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William tem de deixar de fazer faltas telecinéticas e outros pedidos de Rogério Casanova

William é especialista em telecinesia e se não sabe bem o que é que isso quer dizer, não se preocupe, Rogério Casanova explica, depois da vitória do Sporting em Paços de Ferreira (1-0)

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA / Getty

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Rui Patrício

É o terceiro jogo oficial consecutivo em que, no momento em que soa o apito final, é, ou continua a ser, campeão europeu. Apesar disso, as pessoas continuam a tentar fazer-lhe chapéus do meio da rua, ou remates à figura, ou patéticos assédios na pequena área, numa perturbação desnecessária e inconsciente de hábitos sedentários. Era bom para ele, para todos, para Portugal, que o deixassem em paz.

João Pereira

Ao contrário do jogo anterior, quase não conseguiu sair do seu meio-campo nos primeiros dez minutos, por culpa da boa entrada do Paços. Depois foi começando a subir e a tentar combinações com Gelson, mas quase nunca conseguiram criar superioridade numérica (essa criou-a sozinho numa boa arrancada aos 49 minutos). Esteve melhor na segunda parte e evitou alguns contra-ataques perigosos.

Coates

Não mostrou hoje uma das qualidades que o elevou na hierarquia de centrais acima de Paulo Oliveira e Naldo – a presença ofensiva na área adversária. Mas mostrou quase todas as outras: qualidade com a bola no pé; impecável timing na antecipação; e um talento anatómico muito peculiar para fazer com que gestos que se assemelham à movimentação hidráulica de uma ponte basculante, ou a um deslizamento de terras em câmara lenta, possam ser honestamente descritos como "acrobáticos". O corte na área a dois minutos do fim foi a maior crueldade feita a alguém chamado Cícero desde que Marco António mandou decapitar o outro.

Rúben Semedo

Continua a sua revolucionária odisseia para transformar a imprevisibilidade criativa num atributo defensivo. Mostrou ao que vinha logo aos dois minutos, resolvendo um problema perto da bandeirola de canto com um voo picado, seguido de uma finta; doze minutos depois cortou uma bola de calcanhar, amortecendo-a para um colega nas suas costas. De resto foi resolvendo todos os problemas chegando ao sítio certo antes de toda a gente, e saindo de lá com a bola antes de toda a gente. Num salutar contraponto a Bruno Pereirinha (um extremo com mentalidade de central), é o primeiro central formado em Alcochete com mentalidade de extremo.

Bruno César

Aos 28 minutos, aproveitando uma saída de Defendi, tentou um chapéu de meio-campo. Falhou, mas ficou mais perto do alvo do que em muitos dos seus cruzamentos – que alternaram entre o demasiado curto e o demasiado largo (pelo menos um saiu pela linha lateral do lado oposto). Redimiu-se no lance do golo, ao encontrar a cabeça de Gelson no equivalente a um palheiro. A defender esteve suficientemente bem para se arriscar uma tese: nenhum adepto do Sporting terá perguntado, durante o jogo, "porque é que não jogou antes o Jefferson?"

William Carvalho

Viu o primeiro cartão amarelo do jogo depois de derrubar um jogador do Paços de Ferreira por meio de telecinesia, uma prática sobrenatural que consiste em afectar o movimento de objectos ou pessoas apenas com o poder da mente, e que é terminantemente proibida pelas leis da FIFA (e da física). A destacar, além dos clássicos rodopios de esclarecimento, uma grande abertura para Slimani ao minuto 63.

Gelson Martins

Não entrou bem no jogo, falhando alguns passes curtos nos primeiros minutos. Mostrou a genica habitual, e saiu-se bem de vários dribles, mas acumulou maus cruzamentos com patológica consistência. A assistência para o golo é dele (e podia ter outra, caso Slimani tivesse empurrado a bola para o sítio certo), mas a grande utilidade atual para a equipa viu-se ao minuto 60: numa das poucas vezes em que João Pereira foi ultrapassado pelo adversário direto, Gelson veio dobrá-lo à grande área, cortou um potencial lance perigoso e ainda ganhou um lançamento. Foi substituído, mas não certamente por cansaço.

