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Que todos estejam com Messi

É uma mão de Bolas de Ouro, os pés cheios das coisas mais mágicas, inacreditáveis, improváveis e desafiadoras das probabilidades de sucesso, e são tantas equações e contas. São demasiadas coisas para Lionel Messi poder ficar de fora do próximo Mundial, mas, esta noite, a Argentina está obrigada a vencer o Equador para continuar a ter hipóteses de chegar à Rússia

Diogo Pombo

EITAN ABRAMOVICH

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Estamos em apuros, precisamos de um resultado e dos golos para o obter, há um ou vários tipos em cima de mim, a marcarem e pressionarem, estou sem confiança, não me sinto capaz de decidir, sou pensamento e não instinto, as coisas não me saem, é melhor não arriscar, vou jogar pelo seguro, onde está ele?, já o vi, está ali, tenho de lhe passar a bola, depois mexer-me como acho que ele quer que eu me mexa, e espero que ele desencante e invente algo de bom. Se há quem o consiga fazer, é ele.

O Lio.

Não é que seja tendência recente, nem sintoma causado pelas circunstâncias atuais, que são péssimas, mas há pelo menos dez anos que toda a gente que já jogou na seleção argentina pensou, a certa altura, desta forma. Não é forçado, é natural, embora o que tudo tem para ser um privilégio se foi tornando, aos poucos, num problema. Porque o vício em ter o mais mágico, inventor, decisivo e génio futebolista de há dez anos para cá estropia hoje a seleção onde, não fosse Lionel Messi vivo, haveria meia dúzia de candidatos a jogadores espetáculo. A chegarem-se à frente para decidirem.

Esses argentinos, talentos como Gonzalo Higuaín, Sergio Agüero, Ángel Di María ou Paulo Dybala, são mansos e dóceis, dormentes nas qualidades que têm e exploram nos seus clubes, onde são estrelas, para se adaptarem à forma de jogar, ao estilo e às características de quem é melhor que eles em tudo. Chegam-se atrás perante Lionel Messi, anulam-se para o engrandecerem, passam-lhe todas as bolas esperando que dele saia algo que os salves a todos.

É um dos problemas que está a tramar a Argentina e que pode roubar ao próximo Campeonato do Mundo o jogador que é perseguido pela obrigação de, algum dia, o ter de ganhar.

ALEJANDRO PAGNI

A seleção argentina joga às 00h30 (Sport TV2) desta quarta-feira no Equador, nos 2.850 metros de altitude em que repousa o estádio de Quito, onde têm de vencer onde apenas venceram uma vez na história para garantir, pelo menos, que chegam ao play-off. Vão jogar contra equatorianos derrotados, já sem hipótese de qualificação, embora não pareceram tão derrotados quanto eles, os pobres argentinos.

Estão imersos numa campanha que os tem sem golos há quatro jogos, nenhum dos 78 remates feitos a entrar na baliza, tem-nos como produtores desenfreados e desorganizados de jogadas para as quais não encontram fim. Tudo neles é desordem, um caos acumulado nos três seleccionadores, nos três presidentes da federação, num boicote da seleção à imprensa que ainda dura e nos 59 jogadores convocados desde outubro de 2015, quando começou este apuramento.

E estão traumatizados por três finais perdidas, de seguida, entre o Mundial de 2014 e as duas Copas Américas seguintes, que traumatizaram Messi e um país. O génio mais pequeno do mundo recuperou em dois meses, voltando atrás da renúncia à seleção, fiel e seduzido pelos clamores até do presidente da nação, mas as gentes da Argentina nunca se curaram.

Os adeptos que são malucos e doidos varridos do futebol exigem os títulos que não mais se viram depois do ouro olímpico em 2008 e cobram, muitíssimo.

Quem leva com toda a ambição, a cobrança e a exigência joga, em campo, nervoso. Com a urgência de procurar o ataque à baliza constante e de qualquer forma. A pressão de ganhar não deixa pensar e organizar, respirar e ligar jogadores bons e capazes, a necessidade de estar um passo mais perto de ganhar tolda uma equipa. E a única solução para tanta troca de jogadores, instabilidade de quem manda e danças de treinadores, é passar a bola a Messi.

EITAN ABRAMOVICH

A maior fé na Argentina não está no cristianismo, tão pouco na igreja de Maradona, mas na crença de que levar a bola o maior número de vezes possível a quem mais a mim, melhor a trata, é suficiente para a seleção superar o que seja.

Lionel Messi, o futebolista recatado, calado e tímido, coleccionador de cinco Bolas de Ouro, dono de variadas Ligas dos Campeões, distribuidor de quase 600 golos na carreira, o decantador de jogadas imaginadas pelos deuses, é um génio fiel à seleção que o pode estar prestes a tramar.

Mesmo que a Argentina, com ele a ser, ou não, herói e decisivo, se qualifique para o Mundial, as coisas não vão melhorar. A vida albiceleste há-de sempre ser o quão mais perto, ou mais longe, estará Messi de conquistar essa competição que lhe falta e de o fazer sozinho, como se obrigatoriedade houvesse de ele ter que marcar todos os golos, passar todas as assistências, estar no início e no fim de toda a jogada, de ser tudo.

O vício de a Lionel Messi ser o Big Bang do universo argentino não vai terminar, ganhem eles ao Equador, ou não. Porque para os traumas e a fome de ganhar sempre se pensará que a solução é passar a bola ao diez, ao capitão, ao prodígio de um país que antes dele viu outro mais extravagante e excêntrico. “Se estamos à altura de Messi, o jogo vai-nos sair muito bem”, diz até o discurso de Jorge Sampaoli, o seleccionador que acentua tudo isto.

Todos deviam estar com ele e não a viver para, e em função, dele. Falhem ou não a presença num Mundial, volvidos 48 anos.