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Cuidado, o moleque Neymar voltou

O golo 54 de Neymar no seu jogo 84 pelo Brasil apareceu, precisamente, três meses depois no dia em que foi operado ao dedo mindinho do pé direito e fez o mundo duvidar se conseguiria estar aqui, e assim, desta forma, pronto para o Mundial

Diogo Pombo

Alex Livesey

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Há precisamente três meses, ele estava deitado na cama, um anestesista pediu-lhe para contar até 10. A droga adormeceu-o por uns momentos e, quando acordou, Rodrigo Lasmar ter-lhe-á dito que tudo correra bem com o quinto metatarso do seu pé direito, ou o osso do dedo mindinho.

Neymar despertou no hospital de uma cirurgia a uma fratura, na qual o médico lhe colocou um parafuso, e aí arrancou logo uma operação em contra-relógio. O tempo urgia para o brasileiro querido pelos brasileiros, povo sem coração, cada um com uma bola de futebol a bombear-lhe sangue pelo corpo.

O país que vive por quadrilénios, porque a Copa do Mundo demora quatro anos a renascer, precisava que o destacado craque desta geração de futebolistas se pusesse bom para que uma conquista na Rússia fosse mais do uma esperança.

E tiveram que esperar, e ansiar, e duvidar até este domingo. Mais concretamente, até aos 69' do Brasil-Croácia, amigável não fosse a agressividade nas entrada à bola dos jogadores balcânicos.

Nesse minuto, Neymar, naquele estilo muito seu de pés peso-de-pluma, supersónicos a moverem-se em espaços minúsculos de relva, recebe a bola na área, serpenteou entre dois corpos croatas e estoirou um remate ao topo das redes da baliza. Tudo num isto num espaço onde um futebolista daria dois toques na bola, no máximo.

O moleque mais talentoso do Brasil marcou um golaço no fim da sua corrida contra o tempo e correu, logo, em direção ao banco, para abraçar Rodrigo Lasmar, o médico da seleção que o operou, há três meses.

As eletrizantes reações nesses espaços curtos e a potência de um remate repentino foram espetaculares, mas, findos três meses sem estar num jogo de futebol, o que mais espantou no espantoso Neymar foi como nunca pareceu ter estado parado durante três meses.

Ele deu-se ao jogo, arriscou fintas, arrancou em raides com a bola, teimou em não a passar e, portanto, em ser carregado por croatas impacientes. Ele pode não ter feito isto com a frequência por minuto de jogo a que estamos habituados, porque a forma física não se cura tão rápido quanto a confiança e a moral na cabeça, mas viu-se o efeito Neymar.

Que é o efeito de ver uma equipa adversária a deslocar marcações, abrir espaços ou colocar vários jogadores em cima dele só pelo facto de Neymar estar ali, em campo. É parte da explicação - a outra é o enormíssimo talento que cabe num corpo tão engonçado - para os 54 golos e 33 assistências que leva em 84 jogos pelo Brasil (se fizer as contas, são mais intervenções em golos do que internacionalizações).

Cuidado, o moleque está de volta.