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Um último teste para ganhar moral e não se testar grande coisa

Portugal ganhou por 3-0, em parte, pelo quão má a Argélia foi sem a bola, a defender e a reagir ao que acontecia em campo. A outra parte é que a seleção nacional foi quase tão coesa, organizada e intensa como há dois anos. E agora tem Bernardo Silva e Gonçalo Guedes, certezas para a estreia no Mundial que já só está a uma semana de distância e para a qual esta vitória serviu, no fundo, para dar moral e confiança a toda a gente

Diogo Pombo

JOSE MANUEL RIBEIRO/AFP/Getty Images

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Nada quer dizer, não é indicativo do que seja, eles estão só ali a bater bolas na altura em todos batem bem, ou deviam bater, porque ainda é a feijões e sem pressão. Mas há ilações que se podem tirar quando se deita um olho à parte do aquecimento pré-jogo em que, os jogadores, à vez, se alinham à frente da área, começam a rematar à baliza e levam os guarda-redes suplentes num passeio pela parte que os cansa a sério.

É aí que se vê como Cristiano é um disparador de mísseis que, a não entrarem na baliza, por certo lhe acertam; Bruno Fernandes é uma espécie de versão desvalorizada disto, igualmente potente, mas menos precisa; Guedes é uma espécie de oito ao oitenta, em que por cada balázio colocado existe uma bola frouxa e rasteira; e de Moutinho saem passes à baliza, sempre com a esperança de que acertar no sítio certo valerá por qualquer força bruta com que se bata na bola.

Podia-se ir pelo lado rebuscado e ver neste quarteto parte do porquê de, em 13 remates contra a Bélgica, nenhum ter dado golo, já que os dois primeiros não jogaram. Ou reconhecer que, provavelmente, aquilo serve para o que realmente é, um aquecimento possível para coisas impossíveis de replicar ali ou de antever - como o momento em que William, pela incontável vez, tem tempo e espaço para pensar na vida com a bola e ver como uma diagonal de Bernardo Silva (ou de quem seja) para a área basta para os argelinos ficarem às aranhas.

O médio pica um passe e o extremo toca a bola com a cabeça, ao de leve, para cair à frente do embalado Guedes, cujo remate de primeira dá golo (17’) e a prova de que a Argélia é demasiado mansa, falível e impressionante, pelo quão mal se comporta a defender, para realmente testar o que fosse que Portugal não fizesse tão bem, com a bola.

Ronaldo, Guedes e Bernardo recebiam a bola à vontade ou a poder jogar a segundo toque, a não ser que estivesse na área ou lá perto. William e Moutinho podiam fazer uma revista de imprensa antes, e depois, de a bola lhes chegar, porque o trinco argelino parecia ter uma corda a prendê-lo aos centrais e os restantes dois médios não chegavam para abafar um enorme buraco a meio campo. Brahimi e Mahrez, por muito técnicos e espetaculares que sejam, eram os tipos menos competentes em campo para acompanhar Cédric ou Raphaël.

Basicamente, Argélia parecia fazer um frete e não se importar muito quando era preciso defender e não tinha a bola. Com ela, era igualmente lenta, pouco intensa e por demais previsível, mesmo quando Brahimi se fartava e ia ter ao outro lado do campo com o outro extremo, que também caiu no caldeirão do talento em criança.

E Portugal, quase desposicionando um jogador, a apertar mais do que o costume nos primeiro segundos após perder bolas, a falhar muito poucos passes e com Ronaldo e Guedes sempre a mexerem-se em desmarcações contrárias, prosperava - sobretudo quando Bruno Fernandes, à esquerda, deixou de fazer cerimónia e começou a dar linhas de passe mais ao centro.

Guedes, Bernardo e Ronaldo remataram perigosamente e, pelo meio, o capitão cruzou de pé esquerdo para a improvável cabeça do médio do Sporting se estrear (37’) a marcar na seleção. Tudo saía bem, as jogadas ligavam-se com muitos, ou poucos, toques na bola de cada um, atacava-se por dentro e por fora com sucesso.

A defender, apenas nos últimos 15 minutos os portugueses deixaram - mais do que foram forçados - os argelinos chegar à área. Onde Pepe nunca falhou, onde não deu para testar Bruno Alves pela tamanha falta de trabalho e onde Fonte apenas foi batido no ar, aos 90’.

JOSE MANUEL RIBEIRO

Ao terceiro encontro particular e já com duas semanas de treino em cima, a seleção já foi uma versão muito aproximada do exemplo de coesão, intensidade e organização de peças de há dois anos. Com essa base de equilíbrio, existente para servir Cristiano com situações em que esteja com a bola e a baliza à frente, viram-se uns cada vez mais à vontade Bernardo Silva e Gonçalo Guedes.

O destaque tem de ir para o segundo. O atacante que é uma mutação de extremo e avançado dá à equipa mais ataque à profundidade e, aí, maior perigo iminente a sair-lhe de um corpo que é mais vertical, veloz e intenso que André Silva. Isto a par do par de golos a que chegou (55’) numa jogada em que os argelinos se levaram pelo engodo de Bruno Fernandes e abriram a ala que Raphaël Guerreiro usou para encontrar Guedes com um cruzamento.

O seu estilo acelerativo deverá ser arma mais ameaçadora para uma Espanha que, daqui por uma semana, terá muito mais bola, será mais mandona a construir jogo e colocará a linha defensiva bastantes metros mais à frente do que a Argélia, ou qualquer equipa que servisse de teste pré-Mundial. E testar mais do que isso, na verdade, foi difícil.

O toque e a mente formatada para ver muitos passes e bolas a rasgar defesas de Bruno Fernandes, feitos os primeiros 20 minutos, deram nas vistas, mas apenas sofreram comichões esporádicas dos adversários. Talvez não tenha sido suficiente para roubar o lugar ao menos ávido ao risco João Mário, que ainda assistiu para um golo que viria a ser anulado.

Mário Rui será sempre alternativa forçada a Raphaël, a crescer de forma de jogo para jogo. Mais do que ameaçar a segurança rotativa de Moutinho no meio campo, Adrien poderá ser um resguardo para a frente da defesa, onde foi testado no lugar de William, nos últimos 25 minutos. À direita, as bolas que Bernardo não perde e das quais sempre resulta algo, talvez tenham em Quaresma o plano B, mais do que a imprevisibilidade de Gelson.

E ficamo-nos com estes talvez e assunções, porque quase tudo o que Portugal tentou fazer à Argélia, conseguiu-o. E só não leva um resultado mais farto devido à crónica tendência da seleção em, primeiro, fazer as coisas bem, simples, com cautela e sem grandes laivos de risco, e só depois, se for possível e der para isso, ter a vertigem das equipas que nunca se contentam com o número de ataques à baliza dos outros.

Este 3-0 serviu para dar moral aos jogadores e à equipa que mostraram muito de bom contra um adversário, no máximo, mediano. E serviu para os descontrair com a quantidade de coisas que bem fizeram, como o descontraído Ronaldo que, findo o jogo, ficou a brincar com o filho e a bola perto de uma das balizas. Também para lhe dar alguma moral, talvez.