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Cuidado, os ingleses vêm aí (ou porque é que eles desataram a ganhar nos escalões jovens)

As seleções jovens de Inglaterra fizeram um brilharete nos últimos meses: ganharam os Mundiais de sub-17 e sub-20 e ainda o Europeu de sub-19. Os ingleses nunca tinham vencido nestes escalões e a explicação para o aparecimento de gerações tão boas pode estar no programa que, em 2011, a federação inglesa inventou para tentar revolucionar a formação no país. Parece ter resultado, mas tanto talento poderá esbarrar no que hoje mais existe no futebol inglês - o dinheiro

Diogo Pombo

DIBYANGSHU SARKAR

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Os ingleses têm um problema há muitas décadas, dos que são mesmo tramados de ultrapassar por terem origem no momento em que algo extraordinário aconteceu: em 1966, organizaram o Campeonato do Mundo, ganharam-no e passaram a ser tão inventores do futebol como campeões. Desde aí, tendo ou não os melhores jogadores, equipa, treinador e prognósticos, evivem com a ideia de que, a cada quatro anos, há a obrigação e o dever morais de vencerem o Mundial.

Há 51 anos e 12 edições da prova, portanto, que o peso das expetativas aumenta, independentemente de quão pesado for o nível dos jogadores ingleses que haja disponíveis para se fazer uma seleção. Eles não mais voltaram a chegar a uma final e até chegaram a não qualificar-se para três Mundiais (1974, 1978 e 1994). Há uma palavra em inglês que resume o que, na cabeça dos ingleses, tem acontecido desde que Bobby Charlton os levou à vitória no Mundial de Eusébio - underachievement. Abaixo das expetativas, pois.

Não renderem o que se espera deles. Ou, vendo por outra perspetiva, tem-se esperado sempre mais do que eles podem render.

É uma questão de jogadores e, reduzindo os problemas a um só, eles não têm crescido como os alemães, os espanhóis, os franceses ou até os portugueses. A Inglaterra, por tradição, sempre foi aquele país cuja seleção principal é melhor que as seleções jovens e nunca, mas mesmo nunca, esteve remotamente perto de fazer o que conseguiu este ano: conquistar o Mundial sub-17, o Mundial sub-20 e o Europeu sub-19.

O país que jamais conseguira chegar à final de torneios nestes escalões, a terra onde o pontapé para a frente e o correr atrás da bola se tornou cultural, onde as crianças mais pequenas sempre foram preteridas às grandes, sem se olhar para a relação com a bola, ganhou todas as competições mais importantes do futebol jovem (e ainda conquistou o Torneio de Toulon pelo segundo ano consecutivo).

A seleção de sub-17 a festejar a conquista do Mundial de sub-17 em Calcutá, na Índia

A seleção de sub-17 a festejar a conquista do Mundial de sub-17 em Calcutá, na Índia

DIBYANGSHU SARKAR

E mais ainda, porque, também em 2017, a Inglaterra chegou à final do Europeu sub-17 e ficou pelas meias-finais do Europeu sub-21. Ou seja, das cinco competições que existiram, este ano, entre a FIFA e a UEFA, para jogadores até aos 21 anos, os ingleses conquistaram três, foram vice-campeões numa e acabaram entre as melhores quatro equipas na outra.

Escrever que este foi um feito muito bom é um eufemismo, se olharmos para o registo do país nas anteriores edições das provas que agora conquistou:

Mundiais sub-17

2015: fase de grupos
2013: não se qualificou
2011: quartos-de-final

Mundiais sub-20

2015: não se qualificou
2013: fase de grupos
2011: oitavos-de-final

Europeus sub-19

2016: meias-finais
2015: não se qualificou
2014: não se qualificou
2013: não se qualificou
2012: meias-finais
2011: não se qualificou

Há uma razão para este mapeamento do que a Inglaterra fez nestas competições ir até 2011. No ano seguinte, a Federação Inglesa de Futebol (FA) criou o Elite Player Performance Plan, um programa para desenvolver e modernizar o plano que, em 1997, um senhor chamado Howard Wilkinson desenhou para aproximar a entidade dos clubes apoiá-los na construção de centros de treino, na formação de treinadores e na criação de equipas desde o escalão sub-8.

O objetivo do programa era desenvolver mais e melhores jogadores, entre os 9 e os 23 anos, dividindo-os por três fases (dos sub-9 aos sub-11, dos sub-12 aos sub-16 e dos sub-17 aos sub-23) e garantindo cerca de seis mil jogos por ano, entre todos os escalões. Passaram a existir categorias (de 1 a 4) para classificar a qualidade das infraestruturas dos clubes e conferir-lhes apoios financeiros consoante o nível, para os incentivar a melhorar as condições.

