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Eles ganharam, mas perderam

A seleção sub-21 venceu a Macedónia no último jogo da fase de grupos, marcou quatro golos, sofreu dois e acabou com seis pontos. Mas está eliminada do Europeu, porque não podia sofrer os golos que sofreu para poder ser o melhor segundo lugar e seguir para as meias-finais

Diogo Pombo

MACIEJ GILLERT

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Embora haja jogadores, treinadores, presidentes e tudo quanto é gente que faz vida disto, que insistam em falar de justiça, só existe uma coisa justa no futebol - o momento que antecede o primeiro pontapé na bola que se dá num jogo. É a bisavó de todas as igualdades, porque aí há duas equipas, onze jogadores de cada lado, balizas com o mesmo tamanho, o mesmo campo para todas, uma bola para ser dividida. E um marcador.

Nesse momento, esse marcador tem um zero ao lado de outro. O que é mais do que justo no jogo em que o objetivo é rematar a bola para dentro da baliza e só aí começa a contar. Agora pensem numa equipa com um diferencial de -3 antes de o jogo se jogar. Com três golos negativos, ou já sofridos.

Assim capacitam-se do estado em que os portugueses chegaram ao jogo contra a Macedónia.

Estavam no lado mais injusto do Europeu de sub-21 em que é mais difícil ir de uma meia-final até à final do que sair vivo da fase de grupos. Por haver três grupos de quatro equipas, e apenas um segundo lugar que dá direito a acompanhar os três primeiros, eles tinham de marcar, pelo menos, três golos para se manterem com hipóteses a seleção dona do melhor segundo posto. Os passes, as jogadas, as zonas de pressão, os movimentos dos jogadores, as transições, os contra-ataques, tudo são estórias de um jogo em que tudo se concentrou na história que realmente interessava.

Os golos.

A seleção tinha de marcar quatro e Edgar Ié nem dois minutos demorou até por um sorriso otimista na cara de quem estava com ele. Um canto, a cabeça dele, o primeiro golo e -2. Os passes rápidos e a pressão com pressa e a muita gente a ser projetada para a frente começaram, em força. Podence recebe, roda e remata à entrada da área. Bruma arranca, recebe, desvia e remata em arco, da esquerda para o meio e a ultrapassar dois macedónios. O segundo golo e -1. A meio caminho andado para o intervalo, Portugal tinha metade da tarefa feita para um jogo inteiro.

Depois vêm os pés de Gonçalo Paciência, de Iuri Medeiros, de Bruma e de João Cancelo, que aparece, massacram e rematam contra o problema das mãos de Siskovski. O guarda-redes pára e desvia e as bolas a que ele não chega vão às redes da baliza ou passam a rasar os postes. Como tudo o que não entra só apressa a própria pressa, e como a urgência não se dá bem com a organização, os portugueses não estão no sítio certo, nem têm a agressividade certa, para atacarem a bola que Edgar Ié tira da área. Bardi recebe, finta e remata. A Macedónia marca e -2 ao intervalo.

MACIEJ GILLERT

Havia 45 minutos para se marcar dois golos, não sofrer nenhum, e assim ficar com uma diferença de golos mais amigo do que a da Eslováquia, segunda classificada do grupo A.

A pressa e a urgência teriam tendência para aumentarem e mostrarem a desproporção na relação que têm com o fazer as coisas bem feitas. A seleção de Rui Jorge chegou-se ainda mais à frente, teve ainda mais bola e durante mais tempo dentro, ou à volta, da área da Macedónia. Mas os remates, que eram muitos, também eram poucos, porque raros eram os que acertavam na baliza.

O risco tornou-se mais arriscado quando Renato Sanches, certeiro nos passes, com tudo de errado no ritmo e na velocidade como se locomovia no campo, saiu para entrar Ricardo Horta. Um extremo a fazer de médio centro. O treinador não precisava de berrar para quem jogava perceber que isto era um sinal - “Cheguem-se à frente, arrisquem, ataquem, deem tudo”. Esse tudo chegou para Iuri Medeiros fazer mais do mesmo e, na direita, cair para o pé esquerdo, correr para dentro até inventar algo diferente. Passou a bola rasteira em vez de a cruzar por alto e Daniel Podence rematou de primeira essa surpresa. O terceiro golo e -1.

Faltava apenas um golo e eles continuaram a tentar tudo, de qualquer forma. Estavam quase sempre seis homens à frente da bola, os dois laterais encostados à área. Não pensava com prudência, mas com ambição. Pensando desta forma, deixaram apenas três jogadores atrás contra os quatro com que a Macedónia disparou um contra-ataque no buraco negro de espaço que havia no meio campo português. Markovski fez o segundo golo dos balcânicos e -2, com dez minutos por jogar.

Os portugueses, aí, tentaram o que faltava tentar, que era muito pouco. Desorganizaram-se ainda mais, bombardearam bolas para a área e a continuaram a ter em Rúben Neves o único que se preocupava em recuperar bolas e olhar para o espaço, enquanto descobria o milagre da multiplicação. No meio da confusão, uma bola cruzada em que ninguém conseguiu acertar sobrou para Bruma marcar o quarto golo e repor o diferencial em -1. Só que isto já aconteceu aos 91’.

O tempo que houve não deu tempo para coisa alguma de proveito. Diogo Jota ainda sofreu uma falta para ser expulso, com vermelho direto, por algo que o árbitro viu. E houve mais tentativas frustradas para a contagem dos 27 remates que Portugal fez no jogo e os apenas 10 que acertou na baliza. A seleção é eliminada do Europeu sub-21 na fase de grupos depois de chegar à final, há dois anos.

Eles ganharam, mas perderam. E, da televisão, acabei de ouvir um comentador dizer que Portugal sai “de forma injusta” da competição. Não é injustiça, é outro conceito, o da eficácia - são demasiados remates feitos e tão poucas bolas a entrarem na baliza.