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Quando você não pode mudar o passado, você tenta mudar o presente

E os brasileiros, mesmo que não na mesma medida, mudaram o presente que têm com os alemães: ganharam-lhes por 1-0, dois anos após a humilhação do 1-7, nas meias-finais do último Mundial. Não foi uma vingança do Mineiraço, muito menos um ajuste de contas. O jogo que o Brasil fez questão que acontecesse antes do verão serviu para enfrentar um trauma, não que fosse possível enterrá-lo - mas, pelo menos, começou a tapá-lo

Diogo Pombo

Chris Brunskill Ltd

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Não é um país, porque um país é um território, ele não pensa, não sofre e muito menos sente vergonha. É um povo, o povo que tem dentro. Esse sim, sente e torce e espera coisas e vibra tanto que, quando não as tem, sofre o dobro ou o triplo do que as expetativas que tinha. Que são e sempre foram enormes, porque o brasileiro, olhando para um campo de futebol onde jogasse a sua seleção, é um povo cuja certeza de que tem os melhores jogadores muito raramente não se verificou.

É este povo, no seu português abrasileirado, que não chamou apenas vexame - a sua palavra para vergonha, escândalo, desonra ou afronta - a dois momentos em que se sentiu humilhado pelo que se passou com uma bola entre duas balizas.

A final de um Campeonato do Mundo caseiro que julgavam ser-lhes destinado deu-lhes o trauma do Maracanaço, com a final perdida, em 1950, em pleno maior e mais icónico estádio que têm. A meia-final do outro Mundial que receberiam ficou-lhes como o Mineiraço, um jogo de futebol que foram derrotados por 7-1 e a Alemanha lhes ganhou em tudo: nos golos, na espetáculo, na equipa e nos jogadores.

Nesse dia um povo chorou e nesse povo estavam os jogadores, em lágrimas no campo e a pedirem desculpa às gentes que os fizeram acreditar, erradamente, que era possível ganharem uma Copa, como eles dizem. Não tinham os melhores futebolistas, não jogavam (de longe) como a melhor equipa, e esses jogadores não tinham um treinador que pensasse como um europeu pensa.

Não é discriminação, racismo ou comparação de mau gosto. É o que Tite, o homem que chegou à seleção depois de a Confederação Brasileira de Futebol dar três passos atrás, ao retroceder na escolha de Dunga como sucessor de Luiz Felipe Scolari, deu ao Brasil. À seleção que, na terça-feira, enfrentou o seu trauma e ao povo que foi obrigado a assistir.

A verem como Marcelo operava livre e deambulante na esquerda, naquela sua força imprudente a ir para a frente que calhou estar numa noite em que isso não teve consequências atrás. Como Fernandinho roubava aos alemães para dar aos seus, um ladrão e articulador de bolas.

Como essas bolas, depois, eram filtradas até Willian, o desequilibrador de cabelo em pé que parava e arrancava com a bola, sempre a ter sucesso como a galinha que escapa a um grupo de crianças que a tentam apanhar. Também viram como as virtudes de Daniel Alves, em posse, compensam a forma já vagarosa como reage às bolas que exploram as suas costas. E como Paulinho, o bruto e trapalhão médio que assim é visto em Barcelona, era o tipo que chegou a impor o ritmo de jogo e a compensar tudo quanto era espaço aos companheiros que pressionavam um alemão que tivesse a bola.

Estes cinco estavam lá, há quase quatro anos, a correrem em vão no campo ou sentados impávidos no banco, com a mesma dose de impotência enquanto a sobranceria brasileira era desfeita pela máquina alemã. O trauma era real para um povo, para eles era experiência vivida.

Em Berlim foram todos um no meio de um coletivo, partes a funcionar para um modelo de jogo e uma forma de estar, ambas superiores a cada jogador. Não se viu magia, fintas bonitas mesmo que estapafúrdias, jogadas com calcanhares, trivelas, dedos mindinhos e as partes do pé com as quais mais tramado é tocar numa bola redonda. Não houve o génio circense do talentoso Neymar, lesionado, como não havia no 1-7, é verdade.

Mas agora há Tite.

ROBERT MICHAEL

O treinador brasileiro com uma carreira no Brasil, mas que viajou para a Europa, conheceu treinadores (Carlo Ancelotti e Zinedine Zidane, por exemplo) e europeizou-se no pensamento. Percebeu que a anarquia da criatividade não resolve tudo, que a fé no génio das partes é apenas isso, uma crença de que o talento dos jogadores chega para derrotar qualquer equipa.

Ele construiu e está a construir uma equipa, desde junho de 2016, onde há coisas que se identificam e noções que se reconhecem: a reação louca à perda (um terço das bolas recuperadas aconteceram na metade alemã do campo), a cobertura e os apoios frontais a quem tem a bola, a preferência pela organização, o não correr para a frente só a improvisar, o ter os jogadores próximos.

Um jogo de Mundial nunca será igual a este, em que venceu por 1-0 e poderia ter ganhado por mais. Só Kroos, Kimmich, Boateng e Draxler representarem, com certeza, quem deverá ser titular quando os jogos forem a sério para toda a gente e não apenas para os brasileiros. Eles foram com tudo - salvo Thiago Silva e Philippe Coutinho, talvez todos sejam para jogar de início no verão - e, após hora e meia, houve apenas uma substituição. "O Brasil mostrou-nos que não somos tão bons quanto todos dizem. Ou, pelo menos, o que alguns de nós talvez possamos achar", reconheceu Toni Kroos, no final.

Seria impraticável pensar, sequer, em remediar o que aconteceu no Mineirão, fosse esta ou outra a miscelânea de jogadores. Mas "quando você não pode mudar o passado, você tenta mudar o presente", resumiu o sábio Tite, antes do jogo.

E os brasileiros tentaram, tão compenetrados que o treinador esbracejou e protestou instintivamente ao ouvir o que julgava ser o apito do árbitro para assinalar uma falta ou uma paragem, que Tite não vira ou admitira - só que era o apito final para acabar com o jogo. Ele, e eles, estavam mais do que ligados.

O Brasil não foi espetacular, majestoso e driblador para os aplausos, longe disso, mas foi uma equipa sólida, consistente, sabedora que o jogo podia ter. Foi uma equipa com uma ideia e jogadores para a concretizarem, não um conjunto armadilhado para sobressaírem os artistas. Tite sabia que só assim se podia enfrentar o trauma, como uma criança que salta para a piscina e dá um chapão, mas insiste, por querer aprender a mergulhar.

Os brasileiros, pelo menos os que jogam futebol, parecem ter aceitado o trauma. E, como escreveu Milly Lacoombe na "Folha de São Paulo", esse pode ser o primeiro passo para se transformarem para melhor.