dos restantes, mais o hábito de, esta época, jogar numa equipa que pede muito que sejam os defesas ao meio a dar saída à bola e a construírem jogadas pela relva.

O central diferente seria Rúben Dias, os 20 anos de velocidade de ponta e reação que se agarraram à titularidade no Benfica, a quem uma lesão retirou a primeira oportunidade de tentar o mesmo na seleção nacional.

E também não será Luís Neto. O central que tem sido mais um remendo quando falta alguém e, aos 29 anos, depois de seis temporadas de Zenit, na Rússia, e da que está a fazer no Fenerbahce, na Turquia, talvez esteja há demasiado em campeonatos que não os melhores da Europa. Outro problema central, e comum, aos centrais portugueses que deverão ir ao Mundial – José Fonte está no Dalian Yifang, da China; Bruno Alves no Glasgow Ranger, da Escócia (onde tem apenas 183 minutos de futebol em 2018); e Pepe no Besiktas, da Turquia.

Mas Rolando joga no Marselha, de França, num campeonato que ainda consta entre os cinco melhores da Europa, com outro ritmo e competitividade e a ter de lidar, também, com outro tipo de atacantes. Leia-se, tipos habilidosos e chatos para quem defende, como Neymar, Cavani, Di María ou Draxler (serem todos do adversário com mais dinheiro, claro, é pura coincidência).

Ele e Mário Rui são os dois jogadores a quem o tempo urge por esse tempo lhe ter faltado durante a qualificação. Porque o tempo não exigirá tanto dos outros quatro que, verdadeiramente, estarão à prova nestas duas partidas que Portugal terá a 23 e a 26 de março.

Os Fernandes

Manuel e Bruno, os dois Fernandes, estiveram na ronda anterior de encontros, ambos mostraram coisas boas, os dois pareceram mesclar-se sem esforço com o tipo de médios da seleção. Um deverá lutar com o outro caso a ideia de Fernando Santos seja ver quem poderá ocupar a vaga que, há dois anos, foi de Renato Sanches, caído em má forma e sem confiança.

Rúben Neves, mesmo que a colecionar elogios e olhados surpresos em Inglaterra, está a jogar na segunda divisão e terá sempre William Carvalho e Danilo como os trincos cativos, como o selecionador já sugeriu. E Gonçalo Guedes talvez seja o mais seguro entre os genuinamente testados, pois Nani, que seria o segundo tipo com mais internacionalizações da equipa (112, atrás das 147 de Ronaldo), continua a ter a época mais instável da carreira. O extremo apenas foi titular em seis partidas, só marcou três golos e até já se envolveu numa briga com um adepto da Lazio que o terá acordado a meio de um voo.

O tempo também urge também para ele. Mas, talvez, de uma forma definitiva.