O capitão da seleção inglesa de sub-20, Lewis Cook, a chegar ao aeroporto de Heathrow com o caneco de campeão mundial

O capitão da seleção inglesa de sub-20, Lewis Cook, a chegar ao aeroporto de Heathrow com o caneco de campeão mundial

Nigel Roddis

Introduziu-se a educação como condição obrigatória durante a formação e, também em 2012, foi inaugurado o St. George’s Park, uma espécie de cidade do futebol inglês. Passou a haver um local para todas as seleções treinarem, estagiarem e reunirem.

E introduziram-se medidas como agrupar os jovens consoante o seu ano biológico e não apenas pelo ano civil em que nasceram - para evitar que crianças, por exemplo, nascidas entre setembro e dezembro, possivelmente mais fracas e pequenas, tenham que jogar com outras fortes e grandes e serem preteridas apenas pela condição física.

Coisas como estas foram implementadas quando os miúdos que, agora, são campeões mundiais de sub-17 e sub-20 e campeões europeus de sub-19 era crianças, ou recém-adolescentes. E resultou.

Há talento e nomes cheios de jeito que prometem alimentar a seleção principal nos próximos anos. Ou não, e a culpa pode estar no próprio futebol inglês, como ressalvou Ralf Ragnick, um dos responsáveis para a revolução que a Alemanha fez no seu futebol de formação, a partir de 2000. “Às vezes, parece-me que é quase como um bilionário que coleciona moedas e, quando tem visitas em casa, mostra orgulhosamente as suas coleções, mas, depois, quando eles se vão embora, coloca as moedas de volta nas gavetas”, comparou, ao falar com o The Sun sobre as recentes conquistas das seleções inglesas.

A analogia do diretor técnico do RB Leipzig está presa ao que é hoje o futebol inglês: um mar de dinheiro onde os 20 clubes da Premier League recolhem centenas de milhão de euros, por ano, só em receitas de direitos televisivos. O que lhes dá um cofre para gastar em jogadores estrangeiros e bons, sim, mas vindos de fora. Enquanto os que nascem lá dentro ficam a marinar num campeonato de reservas com duas divisões, onde não há subidas e descidas e a competitividade é escassa.

Os jogadores da seleção de sub-19, aos saltos e em festa, após vencerem Portugal na final do Campeonato da Europa do escalão

Os jogadores da seleção de sub-19, aos saltos e em festa, após vencerem Portugal na final do Campeonato da Europa do escalão

Getty Images

Em Portugal, por exemplo, miúdos com a mesma idade (até aos 23 anos) podem competir nas equipas B que, na sua maioria, jogam na segunda liga. Portanto, a um nível profissional, algo que os jovens ingleses do Manchester City, Chelsea ou Manchester United não têm no campeonato de reservas. “Eles jogam numa liga informal. Não estão sob qualquer tipo de pressão, há um pequeno troféu no final, mas não é competitivo o suficiente”, resumiu Rangnick.

O alemão indicou também o problema de os clubes ingleses ainda serem algo alérgicos à ideia de haver um diretor desportivo e um treinador, ao invés de um manager que controla tudo. Não abona a favor de um clube ter uma estratégia e uma política organizadas e com olho no longo-prazo, em vez de estarem sujeitas ao sabor das intenções dos treinadores que vão, e vêm.

Um problema que está a barrar o caminho aos novatos ingleses que se fartaram de ganhar em 2017, como Keith Downing, selecionador dos sub-19, lamentou ao Daily Telegraph: “Não é uma questão de os jogadores não terem o que é preciso. Há o problema de os jogadores ingleses não terem tempo de jogo. Somos invadidos por dinheiro, o que é fantástico para o jogo, mas termos apenas 33% de ingleses entre os jogadores da Premier League é insuficiente. A pressão sobre os treinadores é imensa, eles precisam de resultados instantaneamente. Têm dinheiro disponível para comprarem os melhores jogadores”.

Uma solução poderia ser incentivar estes miúdos a experimentarem clubes em Espanha, Alemanha ou Itália, quebrar a tendência inglesa de pouco emigrar. Este verão, Chris Willock fê-lo ao trocar o Arsenal pelo Benfica e arriscar uma aventura no estrangeiro, aos 19 anos. Tipos como Phil Foden (Manchester City), Ryan Sessegnon (Fulham) ou Angel Gomes (Manchester United, filho de Gil Gomes, que foi campeão mundial de sub-20 por Portugal, em 1991) poderiam pensar em fazer o mesmo.

Ou, então, podem ficar em Inglaterra à espera que os deixam jogar quando chegar o seu tempo.