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Wayne Rooney, nunca mais

O segundo mais internacional dos ingleses que jogam futebol e o primeiro na lista de quem mais golos marcou pela Inglaterra não mais vai jogar pela seleção. Wayne Rooney, um dos mais talentosos jogadores ingleses de sempre, anunciou, aos 31 anos, a retirada da seleção

Diogo Pombo

Wayne Rooney disse adeus à seleção inglesa

Dan Mullan/Getty

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Todos o vemos, o adolescente esquálido e sardento de pele, olho azul e reluzente, com corpo tão robusto, apresentação que nos fazia duvidar se era já rechonchudo com tão pouca idade ou se tinha corpanzil de jogador de râguebi. Lá vai ele, ar tímido, embrulhado numa lavagem de substituições que Sven-Goran Eriksson faz ao intervalo, a entrar no relvado onde os ingleses jogam um encontro particular, e perdem, contra os australianos e supostos inferiores num jogo com bola redonda. Ele está lá e é a primeira vez que está.

A vida de Wayne Rooney prossegue em fúria, acelerada, um camião com centenas de números na cavalagem, a levar a bola e tudo à frente com ela, até se conseguir estacionar na baliza. É uma pequena-grande amostra de força, velocidade e técnica, misturadas num corpo de 17 anos que, por ser tão boa mistura num jovem tão imberbe, já joga a titular no Everton quando se estreia na seleção de Inglaterra, em fevereiro de 2003.

Sete meses passam e marca um golo, o primeiro, à terceira vez que joga de início. É um jogo a sério e conta para os ingleses estarem no Europeu do ano seguinte. Chegam até onde os portugueses anfitriões os deixam, os penáltis em que esbarram num guarda-redes sem luvas, um ponto a que a fúria, a velocidade, a força e a nova personificação da esperança inglesa já não chega, porque é derrubado no tendão de Aquiles pela sola de Jorge Andrade e lesiona-se. Mas Wayne Rooney está lá quando a Inglaterra sai nos quartos-de-final.

Como está um par de anos volvidos, já transferido para o Manchester United e a aumentar o exponencial de golos que marca. Está lá quase da mesma forma, quando quase os mesmos portugueses e ingleses colidem nos mesmos pontapés a 11 metros da baliza, já que ele não chega lá, outra vez. É expulso por agredir Ricardo Carvalho e fulo fica, e com eles muitíssimos ingleses, por Cristiano Ronaldo, seu companheiro de títulos, bons jogos e jogadas bonitas no United, reivindicar a sua expulsão junto do árbitro. Rooney está lá, com 21 anos e já a caminho das 40 internacionalizações.

Jamie McDonald

O avançado já é falado nas mesmas conversas em que entram Chris Waddle, Glen Hoddle, Paul Gascoigne, David Platt, Michael Owen ou David Beckham, atacantes talentosos e promissores e de quem muito se esperou, porque os ingleses são um povo que sempre exalta expetativas e quer sempre conquistas desde que a seleção venceu um Campeonato do Mundo (1966). Rooney, portanto, é quem talvez mais triste fica e mais visado é quando a Inglaterra não se qualifica para o Europeu de 2008.

Mas lá está ele, sempre titular, sempre marcador de golos, sempre no ataque da seleção e do Manchester United. Quando o primeiro Mundial africano se realiza Rooney é a estrela do clube (já não há Ronaldo) e do país, o craque que está claramente acima dos outros, e vê como a seleção acaba atropelada pela Alemanha e exaspera com uma bola que, pelo meio desse jogo, entra na baliza e não dá golo por o árbitro não a ver. Mesmo assim, é a melhor época dele (2009/10), com remates de longe, pontapés de bicicleta, golos de todas as partes e com todos os feitios.

Ele vai a um Mundial e dois Europeus, cada torneio mais desapontante que o anterior. Para a seleção, que não logra um resultado de elogiar - nunca passa dos quartos-de-final -, e para Rooney, que mesmo rematando muitas bolas para dentro de balizas em partidas de qualificação ou jogos particulares, não é a estrela que leva quem com ele joga a reboque.

Quando, em novembro de 2015, bate o recorde de golos de Bobby Charlton na seleção inglesa, já é a estrela cadente que se rodeia com mais dúvidas do que certezas. Ainda nem trintão é, mas lá está ele, mais pesado, robusto e lento, menos explosivo nos arranques e com menor paciência para permanecer na área, à espera que passes lhe cheguem. A metamorfose na qual o deixam (ou Louis Van Gaal deixa) apostar no Manchester United, em que tenta ser mais médio distribuidor de passes do que avançado fiável em golos, acentua o quão diferente, para pior, ele vai ficando.

Getty Pool

O Wayne Rooney que vai a França, no verão de 2016, é um adulto pesado, lento, que faz a bola girar pelo campo em vez de tentar, ativamente, rematá-la para a baliza. É o capitão da seleção, com a braçadeira desde 2014, uma já quase lenda inglesa que, com mais de uma década a marcar golos e a ser avançado, gera pergunta sobre qual a melhor posição e sítio do campo para o colocar a jogar.

Dúvida que já o atormentava no Manchester United, clube do qual se torna, em janeiro, o melhor marcador de sempre (253 golos), em que nem José Mourinho descortina uma forma de enquadrá-lo na equipa. De tal maneira que o melhor, para todos, foi Rooney regressar ao Everton e, por enquanto, adormecer essas incertezas com os dois golos que já marcou esta época e o tornaram apenas no segundo jogador a marcar 200 na Premier League.

É assim que ele está, agora, no momento em que anuncia o adeus à seleção.

Wayne Rooney tem 31 anos, 119 jogos pela Inglaterra, o mais internacional dos jogadores de campo e só com Peter Shilton, um guarda-redes, à frente (125), 53 golos marcados, o maior goleador da história, e prefere focar-se apenas no Everton. Diz que Gareth Southgate, o selecionador que mal o chamara à equipa, desde setembro, lhe telefonara para o ter de volta. “Foi ótimo saber que o Gareth me queria de volta, [mas] quero focar as minhas energias em ajudar o Everton a ter sucesso”, revelou, por escrito, no seu site.

E agora todos o continuamos a ver, trintão, maior, mais pesado, com menos cabelo e velocidade, a retirar-se da seleção como um dos melhores que já lá jogou. Wayne Rooney, a jogar pela Inglaterra, nunca mais.