Tribuna Expresso

Perfil

Seleções

Há 15 anos Ronaldo levantava a primeira Taça pela seleção (depois de passar pelo McDonald’s)

Em junho de 2003, precisamente há 15 anos, um grupo de jovens preparava-se para viajar até Toulon, para disputar um torneio que ficaria para a história, entre trocas de equipamentos, conversas a meio da noite, idas ao McDonald’s e, claro, grandes vitórias

Miguel Henriques

A 21 de junho de 2003, Cristiano Ronaldo e os restantes companheiros conquistaram o Torneio de Toulon com a seleção sub-20

getty

Partilhar

No FC Porto, José Mourinho preparava a final da Taça com a União de Leiria e marcava as capas com um estilo que o mundo haveria de conhecer: “Se algum treinador disser que vai ser campeão, digo-lhe: ‘Não serás’”. No Sporting, Boloni era passado e para substituí-lo chegava um engenheiro vindo da Grécia, de seu nome Fernando Santos, ao mesmo tempo que Jardel se desdobrava em entrevistas para mostrar aquilo que já todos tinham percebido: queria sair. No Benfica, Luís Filipe Vieira e Camacho estavam num braço de ferro para decidir um novo contrato. Os estádios estavam quase prontos, a um ano do Euro 2004, e Scolari defendia o menino, isto é, fazia estrear Quaresma num particular com a Bolívia.

Tudo isto num mês que ficou para a história por causa de uma cidade chamada Toulon.

Em junho de 2003, a caminho de França, ia uma seleção que poderia ser também um grupo de amigos de longa data em viagem, enquanto, de escalão em escalão, ia dando cor e títulos ao futebol português. Basta lembrar que, três anos antes, estes miúdos tinham vencido o Europeu de sub-16 em Israel. “O nosso grupo de Toulon era constituído por bastantes jogadores que vinham do passado, de boas prestações. Tínhamos vencido um Europeu sub-16 e andávamos há muito tempo juntos”, recorda um deles, João Paiva, ao Expresso.

As rivalidades fomentadas entre clubes durante a época ficavam lá atrás quando se juntavam e a qualidade do colega do lado não era motivo de inveja, bem pelo contrário, como nos conta o antigo avançado que, na altura, representava o Sporting B: “Eu e o Hugo Faria [jogador do FC Porto] jogávamos um contra o outro, tínhamos as nossas quezílias, mas depois íamos de férias juntos. Ninguém tinha um ego maior do que o do outro. Toda a gente olhava para o lado e reconhecia o valor de quem lá estava”.

Cristiano Ronaldo, dois anos mais novo do que a maioria, tinha apanhado este comboio já em andamento a caminho de Toulon, mas integrou-se rapidamente, porque muitos dos que ali estavam tinham sido seus colegas no Sporting. Depois de uma boa época que começou na formação secundária dos leões e acabou na equipa principal, com 31 jogos e cinco golos, o miúdo tinha meia Europa atrás dele.

Cristiano Ronaldo, então no Sporting, deu nas vistas em Toulon como um dos melhores jogadores portugueses

Cristiano Ronaldo, então no Sporting, deu nas vistas em Toulon como um dos melhores jogadores portugueses

getty

O que lhe sobrava em qualidade reconhecida por todos, ainda lhe faltava em maturidade. Miguel Garcia era um dos que estava neste grupo e conhecia-o bem dos juniores, onde era capitão e seu conselheiro: “Na altura éramos juniores, ele já jogava connosco e resolvia. Mas muitas vezes chateávamo-nos porque ele agarrava-se muito à bola e depois tínhamos de ir todos correr para trás. Eu era capitão no Sporting e talvez dos que mais falava com ele por causa desses excessos. Ele tinha lá a personalidade dele, mas respeitava-nos”.

E foi dentro deste espírito, de todos a trabalhar para um bem comum, que a seleção portuguesa de sub-20, sob o comando de Rui Caçador, entrou em campo contra a Inglaterra, sem medos, e brindou os adeptos com uma vitória por 3-0.

Custódio, Lourenço e Ronaldo foram os reis dos golos num jogo que parecia ter sido disputado num qualquer estádio português. As memórias são do central Hugo Faria, hoje jogador do Louletano: “Havia muitos portugueses, lembro-me de nos sentirmos em casa. Até na rua quando saíamos havia pessoas que nos incentivavam em todo o lado”.

