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‘Titibilidade’, frames e diagramas: quando lhe disserem que um treinador não ganha jogos, leia isto

O Brasil desatou a ganhar jogos e isso deve-se a Tite, um tipo tranquilo que ‘europeizou’ a seleção canarinha. Rui Malheiro explica-nos porquê

Rui Malheiro

Pedro Vilela

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Seis jogos, seis vitórias. Dezassete golos marcados, apenas um golo sofrido. Os números avassaladores da Seleção brasileira no início da era Tite, que possibilitaram a chegada ao topo da classificação do apuramento sul-americano para o Mundial’2018, geraram um ambiente de euforia no país do futebol. Com os exageros típicos de quem já se sente como principal favorito à conquista do ceptro mundial, e que identifica este período, de pouco mais de dois meses, como o regresso da canarinha às suas origens, aproximando-se do futebol poético e enleante de 1982. Nada mais equivocado. Há, sim, sinais manifestos da europeização do jogar da seleção brasileira, algo que só peca por tardio, e que se deveria estender, o mais rapidamente possível, aos clubes, ainda submersos numa densa neblina resultadista, e de processos defensivos e ofensivos obsoletos. Algo que também favorece a atual conjuntura de exaltação. Tite rompeu com mais de duas dezenas de meses de depressão profunda, após o epílogo calamitoso da participação num Mundial, sob o comando técnico de Luiz Felipe Scolari, desenhado para a equipa da casa chegar à final, acrescido por uma sucessão medíocre do macambúzio Dunga, marcada pelas participações dececionantes na Copa América’2015 (eliminado, nos quartos de final, pelo Paraguai), na Copa América Centenário’2016 (caiu na fase inicial com estrondo, superado por Peru e o Equador), e no início do apuramento para o Mundial’2018, bem atestado pelo 6.º lugar após 6 jornadas, na sequência de 2 vitórias, 3 empates e 1 derrota, com 11 golos marcados e 8 golos sofridos.

O fim da empatite. Protagonista de um trajeto ascensional como treinador, depois de ter sido obrigado, após sucessivas lesões nos joelhos, a abandonar, aos 28 anos, uma carreira mediana como jogador, Tite, formado em Educação Física, demorou uma década a chegar ao topo da pirâmide do futebol brasileiro. Com um trajeto recheado de triunfos, onde se destacam o Brasileirão (2011, pelo Corinthians), o Campeonato do Mundo de Clubes (2012, pelo Corinthians, numa final ante o Chelsea), a Taça Libertadores (2012, pelo Corinthians), a Taça Sul-Americana (2008, pelo Internacional), a Copa do Brasil (2001, pelo Grêmio de Porto Alegre) e vários Estaduais, nunca gerou consensos e conviveu, em vários momentos, com o fracasso, inclusive nos clubes em que foi bem-sucedido.

Alcunhado de retranqueiro, por suportar a sua proposta de jogo numa organização defensiva coriácea e num futebol cínico e pouco espetacular, durante anos a fio viu as suas equipas serem associadas ao pragmatismo da expressão “empatite”. No entanto, momentos como os que protagonizou após vencer o Campeonato Mundial de Clubes, ao empunhar o cartaz “The Favela is here” (“A Favela está aqui”) tornaram-no num herói popular, juntando-se-lhe a forma sagaz como sempre se relacionou com a imprensa.

Após uma temporada (2013) negativa no Corinthians, Tite decidiu fazer um ano sabático. Um ano de busca por mais e melhor conhecimento, o que o levou a ler compulsivamente biografias e livros de Johan Cruyff, Pep Guardiola, Jorge Valdano e Cholo Simeone, a promover reuniões com Carlos Bianchi, o multititulado treinador argentino que se destacou ao serviço de Boca Juniors e Vélez Sarsfield, e com Carlo Ancelotti, então no Real Madrid, como também a deslocar-se a Londres para realizar um estágio no Arsenal.

