Tribuna Expresso

Perfil

Sporting

Ganhar clássicos, o novo clássico de Jesus

Sporting bateu o FC Porto por 2-1, com golos de Slimani e de Gelson. Felipe abriu o marcador

Pedro Candeias

Comentários

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Partilhar

Sou do tempo, acho que todos somos desse tempo, em que se dizia e se escrevia que Jorge Jesus era um tipo genial, esperto e castiço, que punha as suas equipas a jogar bem à bola e que o fazia depressa. E essas equipas, as suas, tinham pressa em chegar ao golo, porque era assim que se sentiam confortáveis, naquele futebol de vertigem e do risco e da velocidade que atropelava todas as que encontrava, aliás, quase todas, porque Jesus, dizia-se nesse tempo, sofria do síndrome e do complexo de inferioridade.

Quando jogava com os rivais, sobretudo com o FC Porto, Jesus tremia e inventava, ninguém percebia o que andava a fazer o David Luiz à esquerda ou porque é que o Roberto e o Emerson estavam sempre em campo. O que todos nós nos esquecemos é que Jesus, porque é genial e esperto, podia sempre aprender com os erros.

E aprendeu.

Foi mais ou menos entre o final daquela época em que o Benfica tudo perdeu nas últimas jornadas e o arranque da outra, em que o Benfica ganhou quase tudo. Jesus tornou a equipa menos louca e mais cínica, defendeu, jogou com o relógio e às vezes para o ponto. E tudo mudou, porque chegaram outra vez os títulos e uma nova forma de encarar o rival lá de cima: nos últimos dez jogos em que defrontou o FC Porto, pelo Benfica e pelo Sporting, Jesus somou uma derrota, dois empates e seis vitórias. A última aconteceu há pouco, em Alvalade, num jogo em que o Sporting de J.J. não entrou bem e tremeu com o golo do acrobata Felipe e com a vontade louca que o FC Porto de Nuno Espírito Santo tem de mostrar que está vivo.

Nos minutos inicais, em que André André, Danilo, Herrera, Corona e Otávio ganharam o meio-campo a William, Adrien, Bruno César e Gelson, houve mais FCP do que SCP. Os portistas entraram com a corda toda, ainda de peito cheio depois do que tinham feito em Roma à Roma, com a lição na ponta da língua: pressionar e partir rapidamente e em força para o contra-ataque, à procura das costas da defesa contrária e dos pés de André Silva.

Aos bocadinhos, sem perder o tino, Jesus foi equilibrando as coisas, juntando Bruno César a Adrien Silva e a William e recuando Bryan Ruiz para fazer número no meio-campo - e as coisas rentraram nos eixos. Em dois lances, o Sporting chegou à vantagem, por Slimani (que terá feito o último jogo) e por Gelson. A partir daí, o SCP reassumiu o favoritismo que não quis assumir, embora todos os indicadores estivessem lá: os de Alvalade têm melhores jogadores; os de Alvalade têm um treinador que trazia na bagagem seis vitórias contra o técnico adversário; e os de Alvalade estavam em Alvalade. Além disso, o FC Porto está naquele momento de viragem, a reaprender a conduzir à direita depois de ter andado a circular no lado errado da faixa durante dois anos contraintuitivos, contranatura, contraproducentes, enfim, contra tudo o que era normal naquele clube.

O bom aluno

Na segunda parte, o FCP voltou a entrar melhor do que o Sporting e voltou a perder-se com o andamento do jogo - e eu tenho uma teoria que pode ajudar a explicar. