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Sa... quê? Quem tem Ronaldo, tem esperança no Mundial

O Egito marcou primeiro, por Mohamed Salah, o avançado (do Liverpool) que mais marcou na Europa esta época, mas Portugal tem Cristiano Ronaldo, e quem tem Cristiano Ronaldo pode marcar dois golos nos descontos e vencer um jogo que parecia perdido (2-1)

Mariana Cabral

Cristiano Ronaldo marcou os dois golos de Portugal frente ao Egito

FABRICE COFFRINI/GETTY

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Há entrevistas excelentes que, sendo de futebol, pouco têm de futebol, como estas d' A Casa às Costas, aqui mesmo, na Tribuna Expresso. Mas, que me perdoe a camarada Alexandra Simões de Abreu: as minhas entrevistas preferidas são mesmo aquelas que, sendo de futebol, transbordam de frases sobre o jogo.

Como esta, publicada esta sexta-feira pelo "El País", ao internacional espanhol Saúl, jogador do Atlético de Madrid, que passa metade da conversa a falar sobre Busquets, jogador do Barcelona:

"Ele leva-te a fazer a jogada seguinte. Porque ele tenta passar-te a bola da melhor forma possível, de modo a que tu já saibas o que tens de fazer. Se ele te dá a bola mais para trás, é para que voltes, e se ele te dá a bola de frente, é porque estás só e podes virar-te. Ele fá-lo com muita facilidade. Eu, para conseguir fazer isso, tenho de estar muito concentrado e isso faz-me ter um cansaço mental maior. Para ele é fácil."

Vem isto a propósito de Cristiano Ronaldo e Mohamed Salah, os únicos dois tipos a quem, no Portugal-Egito, tudo pareceu fácil. Porque jogar numa seleção nunca é fácil, mas é particularmente difícil quando se tem apenas três dias de estágio para preparar um jogo e os nossos convocados falam todos linguagens diferentes - futebolisticamente falando, claro está.

Porque, assim, onze tipos entram em campo para jogar um jogo que é coletivo, mas que, aqui, acaba por se tornar bem mais individual do que seria desejável, porque sem treino e repetição e conhecimento não há organização que resista.

Mesmo com muitos dos habitués em campo, a seleção portuguesa teve muitas dificuldades para se impor perante um Egito frágil. No 4-4-2 que já se tornou habitual, Beto na baliza, Rolando na defesa e Neves no meio-campo (a 'seis') foram as novidades de Fernando Santos, com Cédric, Bruno Alves, Guerreiro, João Mário, Bernardo Silva, João Moutinho, André Silva e Cristiano Ronaldo a ocuparem as restantes posições.

Robbie Jay Barratt - AMA

Logo nos primeiros minutos, Guerreiro - que ainda só tem 55 minutos de jogo pelo Borussia Dortmund desde janeiro - entendeu-se às mil maravilhas com Ronaldo, pelo corredor esquerdo, mas o capitão não conseguiu superar o guardião Al-Shenawi.

Depois disso, pouco mais se viu de Portugal, que dominava, sim, tendo mais bola e mais remates (quase sempre por Ronaldo), mas não criava oportunidades de golo dignas desse nome, essencialmente porque os médios mais exteriores, João Mário e Bernardo Silva, se esqueceram que eram "falsos" extremos e ficavam demasiados colados aos corredores laterais.

Com Ronaldo também a cair frequentemente nessas zonas, o corredor central acabava despovoado e Moutinho pareceu sempre pouco afirmativo naquele papel solitário - talvez as características de Bruno Fernandes ou Adrien caiam melhor ali.

Aos 24', um atraso ao guarda-redes deu a Portugal um livre indireto na área do adversário. O remate de Ronaldo passou por todos os jogadores egípcios... menos Said, que estava mesmo em cima da linha de golo, e tirou a bola dali.

De resto, na 1ª parte, como resposta a Ronaldo, o Egito só conseguiu um remate de Abdallah Said na área, mas Beto fez uma bela defesa. Só não conseguiu fazer o mesmo num remate certeiro, aos 56', do homem que mais marca na Europa esta época: Mohamed Salah.

O avançado do Liverpool, que já leva 28 golos na corrida à Bota de Ouro - Lionel Messi tem 25 e Ronaldo tem 22 -, foi sempre o mais perigoso dos egípcios, mostrando, cada vez que tocava na bola, que estava um patamar acima dos restantes.

O problema é que, acima do patamar de Salah, esta noite, havia um outro homem: Cristiano Ronaldo. O capitão que, nos minutos finais, já estava a perder a compostura, estrebuchando com os colegas para que povoassem a área adversária, decidiu fazer ele mesmo o que os outros não estavam a fazer, especialmente quando já estava Guedes na frente de ataque (por troca com André Silva) e Gelson e Quaresma nos corredores: ir para a zona de golo.

Foi ali que, já nos descontos, quando Portugal já era mais improvisação do que organização, Ronaldo subiu às alturas para fazer o 1-1, depois de um cruzamento perfeito de Quaresma. E mesmo quando o resultado já parecia feito, nem Quaresma nem Ronaldo se resignaram: aqui vai disto para a área e novo golo de cabeça do capitão.

E foi assim que mesmo com uma 2ª parte bem mais fraca do que a 1ª (que já não tinha sido particularmente feliz), Portugal venceu o Egito. Como disse recentemente André Silva, na gala das Quinas de Ouro: "Os jogadores que estão aqui não sabem se vão estar no Mundial. Só o Cristiano Ronaldo é que sabe. Os restantes vão ter de trabalhar”. Nem mais.