Na Europa, observou presencialmente jogos de Barcelona, Bayern de Munique e Manchester City, equipas cujo modelo de jogo detalhou pormenorizadamente, tal como fez em relação aos 64 jogos do Mundial’2014. Esta voracidade não lhe garantiu o projeto que tinha em mente – a sucessão de Luiz Felipe Scolari no comando da canarinha -, mas modernizou-lhe o pensamento e o discurso: onde líamos, no início desta década, expressões como “disciplina tática”, “rigor”, “equilíbrio defensivo” e “segurança”, passamos a ler “criatividade”, “mobilidade”, “triangulações”, “criar espaço”, “infiltrações”, “transições” e “reação rápida à perda da bola”. Em comum, um aspeto que marca o seu pensamento futebolístico: o abandonar do paradigma brasileiro de marcações individuais (algumas delas, por todo o terreno), assumindo uma defesa zonal, como também a opção por uma linha defensiva formada por 4 jogadores, onde os laterais devem pensar que o seu principal papel é o de defender com consistência.

O regresso ao Corinthians, em 2015, comprovou a evolução do seu pensamento como treinador, rendendo, apesar dos desaires nas competições a eliminar (Taça Libertadores e Copa do Brasil), a conquista do campeonato brasileiro, o segundo do seu extenso currículo. E se a base do sucesso, em 2011 e 2012, tinha sido a organização defensiva irrepreensível, o novo Corinthians de Tite adiu-lhe um futebol mais ofensivo, fluido e atraente, apostando num futebol apoiado com base em toques curtos e rápidos, sempre em busca de triangulações, mas também capaz de realizar variações cirúrgicas do centro do jogo, promovendo, através da mobilidade das suas unidades mais avançadas, infiltrações contundentes que destruíam as referências individuais do adversário.

Um oceano de diferenças. A chegada de Tite ao comando técnico da Seleção brasileira, confirmada a 20 de junho, marcou uma modificação profunda de ambiente em redor da canarinha. Tite, extrovertido, espontâneo e de semblante aberto, construiu, ao longo do seu trajeto como treinador, uma ótima relação com a imprensa, ao invés de Dunga, belicoso, com um discurso previsível e enfadonho, e de rosto permanentemente fechado. Mesmo sem promover uma alteração profunda na base de jogadores convocados, onde se realçam os regressos de alguns vetados ou pouco utilizados por Dunga, como Marquinhos, Thiago Silva, Fernandinho, Paulinho, Coutinho ou Gabriel Jesus, a equipa parece outra, reflexo da política de proximidade idealizada por Tite, arguto a promover mais o diálogo, sendo conhecido o seu contato permanente com os jogadores através do Whatsapp, onde recebem relatórios detalhados dos oponentes enviados pela equipa técnica.

A maior abertura conduziu a uma relação de maior respeito, decisiva para conferir maior estabilidade, mais proximidade e da perceção de que a força do coletivo estará sempre à frente do individual. Por isso, retirou a braçadeira de capitão a Neymar, de forma a alivar a pressão sobre o jogador mais capaz de decidir dentro do campo, e tem diligenciado uma rotação de capitães (Daniel Alves, Miranda, Renato Augusto, Filipe Luís e Fernandinho), determinante para acercar mais jogadores da equipa técnica, conferindo-lhes um evidente sinal de confiança. A isso junta-se o seu esforço permanente pela valorização do trabalho dos suplentes, como William, Douglas Costa ou Thiago Silva, mostrando que trata todos os jogadores por igual, aspeto crucial para ganhar o grupo e incrementar a disputa por um lugar na equipa, elevando o seu nível.Depois, é notório que Tite é mais treinador do que Dunga, não só pelo que o seu currículo e trajeto vitorioso atestam, como também pela sua maior preparação, maior apetência pelo estudo, e pela argúcia que demonstrou ao rodear-se de uma equipa técnica mais preparada, mais capaz e mais atualizada.