Seguiu-se mais um 3-0 à poderosa Argentina, onde despontava um jovem médio chamado Mascherano, que era descrito no jornal "Record" como um “misto de Redondo e Paredes”. Em Portugal, o destaque era todo para Lourenço - avançado que já tinha ganho Toulon dois anos antes - e Custódio. Tudo acontecia com naturalidade. “Lembro-me que apanhámos logo a Inglaterra e a Argentina, mas nós sempre acreditámos que podíamos vencer o torneio. Íamos para os jogos descontraídos e tudo funcionava muito bem. Havia um grande espírito e quando um falhava, estava lá outro para ajudar”, recorda o ex-jogador Miguel Garcia.

Miguel Garcia, que chegou a ser herói no Sporting, acabou a carreira na Índia, em 2015/16

Miguel Garcia, que chegou a ser herói no Sporting, acabou a carreira na Índia, em 2015/16

getty

Hugo Faria viu esse jogo contra os argentinos sentado no banco e de olhos postos em Ronaldo: “Estava no banco e lembro-me de ver o Cristiano na linha. Então gritava: ‘Mete a bola nele que ele passa por todos!’

Entre os jogos que se iam vivendo de vitória em vitória, sobrava tempo para outras partidas não menos importantes, que aconteciam no quarto de João Paiva e Miguel Garcia. “O nosso tempo passava-se em grandes torneios de FIFA na Playstation. Eram sempre no meu quarto e no do Miguel, 13 a 14 jogadores todos juntos. Isto era de tal forma vivido que pareciam quase mais importantes do que os jogos”, atira o antigo avançado.

Quando não era a perícia na consola, eram os jogos de força à procura de perceber quem era o melhor. Hugo Faria era especialista no braço de ferro e tinha o menino Ronaldo sempre a desafiá-lo: “Fora dos treinos, eu gostava de fazer o braço de ferro e ele era dos únicos que estava sempre a picar-me. Isso só mostra o caráter dele, de querer ser sempre o melhor em tudo”.

Nem a derrota com o Japão, por 1-0, num jogo marcado por um apagão geral, abalou um grupo que se queria vencedor. No dia seguinte, o jornal "Record" pôs os jogadores a fazer de jornalistas e a entrevistar os colegas. Lourenço perguntava a Custódio: "Como é que vai ser agora com a Turquia, um jogo decisivo... O que é pode acontecer?” A resposta dava bem conta da boa disposição que se vivia: “Os três resultados [risos]. É entrar para ganhar o jogo com o máximo de humildade possível, conscientes que temos possibilidade para chegar à final, como demonstrámos nos primeiros jogos do torneio”.

Danny, então emprestado pelo Sporting ao Marítimo, foi um dos jovens portugueses a brilhar em Toulon

Danny, então emprestado pelo Sporting ao Marítimo, foi um dos jovens portugueses a brilhar em Toulon

getty

Veio a Turquia, e cumpriu-se a tática de Custódio. Humildade que baste, juntando uma pitada de sofrimento, e uma vitória por 2-0 com golos de Danny e Nuno Viveiros. Os tempos eram outros, assim como o profissionalismo. Ora o jogo até começou 30 minutos atrasado porque as duas seleções surgiram de branco no relvado. Instalada a confusão, foi preciso o carro da polícia francesa ligar a sirene e ir a alta velocidade ao hotel buscar o equipamento alternativo dos turcos para que finalmente houvesse jogo.

E voltando ao tema profissionalismo, hoje o rigor é levado ao extremo, com tudo a ser medido e o mais ínfimo pormenor tido em conta para que nada falte. Em 2003, a chegada à final teve como prémio a ida ao McDonald’s. Para Hugo Faria até fez mais bem do que mal: “Não teve influência, até se criou mais responsabilidade. Às vezes dão-nos uma mão e recebem a outra em troca. Foi um excesso, mas um excesso 'saudável'. O que é certo é que fomos ao McDonald’s e fomos campeões”.

Mas, antes de chegar ao jogo do título, é importante lembrar que para jogarem onze há sempre uns que ficam no banco de suplentes - caso de João Paiva. Titular até então e com golos para amostra, o que é facto é que Rui Caçador optou por Hugo Almeida, remetendo Paiva ao banco. A irreverência própria da idade fê-lo querer saber o porquê, a meio da noite: “Uma história de que todos se lembram ainda hoje foi eu ter ido bater à porta do treinador para perguntar os motivos de não jogar”. Miguel Garcia, colega de quarto, completa a história: “Ele estava na cama, levantou-se e disse que ia falar com o Caçador. Bateu-lhe à porta e disse: ‘Mister, quero falar consigo’. O Rui Caçador abriu a porta e respondeu: ‘Vai mas é dormir’. E voltou a fechá-la”.

