Tribuna Expresso

Perfil

Portugal

Não é mesmo preciso chamar os cães, Fernando

Havendo qualquer coisa de familiar nisto de, aos poucos, ir empatando jogos, não houve motivos de preocupação contra a Bélgica (0-0) como os que houvera diante da Tunísia. Salvo os 20 minutos iniciais, a seleção controlou - e, muitas vezes, dominou - o jogo e inventou várias jogadas para marcar. E a melhor notícia é que toda a gente melhorou face à partida anterior

Diogo Pombo

JOHN THYS

Partilhar

No papel, jogar com a Bélgica antes de um Mundial onde, na fase de grupos, se terá que jogar com a Espanha, fazia todo o sentido. Neste exato momento da existência humana, constata-se que tanto os belgas, como os espanhóis, parecem ter feito batota e aldrabado a fila que se formou diante de quem distribuiu o talento para seres bípedes jogarem com uma bola redonda nos pés.

Quando já estiver na Rússia, a seleção terá de lidar com a teia posicional de toques e passes e muita bola a correr, sujeita à vontade de Iniestas, Iscos, David Silvas ou Busquets, que tomarão conta de qualquer jogo em que participem. Tem a sua lógica, portanto, que se acautele com a seleção europeia que mais jogadores tem com um perfil parecido ao destes tipos espanhóis.

E, durante 20 minutos, a relação entre belgas como De Bruyne, Dembélé, Lukaku, Mertens e Hazard baseia-se em tabelas ligadas com toques de calcanhar, nos passes em suspensão que são bonitos de se ver e em, no que em bom português se chama, rodriguinhos. Durante esse tempo, a seleção que é alcunhada como diabos vermelhos tem mais bola, mas usa-a mais vertical e velozmente do que é costume nos espanhóis.

Porque o muito que há em técnica tem o seu equivalente na explosão em quem joga na frente, numa equipa que, com tanta gente a existir, durante a época, na Premier League inglesa - apenas Carrasco, Mertens e Meunier não jogam lá -, teima em querer fazer as coisas rápido demais. E essa insistência começa por atropelar Portugal por fora, sobrecarregando Cédric e Raphael Guerreiro, e exigir muito de Pepe e Fonte, pela procura constante pelo físico de Lukaku.

O jogo acorda com várias jogadas a quase encontrarem o avançado belga, após um improvisado remate de Guedes, à entrada da área, devido a um toque a mais na bola. Os belgas são asfixiantes na pressão que fazem às bolas que perdem, querem entrar, à força, pela área dentro com as jogadas, mas os centrais portugueses aguentam a seleção, com William perto, e os tais 20 minutos passam, com algum sofrimento.

Depois, a seleção atina a vida de João Mário sem a bola, à esquerda, e os movimentos de Gelson e Guedes na frente, que estavam a partir de sítios distintos, mas a apontarem para os mesmos destinos. Deixaram de haver atropelos, os passes já surtiam de, e entre, Moutinho e William. A equipa começou a existir para lá da metade do campo, a empurrar os belgas para a própria área e a fazê-los correr atrás de bolas que acabavam bem, quando iam acabar à direita, onde Bernardo Silva, por duas vezes, as rematou ao cortá-las para dentro.

Gelson, Guedes e Raphael Guerreiro também rematariam na primeira parte, embora mais à distância, bolas que ou rasavam os postes da baliza belga, ou não eram agarrados e desviados à primeira pelas mãos estranhamente inseguras de Thibault Courtois.

EMMANUEL DUNAND

Os temíveis belgas, técnicos na bola, intensos na pressão e talentosos no passe, como se escrevera no papel, continuaram a ser, cada vez mais, subjugados no relvado pela não usual forma como os centrais portugueses se esticavam para sair a jogar (mesmo pressionados).

Pela calma partilhada entre William e Moutinho, onde a irrequietude do segundo abria espaços para a dominância do primeiro aparecer. Pelas bolas que João Mário e Bernardo, simplesmente, não perdiam. E pelas corridas com bola de Gelson e Guedes, que desconfortam os defesas, ganham faltas ou deslocam marcações para que haja espaço nas alturas em que se peça uma chegada à área com remate.

Sem Dembélé a partir do intervalo e, sobretudo, assim que saíram Mertens e Hazard, incrível nas receções, mudanças de direção, arranques com bola e dribles, mas alérgico a passar a bola muitas vezes, a Bélgica foi murchando. Deixou de tentar, sequer, ditar o que fosse em posse de bola e limitou-se a um remate de Verthongen que Beto voou para defender, ou a cruzamentos que só assustaram devido às precipitações fora dos postes que são muito do guarda-redes português.

Portugal teve sempre mais chegadas sustentadas à área contrária, sempre mais jogadas a acontecerem com cabeça, e não aos repelões de um ou outro jogador, sempre mais remates que seriam mais do que oportunidades se em vez de Gelson ou Guedes já houvesse a certeza matemática de Cristiano Ronaldo.

É assim que, de um segundo jogo de preparação do qual não se retiram golos, se tiram conclusões.

Pepe e Fonte tiveram hora e meia nos seus “modos” Euro 2016 e jogaram como a melhor dupla que a seleção pode ter; ter Moutinho perto parece ser um poção mágica para William, cujo único passe falhado com um balão que tentou rematar à baliza; com João Mário e Bernardo Silva a seleção pode ter momentos de domínio através da bola, e ser aquilo que, por génese, não é; e a potência, o arranque e os sprints com bola de Guedes podem ser a melhor fórmula para acompanhar Ronaldo nas transições ofensivas contra a Espanha.

Mas, sobretudo, conclui-se que toda a gente que esteve em campo por Portugal jogou bastante melhor do que o fizera há dias, contra a Tunísia.

E talvez por saber como ninguém que antes de Europeus e Mundiais há estágios e que, neles, a lei é a de que grão a grão, a galinha não enche o papo, mas vai melhorando, é que Fernando Santos nos dissera ontem isto: "Tenho quatro cães em casa. Se tivesse medo, tinha trazido os cães. Não tenho medo de nada”. Com a seleção a jogar assim, também não teremos que ter.