Adrien Silva

MIGUEL RIOPA / Getty

A intensidade e urgência que aplica na procura de espaços não preenchidos na geometria física do oponente por onde possa enfiar o pé e sacar uma bolinha faz da sua técnica de desarme um fascinante objeto de estudo. Foi o jogador do Sporting que mais tentou os desequilíbrios individuais na primeira parte, marcou o único golo do jogo, num gesto técnico comovente (pela forma como sacrificou 5%, digamos, de elegância em nome da eficácia), e ao minuto 85 ainda andava lá na frente a recuperar bolas perto da meia-lua adversária. Será talvez o jogador do campeonato nacional em que o valor "de mercado" está mais desfasado da sua importância para a equipa.

Bryan Ruiz

É um dos aristocratas naturais do desporto. Olha-se para ele e espera-se encontrá-lo nas páginas da Revista Lux, a mostrar a sua herdade, os seus cavalos, o seu mordomo, sempre de sorriso radiante, epiderme saudável, e ao lado da sua esposa, a viscondessa. E depois, em jogos como o de hoje, vê-se nele uma tensão vocacional, como se fosse um déspota que sonha ser tecnocrata. Nada lhe daria mais prazer do que resolver tudo com ordens executivas e preenchimento de formulários, em vez de andar ali a chacinar nativos com fintas e cruzamentos. Nestes momentos de fraqueza, o seu subconsciente decide puni-lo fazendo-o parecer vulnerável, falível – uma peça solta engolida pela colossal burocracia atlética que criou, mas que (nestes dias, só nestes dias) não consegue controlar plenamente.

Slimani

MIGUEL RIOPA/Getty

A inflação do seu repertório técnico ao longo dos últimos dois anos foi uma coisa bonita de se ver: lentamente – tão lentamente que cada truque novo em cada jogo era sempre uma surpresa – o rapazinho dos três acordes e trezentos mil euros foi aprendendo a relacionar-se com a bola, com a baliza, com o campo e com os colegas de uma forma cada vez mais parecida com a cláusula de rescisão. Como se, ao terceiro álbum, os Ramones de repente sacassem um Dark Side of the Moon. O Slimani de hoje não foi propriamente rock sinfónico (os seus momentos de maior destaque até foram demasiado punk: recepções com a canela, e desvios falhados à boca da baliza), mas o barulho que faz, mesmo nos dias menos bons, nunca deixa de incomodar as pessoas certas. O lance do golo começa com um desarme de carrinho a uma bola que qualquer avançado normal no resto do mundo daria como perdida.

Alan Ruiz

Tem uma fisionomia peculiar, como se fosse um limpa-chaminés dickensiano que um qualquer vilão acabou de apanhar a mentir. Começou a revelar adaptação ao futebol europeu na foma como procurava fazer faltas perto da área adversária logo no momento em que perdia a bola – e perdeu-a imensas vezes, pelo que foi uma boa sessão de treino. Destacou-se pelos três remates de fora da área: o primeiro e o terceiro, bem colocados, exigiram boas defesas; o do meio, ao minuto 43, enviou a bola para a Mata Real, onde será desativada daqui a cinquenta anos por um corajoso perito da Brigada de Minas e Armadilhas, e exibida como cápsula temporal, artefacto de tempos mais inocentes.

Zeegelaar

Na sua primeira intervenção no jogo, falhou um passe de cabeça para William, que se encontrava a metro e meio de si. São coisas que acontecem. Não vale a pena crucificar Zeegelaar por causa disso. Na sua segunda intervenção no jogo, rompeu pela faixa a toda a velocidade, combinou com Bruno César e Ruiz, e tomou a melhor opção no momento de cruzar, encontrando Gelson solto na área. São coisas que acontecem. Não vale a pena elogiar Zeegelaar por causa disso.

Carlos Mané

Alguns minutos depois de entrar, pegou na bola na zona defensiva, avançou com ela, e foi perdê-la só já bem dentro do meio-campo adversário, mostrando uma compreensão parcial, mas extremamente bem intencionada, dos princípios básicos do jogo.

Bruno Paulista

Tal como na primeira jornada entrou ao minuto 89, indicando que pode estar aqui a nascer um pequeno fetiche numérico, mas desta vez não teve grandes oportunidades para brilhar.

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