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Laranja mecânica com demasiado sumo para Portugal à deriva

Portugal perde por 3-0 frente à Holanda naquele que foi o resultado mais pesado na era Fernando Santos. João Cancelo foi expulso por acumulação de amarelos

Tiago Oliveira

Getty Images

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Pode não ser a laranja mecânica de Cruyff, Van Basten ou, sem necessidade de ir mais longe, Robben e Van Persie. Mesmo em construção e ainda à procura de sair do trauma dos dois recentes apuramento falhados, chegaram e sobraram para um campeão da Europa sem imaginação e sem heroísmos de última hora (só mesmo com direito a selfie numa mini invasão de campo). Eis o retrato do Portugal - Holanda que acabou em derrota pesada para as cores lusas.

Foi apenas a segunda derrota da equipa das quinas perante os holandeses, que nos contam entre as suas principais "bête noires" como resultado das eliminações às nossas mãos em grandes competições ou fases de apuramento. História sem qualquer transposição para fria noite de Genebra, onde os homens de Fernando Santos não foram obstáculo de grande monta para a seleção que, do outro lado, tenta trilhar um novo caminho.

E se é certo que as mexidas táticas do Engenheiro terão cumprido o seu papel em dotar a equipa daquilo que for o inverso de fio de jogo, a Holanda trabalhou para deixar boa imagem. Sobretudo após a exibição pálida frente à Inglaterra, Ronald Koeman apostava agora num bom resultado frente e foi recompensado com uma exibição prometedora.

O antigo técnico do Benfica revelou, na conferência de imprensa, ter boas memórias de Portugal e, a fazer fé nesta experiência, será aposta segura que tão cedo não se vão alterar. Não seria a intenção dos portugueses, que entraram em campo transfigurados face à visita arrancada a ferros frente ao Egito. Nada menos que nove alterações ficaram a nu na ficha de jogo, com apenas Rolando e Ronaldo a manterem-se, enquanto Mário Rui recebeu a primeira internacionalização A da sua carreira.

A jogar num 4-4-2 com a frente de ataque entregue aos melhores amigos dentro e fora de campo (como Gabriel Alves uma vez descreveu Steve McManaman e Robbie Fowler do Liverpool), Quaresma e Ronaldo, o início do jogo mostrou um Portugal a dominar a posse de bola mas sem ser particularmente incisivo com ela. Entre passes para o lado e para trás, a seleção só chegava à grande área através dos cruzamentos do extremo do Besiktas.

Se as aparências da Holanda até poderiam enganar à partida (até porque jogaram de azul), os primeiros sinais foram de uma equipa capaz de esticar ao longo do campo em transições rápidas. E foi assim que chegaram ao golo, numa das primeiras vezes que aceleraram o ritmo. Depay começou e concluiu a jogada, após um primeiro remate de Van de Beek e, aos 11 minutos, bateu o seu colega de clube, Anthony Lopes.

Expulsão (e invasões de campo) travam reação

O 1-0 não teve o condão de acordar Portugal, que passivo na defesa e maio-campo, pouco conseguia fazer perante uma Holanda que, mesmo sem forçar, chegou sem grande dificuldade ao 2-0. Cruzamento da direito e, sem oposição, Ryan Babel a cabecear na grande área para o fundo das redes aos 32 minutos. Tarefa complicada, que aumentou ainda um grau de dificuldade quando Van Dijk aproveitou um passe atrasado para finalizar sem hipótese e fazer o 3-0 pouco antes da saída para o intervalo. Que só não foi pior porque Anthony Lopes negou o bis a Depay com uma grande defesa.

Resultado inédito na era Fernando Santos e que, para correr atrás do prejuízo, ia obrigar a mudanças a partir do banco. Que chegaram com as entradas de Neto, Gonçalo Guedes e André Silva logo ao intervalo. Alterações que trouxeram um Portugal mais pressionante e que logo aos 50 minutos, obrigou Cillessen defender um clássico remate de trivela de Quaresma (que pouco depois daria o lugar a Gelson).

Ímpeto que caiu por terra quando, já com amarelo, João Cancelo entra de forma imprudente sobre o adversário e obriga o árbitro a expulsá-lo num jogo amigável. Ambiente estragado, e ritmo cortado com duas minis invasões que serviram para uma selfie de Ronaldo com cara de poucos amigos e um princípio de placagem de Fernando Santos.

A monotonia foi a nota dominante para o resto do jogo, com a Holanda a gerir o jogo e Portugal resignado ao resultado, tirando um remate de longe do estreante Mário Rui que, com um colocado remate de longe, ainda provocou calafrios aos 72 minutos. Ou, para os mais nostálgicos, Justin Kluivert (sim, o filho desse mesmo) a estrear-se pela laranja mecânica.

Nos minutos finais, Gonçalo Guedes e André Silva estiverem próximos de reduzir o défice, sem sucesso. 3-0 e o último teste antes da convocatória final, que dá muito material que pensar, quando o Mundial da Rússia aproxima-se sem parar.