DOUGLAS MAGNO

Europeização

Fiel a uma estrutura em 4x1x4x1, sempre com a preocupação de a moldar às características dos jogadores, ao invés de Dunga, habitualmente leal ao 4x2x3x1, onde os jogadores tinham a incumbência de se ajustarem à estrutura, Tite tem edificado a casa a partir da base. Por isso, neste momento, o sucesso da Seleção brasileira passa por um processo defensivo extremamente sólido e competente, em que se destaca a qualidade e proficiência evidenciada no momento de organização, fruto da forma compacta e curta como a equipa defende, espraiando-se, muitas vezes, em pouco mais de 30 metros, sempre com os médios-alas/extremos Coutinho (direita) e Neymar (esquerda) disponíveis para trabalharem em prol do coletivo.

Com isto, os processos de construção e de criação do adversário são fortemente condicionados, acrescentando-se ainda a forma rápida e inteligente como a profundidade é controlada (a linha defensiva posiciona-se subida), e a predominância absoluta de referências zonais. Para além disso, a Seleção brasileira também aumentou a competência no momento de transição (defensiva), fruto de uma reação mais agressiva à perda da bola (no Brasil designada por “perde-recupera”) e na defesa de bolas paradas laterais, fruto do intenso labor de Tite no aperfeiçoamento dessa competência (o único golo sofrido em 6 jogos resultou de uma situação deste tipo): uma das primeiras unidades de treino como selecionador foi dedicada, em exclusivo, a esse item.

Agora, a missão de Tite passa por tornar o processo ofensivo mais consistente, apesar da relativa facilidade com que o Brasil chega a zonas de definição. O talento superlativo de algumas individualidades, encabeçadas por Neymar, bem secundado por Coutinho e Renato Augusto (há Douglas Costa e Willian no banco), e a contundência aplicada no contragolpe, fruindo da velocidade, da mobilidade e da criatividade de Neymar, Coutinho e Gabriel Jesus – prodígio que ainda necessita de melhorar a tomada de decisão – vão escondendo debilidades, nomeadamente no momento de organização ofensiva, onde a equipa se parte, com grande facilidade, em 7+3, e demonstra carências posicionais (sobretudo no ataque às entrelinhas), o que dificulta a imposição de um futebol apoiado e associativo. Contudo, a boa notícia para os brasileiros é que há tempo – um ano e meio –, unidades de treino – os jogadores só estiveram reunidos em três ocasiões, o que significa 3 semanas com 6 jogos e 3 deslocações – e boas ideias para Tite terminar a edificação do modelo de jogo. Aí, sim, a canarinha poderá ansiar com toda a veemência que o Mundial comece.

Dunga (I). Ante o Paraguai, o Brasil perde a bola à entrada do meio-campo ofensivo, e desequilibra-se por completo, não existindo reação à perda. O Paraguai aproveita o espaço que lhe é concedido para criar uma situação de paridade numérica, aproveitando a má definição da última linha e a má postura corporal (e colocação de apoios) dos elementos mais recuados da seleção brasileira para chegar ao golo.

Dunga (II). Ainda ante o Paraguai, a paupérrima organização defensiva da seleção brasileira, claramente presa a referências individuais, a servir como mote ao 0-2. Impressionante a forma como Roque Santa Cruz consegue atrair cinco jogadores, passar por eles e servir Ortíz, solto no corredor central. O médio-centro paraguaio assiste Benítez, lesto a ganhar o um contra um a Daniel Alves, mal colocado e muito pouco agressivo na abordagem ao duelo, e a ficar na cara do desamparado Alisson.

Dunga (III). Não é por ter 9 jogadores num espaço curtíssimo em bloco baixo que se defende melhor. Alvaro Pereira, ante a passividade de Willian, entra no bloco brasileiro, onde se denota, mais uma vez, a má definição da última linha e o excesso de preocupação com a bola e com o homem (Suárez, posicionado nas entrelinhas). O antigo lateral do FC Porto é arguto a cruzar ao segundo poste, onde Sánchez (mais lesto do que Filipe Luís) assiste, com um cabeceamento atrasado, Cavani, tremendamente sagaz a atacar o espaço e a perceber as debilidades posicionais e na perceção do jogo do defesa-central-esquerdo (David Luiz) e do médio-defensivo (Luiz Gustavo) adversários.

