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Cinco anos e oito meses depois

Uma derrota. Há 31 jogos oficiais que a seleção de sub-21 de Rui Jorge não perdia nos 90 minutos. Aconteceu neste Europeu, contra a Espanha (1-3), numa partida em que Portugal não teve pedalada, apesar do pé esquerdo de Bruma ter marcado um dos golos do ano. A passagem às meias-finais fica mais complicada

Diogo Pombo

ADAM WARZAWA

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Em 2008, quando os tipos mais pequenos e ágeis e técnicos se reuniram em torno da bola e deram o primeiro de três títulos internacionais seguidos à Espanha, apareceu uma tendência. Como a mentalidade, os treinadores, as escolas e as ideias foram atrás, e porque a partir daí eles devem ter descoberto um forno que não se apaga e de onde saem fornadas de bons jogadores, o jogo espanhol baseou-se, e baseia-se, em ter a bola. Sempre.

E como, mais ou menos na mesma altura, Pep Guardiola encantou meio mundo com o seu Barcelona que tratava a bola como a última princesa à face da terra, a coisa pegou. Se as seleções de futebol tivessem de ser traduzidas em sinónimos, a Espanha teria o seu nestas três palavras: “posse de bola”. Não fosse isto inventado e seria um facto, porque não há país com seleções mais ditadoras que a Espanha num jogo em que há duas equipas com 11 jogadores cada e apenas uma bola em campo.

Quase um facto é que, hoje, qualquer seleção espanhola tem a bola mais tempo do que o adversário, seja ele quem for. Porque é muito, muito raro, ver o que Portugal conseguiu fazer durante a maior parte do tempo na primeira parte do jogo que podia ser a final do Europeu de sub-21 - roubar a bola aos espanhóis, tê-la mais tempo que eles e atacar melhor o espaço com ela.

Com a bola, a seleção explorava a esperteza de Bruno Fernandes a pedir a bola no vazio entre as costas dos médios e as barbas dos defesas espanhóis. Ele recebia, rodava e passava. Cancelo, Podence e Gonçalo Guedes eram as gazelas que atacavam o espaço na metade do campo espanhola e Portugal chegava à área com uma facilidade de estranhar. Os cruzamentos eram muitos e saíam, as bolas trocavam-se nos últimos 30 metros, Podence remata a bola à entrada da área contra o poste esquerdo (11’) da baliza de Arrizabalaga.

Sem a bola, os quatro médios e os dois avançados portugueses encurtavam o espaço entre eles, nunca pressionavam em linha, fechavam as costas uns dos outros e obrigavam os espanhóis a trocarem a bola por fora. Pelas laterais. De lá vinham cruzamentos tão longínquos quanto inofensivos. Nada de perigoso criavam como equipa. Até que Saúl Ñíguez criou sozinho, quando aproveitou um ressalto e driblou dois para, à entrada da área, remata e outro ressalto o ajudar a marcar (21’).

Os espanhóis marcavam o sexto golo no Europeu ao oitavo remate. E marcava-o quem fez mais de 50 jogos esta época no Atlético de Madrid e esteve numa final da Liga dos Campeões, há um ano. Como Marco Asensio, que jogou e marcou numa este ano, com o Real Madrid, e correu, fintou e passou para os outros remates com que a Espanha ameaçou até ao intervalo. Eles eram, de longe, os que tinham mais pedalada em campo.

Essa diferença notou-se mais depois, quando Portugal quis esticar-se, arriscar mais e jogar mais rápido para caçar o golo que tinha a menos. Os médios chegaram-se à frente e obrigavam-se a fazer mais vaivéns para acompanharem os ataques rápidos que exploravam a velocidade de Podence, o pequeno velocista que contornava os troncos das árvores que pareciam estar nas pernas dos centrais espanhóis.

Ele fugiu-lhes duas vezes, sprintou e deu a bola para Bruno Fernandes rematar à figura (47’) de quem guarda a baliza. Depois, não a passou para a rematar, em jeito, a rasar o poste direito (50’). A segunda parte era dos verticais, rápidos, pressionantes e, por contraparte, mais desorganizados, instáveis e desconcentrados portugueses. E quem tudo fez à pressa foi apanhado na curva por quem era calmo a comportar-se, com o foram Deulefeu a acelerar um contra-ataque e Sandro a desmarcar-se para atacar o primeiro poste e o cruzamento do primeiro. Os espanhóis já tinham um pouquinho mais de bola que Portugal e ficavam com mais um golo (61).

A seleção, com os minutos, parecia ficar mais longe de conseguir fazer algo em relação a isso. A pedalada de Saúl e Asensio eram os arranques, os piques, os sprints e as reações que Renato Sanches não tinha, mas que as coisas do jogo seu jogo e que perdeu nos 500 e poucos minutos que fez esta época, no Bayern de Munique. Sem Podence, substituído cedo, Portugal perdeu o melhor homem a pedir a bola no espaço. A equipa desnorteava-se, o capitão cravava os pitons na perna de Asensio depois de o espanhol quase marcar e enquanto jogava muito.

O ditado de ter o coração, e não a cabeça, mais perto da bola, foi-se acentuando. Ainda mais a partir do momento em que o pé esquerdo de Bruma e a bola tiveram o primeiro encontro mais romântico de sempre - o extremo rematou, de primeira, à entrada da área (77’), e sem a deixar bater na relva, a bola que se arrisca a ser o melhor golo deste Europeu. Só que o pouco discernimento e frieza da seleção tornou-se ainda menor, porque a ilusão do empate fê-la jogar pior e com menos tino.

Os portugueses já tentavam tudo, de qualquer maneira, perto da área espanhola, quando Rúben Semedo fez uma trapalhada com a bola, acertou-lhe de raspão e deixou Iñaki Williams partir sozinho num contra-ataque. O central do Sporting ainda o apanhou, mas o pára-arranca do espanhol ultrapassou-o como um Ferrari e rematou para fazer o 3-1 na última jogada da partida.

Foi o final e o fim para a série que durava há cinco anos e oito meses - 31 jogos depois, os sub-21 portugueses voltaram a perder um jogo nos 90 minutos. Rui Jorge já nem devia saber o que isto é, mas agora sabe que, mesmo ganhando à Macedónia na última jornada da fase de grupos, Portugal fica dependente de resultados do Grupo C para chegar às meias-finais.