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Para quê ganhar quando se pode participar? Certo, Klinsmann?

A seleção dos EUA está a atravessar a pior fase desde que Jürgen Klinsmann assumiu a liderança, em 2011. Mas o mui paciente presidente da federação norte-americana pede (ainda) mais tempo para o treinador alemão que está a somar marcas negativas

Mariana Cabral

Klinsmann tem 52 anos e treina a seleção norte-americana desde 2011

Scott Halleran/Getty

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Quando estão perante alguém que não lhes agrada, na dúvida, os americanos costumam dizer assim: better the devil you know than the devil you don't. É qualquer coisa como escolher o mal menor, quando perante dois males - ou quando perante um futuro desconhecido.

Ou seja, entre um tipo que não tem tido lá grandes resultados, mas que até tem nome e a malta já lhe conhece os defeitos (especialmente os táticos), e um outro qualquer que tanto poderia correr bem como igualmente mal, mais vale ficar com aquele que já temos e conhecemos.

O raciocínio é hipotético mas é provavelmente o que terá passado pela cabeça de Sunil Gulati na quarta-feira, quando os EUA de Jürgen Klinsmann foram goleados pela Costa Rica (0-4), quatro dias depois de também terem perdido contra o México (1-2), na qualificação para o Mundial 2018. “Não vamos decidir nada no final de jogos”, disse o presidente da federação dos EUA. “Vamos pensar sobre o que aconteceu, vamos falar com o Jürgen e vamos analisar a situação”.

Não se pode dizer que a qualificação norte-americana para o Mundial russo esteja em risco, já que ainda só se disputaram precisamente esses dois jogos na 2ª fase - ainda há oito por jogar e qualificam-se os três primeiros (e os EUA estiveram nos últimos sete Mundiais) -, mas o desagrado local com Klinsmann - apesar da cautela de Gulati - não é de agora.

É que, depois de uma entrada relativamente bem sucedida (venceu a Gold Cup em 2013 e chegou aos oitavos de final do Mundial 2014 - no qual, ainda assim, ganhou alguns anticorpos por ter deixado o histórico Landon Donovan fora da convocatória), Klinsmann tem somado marcas negativas atrás de marcas negativas. Como estas:

- os EUA não perdiam com o México num apuramento para um Mundial desde 1972;

- não perdiam em casa para um apuramento para um Mundial desde 2001;

- não perdiam com a Guatemala desde 1988 e nunca tinham perdido com um adversário de ranking tão inferior (na altura eram 92º da classificação mundial da FIFA, entretanto subiram para 83º; os EUA são 24º);

- não ficavam tão mal na Gold Cup (4º lugar, foram eliminados pela Jamaica) desde 2000;

- nunca tinham perdido com a Jamaica (75º do ranking mundial);

- não se qualificaram para a Taça das Confederações, o que tinha sido assumido como um objetivo.

Jim Rogash/Getty

O adepto mais racional possivelmente dirá que estas são marcas que não matam - mas moem. Como a derrota contra a Costa Rica, a maior da seleção, sem golos, desde 1957. Se os números não ajudam, pior ainda é qualidade exibicional. Klinsmann não é propriamente conhecido por ser um treinador muito interessado pela parte tática do jogo - quando liderou a seleção alemã até era o adjunto Joachim Löw, atual selecionador, a ocupar-se disso -, pelo que frequentemente mete os pés pelas mãos no que diz respeito ao entendimento da sua equipa e da estratégia para o jogo.

Contra o México, os EUA entraram em campo num novíssimo 3-5-2 e os primeiros 30 minutos foram terrivelmente maus para os norte-americanos. Tão maus que os veteranos Michael Bradley e Jermaine Jones, os bastiões do meio-campo, foram até ao banco, numa espécie de time out, aparentemente pedir ao treinador para que mudasse o sistema para o habitual 4-4-2. “Penso que percebemos que o que fazia sentido era mudar para o que conhecíamos”, disse Bradley, com pinças, depois do jogo, pedindo também “ideias táticas mais claras”. Jones foi ligeiramente mais direto, à Ronaldo no Mundial 2010 (“perguntem ao Carlos”): “A decisão não é minha. Essas perguntas têm de ser feitas ao treinador”.

O treinador respondeu assim: “Mudámos para o 4-4-2 para corrigir algumas coisas porque os nossos médios-centro [alô Bradley e Jones] não conseguiram ganhar as batalhas individuais que queríamos”.

Ambientes de balneário à parte, é certo que os EUA voltaram ao 4-4-2 contra a Costa Rica, mas o resultado foi igualmente mau, com a equipa a parecer amorfa em campo - ainda que haja algum talento entre a nova geração americana, com miúdos como Julian Green, do Bayern de Munique, e Christian Pulisic, do Borussia de Dortmund.

Com contrato - de €2,8 milhões/ano - até 2018, Klinsmann continua seguro, para já, até porque foi uma escolha de Gulati e o presidente da federação raramente toma decisões bruscas - também não o fez com os ex-selecionadores Bruce Arena (1998-2006) e com Bob Bradley (2006-2011), por exemplo. Mas, para mudar, a altura é ideal: a seleção só volta a reunir-se para estágio em janeiro e a qualificação só é retomada em março, com um jogo em casa contra as Honduras (86º). E, agora, não basta “participar”: é mesmo preciso ganhar. Se não o mal deixa de ser menor.