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Quando aquilo em que éramos bons é aquilo que agora nos preocupa

O Portugal-Tunísia (2-2) foi 4.º jogo consecutivo da Seleção Nacional a sofrer golos, algo nunca antes visto no reinado de Fernando Santos. A solidez defensiva, marca d'água da equipa do Engenheiro, parece não viver os seus melhores momentos, isto a pouco mais de duas semanas do Mundial da Rússia

Lídia Paralta Gomes

Gualter Fatia/Getty

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Mesmo, mesmo no final da conferência de imprensa após o jogo que nos consagrou campeões da Europa, aqui há quase dois anos (jesus, já passaram quase dois anos), um jornalista brasileiro perguntou a Fernando Santos se poderia resumir a participação portuguesa, sofrida, de sacrifício e de uma grande eficácia, num único provérbio.

Qualquer outro treinador andaria à volta da questão, daria uma resposta qualquer genérica, até porque, convenhamos, não andamos todos com provérbios na cabeça para usar assim à primeira pergunta, mesmo quando acabámos de nos sagrar campeões da Europa.

Mas Fernando Santos é um homem diferente e é também um homem de fé. E muniu-se da Bíblia para dar uma resposta rápida, na ponta da língua: “Fomos simples como as pombas e prudentes como serpentes”.

É bem verdade. Das Seleções de Portugal sempre esperámos belos jogadores, belo futebol mas, também diga-se, demasiados rodriguinhos e eliminações à conta de equipas mais experientes e matreiras. No Euro’2016, Portugal tornou-se essa equipa eficaz, fria, solidária, que defendia muito bem, com grande solidez e aproveitava o trabalho de sapa da defesa e da linha média para no ataque conseguir marcar. A Seleção Nacional dáva-nos então assim uma espécie de segurança até então nunca antes vista, mesmo que não tivesse aquele futebol rendilhado de outros tempos.

Pois bem, a pouco mais de duas semanas de arrancar o Mundial da Rússia, onde Portugal aterra com as responsabilidades de campeão da Europa, a tal organização defensiva que nos deixava descansados, parece estar a viver uma qualquer crise de identidade, que foi bem evidente neste jogo de preparação com a Tunísia, que terminou 2-2, depois de Portugal ter estado tranquilamente a vencer por 2-0 e, dentro do possível nesta altura, a jogar bem.

Os erros defensivos já tinham sido evidentes nos últimos três particulares, com Estados Unidos (1-1), Egito (2-1) e, essencialmente, no descalabro que foi o jogo de preparação com a Holanda (3-0). Com este resultado frente à Tunísia, são já quatro jogos seguidos sofrer, algo nunca visto no reinado de Fernando Santos - a última vez que tal aconteceu foi na transição para e no Mundial’2014, ainda com Paulo Bento.

Na 1.ª parte, Portugal chegou com naturalidade aos 2-0, após uma entrada positiva, já com boas combinações entre linhas e algumas triangulações interessantes, que fizeram esquecer alguns maus passes que, nesta altura do campeonato, parecem apenas uma questão de treino.

Aos 23’, após uma jogada que começou em William, que empurrou a equipa para o ataque, Quaresma sacou da cartola um daqueles cruzamentos teleguiados, que foi encontrar a cabeça de André Silva para marcar o primeiro da noite e o golo 1000 da Seleção Nacional. E pouco mais de 10 minutos depois, João Mário, talvez o melhor em campo da Seleção, aproveitando um ressalto após um canto, enviou um míssil já fora da área que só parou no canto superior esquerdo da Tunísia.

Octavio Passos/Getty

Parecia tudo encaminhado para uma vitória tranquila de Portugal, que jogava bem e ia crescendo. Mas foi então que começaram os problemas. Aos 39 minutos, uma sucessão de erros, primeiro de Raphael (ainda muito abaixo do nível competitivo a que nos tem habituado), depois com Ricardo a deixar o lado direito da defesa completamente aberto para Badri receber o cruzamento de Sliti e, também ele, enviar a sua bomba para a baliza de Anthony Lopes.

A seguir ao intervalo, Portugal apareceu mais relaxado, talvez excessivamente relaxado e a Tunísia aproveitou para equilibrar. Ainda assim, esteve nos pés de Bernardo a primeira oportunidade da 2.ª parte, quando aos 55’ sambou diante meia-equipa da Tunísia dentro da área para depois rematar ao poste. Na recarga, João Mário demorou muito tempo e acabou por permitir a recuperação do guarda-redes Mouez Hassen.

O golo do empate chegaria logo a seguir. Aos 64’, cruzamento para a área de Portugal, com a linha defensiva a confiar demasiado no golpe de vista: pensou ter colocado toda a gente em fora de jogo, e de facto estavam todos… menos Ben Youssef que só teve de encostar. A partir daí a Seleção Nacional tentou pressionar, o jogo ficou partido e já não se viu grande futebol.

Talvez a Tunísia não tenha feito o suficiente para o empate, mas este jogo serve de aviso: aquilo em que antes éramos tão bons é aquilo que agora nos preocupa. Já há vários jogos que Portugal não defende bem e o sucesso desta equipa sempre se mediu muito pelos golos que não sofre. Até ao Mundial, é este o trabalho que tem de ser feito.