Lourenço, então jogador do Sporting - e agora já retirado -, a disputar uma bola com um italiano na final do Torneio de Toulon de 2003

Lourenço, então jogador do Sporting - e agora já retirado -, a disputar uma bola com um italiano na final do Torneio de Toulon de 2003

getty

21 de junho de 2003 era o dia da grande final com a Itália. Nos 80 minutos que o jogo teve, porque este era o tempo regulamentar de uma partida em Toulon em 2003, aconteceu de tudo.

Vamos primeiro ao onze de Portugal para ajudá-lo a perceber quem eram os jovens protagonistas: Bruno Vale, Miguel Garcia, José Castro, Pedro Ribeiro, Vítor Rodrigues, Raul Meireles, Davide, Hugo Faria, Ronaldo, Lourenço e Hugo Almeida.

O jogo começou até bem para o conjunto português naquela forma natural de jogar em que tudo sai bem. O problema é que os italianos iam provocando o conjunto nacional, o ambiente foi aquecendo, e Hugo Almeida decidiu responder na mesma moeda. O resultado foi uma expulsão logo aos 25 minutos, com João Paiva no banco a ver.

A equipa recuou, cerrou os dentes, e foi aguentando o resultado. Mais uma agressão, agora do lado italiano, e mais uma expulsão: desta vez foi Bovo que repôs a igualdade de forças em campo. A panela de pressão voltou a apitar e Gastadello também viu o segundo amarelo. Agora eram dez contra nove.

Mesmo assim, Rupuolo, aos 67 minutos, abriu o marcador para os italianos, que festejaram o golo como se o título estivesse ali ao virar da esquina.

Do banco, Rui Caçador fez saltar finalmente João Paiva, e o avançado, que andava o torneio todo à procura de uma resposta, deu-a em campo, com um golo aos 72 minutos. Escusado será dizer que foi festejá-lo na cara do treinador da seleção. “Houve ali muitas emoções à flor da pele e um festejo que hoje não repetiria".

Depois foi Danny, que também tinha entrado na segunda parte, a fazer o 2-1, a três minutos do fim. O luso-venezuelano decidiu dedicar o golo à mulher que estava na bancada, logo atrás do banco de suplentes da Itália. Claro que se o caldo já estava entornado, houve quem quisesse molhar a sopa no português. “Fui celebrá-lo para o pé da minha esposa que estava, por acaso, por cima do banco da Itália. Eles pensaram que eu estava a provocar e chatearam-se. Veio tudo para cima de mim”, conta o agora jogador do Slavia de Praga.

Os fetejos dos portugueses em Toulon, depois da vitória por 3-1 na final, perante a Itália

Os fetejos dos portugueses em Toulon, depois da vitória por 3-1 na final, perante a Itália

getty

Ainda houve tempo para o 3-1, mais uma vez por João Paiva, porém com festejos menos efusivos para cima de Rui Caçador. Estava assim consumada a conquista do Torneio de Toulon de 2003, em grande clima de festa, com muito emigrantes à mistura, algo que não mais se voltou a ver.

Hoje, passam-se 15 anos sobre esta vitória e a história permite-nos com a devida distância olhar à carreira de muitos destes jogadores e dos protagonistas deste bonito capítulo. Ronaldo é hoje o melhor do mundo, ainda veste a camisola da seleção e carrega Portugal às costas no Mundial na Rússia; Miguel Garcia, um dia chamado de herói de Alkmaar, já não joga, está a terminar uma licenciatura para seguir o ramo imobiliário; João Paiva emigrou para a Suíça, fez lá os últimos anos da sua carreira, e é hoje treinador do Sindicato dos jogadores deste país; Danny, ídolo na Rússia e no Zenit, brilha ainda hoje no Slavia de Praga; e Hugo Faria voltou às origens e é hoje jogador e treinador dos sub-10 do Louletano.

Para lá da qualidade, há inúmeros fatores que podem determinar a carreira de um jogador. Entre sorte, compromisso, lesões, treinadores e empresários, há os que chegam mais longe e os que ficam pelo caminho, mas todos estes guardam com orgulho a medalha e as recordações da última conquista portuguesa em Toulon. Incluindo o homem que mais alegrias tem dado à seleção: Cristiano Ronaldo, claro.