Dunga (IV). Ante a Argentina (1-1), na partida da primeira volta da fase de apuramento para o Mundial’2018, o Brasil sofreu o golo na sequência de um contragolpe contundente do adversário. Lucas Lima perde a bola no meio-campo ofensivo, e a passividade brasileira na reação à perda da bola é aterradora. Banega, rodeado por 4 adversários (Elias, Luiz Gustavo, Willian e Lucas Lima), incapazes de o pressionar, consegue soltar a bola no corredor direito, onde Di María assaltou as costas de Filipe Luís e criou uma situação de 3x3. Depois, Higuaín aproveitou as indefinições da última linha brasileira para atacar a frente de David Luiz, assistindo Lavezzi, que após um longo sprint, ganhou a frente do lance a Daniel Alves.

Titibilidade (I). Um ano depois, ante a mesma Argentina, o Brasil apresenta um comportamento totalmente diferente na reação à perda da bola. Os índices de agressividade e o sentido coletivo disparam, destacando-se a forma compacta como a equipa defende em poucos metros, fechando linhas de passe, mesmo correndo riscos fruto do posicionamento adiantado do setor defensivo: é notória a preocupação em definir bem a última linha e no controlo da profundidade. Gabriel Jesus, a unidade mais avançada, assume um papel crucial a pressionar Mascherano, travando a possível transição do rival.

Titibilidade (II). A imagem da tremenda organização defensiva do Brasil de Tite, a léguas da pouca proficiência evidenciada na era Dunga. Os dez jogadores defendem num espaço curtíssimo e de forma extraordinariamente compacta, sublinhando-se o papel defensivo dos médios-alas/extremos e do avançado, tornando impossível que o adversário penetre no seu bloco. O comportamento da última linha é irrepreensível: subida, bem definida e postura corporal (e colocação dos apoios) correta.

Titibilidade (III). Mais uma imagem a comprovar qual é a base do sucesso do Brasil de Tite: a organização defensiva irrepreensível e de influência claramente europeia. Dez jogadores posicionados em menos de 20 metros, ante um adversário incapaz de penetrar, dada a falta de linhas de passe e a ausência de espaços livres, dentro do bloco.

Titibilidade (IV). A pungência colocada no contragolpe e a qualidade individual dos jogadores tem sido o mote do processo ofensivo, escondendo algumas lacunas bem visíveis a nível da construção e da criação. Percebe-se que há um fosso entre o resto da equipa e o tridente ofensivo (Coutinho, Neymar e Gabriel Jesus), muitas vezes abandonado à sua sorte. Nada que tenha impedido Gabriel, aproveitando o caótico processo defensivo argentino, de isolar Neymar na cara de Romero. Estava feito o 2-0 ante a Argentina no Mineirão.

Titibilidade (V). O momento de organização ofensiva é aquele que necessita de ser mais burilado por Tite. É certo que há boas ideias, bem patentes na forma segura como a equipa troca a bola, através de passes curtos, no meio-campo defensivo, mas a forma como está partida, praticamente num 7-0-3, conduz à tentação de uma construção mais longa em direção aos avançados, buscando as costas da defesa rival. Algo que se torna extraordinariamente previsível. Percebe-se, pelas características dos jogadores, que há argumentos para a equipa subir as linhas, estabelecendo um futebol mais conetivo e enleante no meio-campo ofensivo. É esse o maior desafio de Tite.

Defesa de bolas paradas laterais. Com Dunga, como pode ser visto na primeira imagem, o Brasil defendia as bolas paradas com claras referências individuais. Tite, que dedicou, em exclusivo, uma das suas primeiras unidades de treino à defesa deste tipo de lance, opta por uma defesa mista, colocando os onze jogadores dentro da área, mas onde há uma clara predominância pela zona (oito jogadores + guarda-redes) em relação à marcação individual (dois jogadores).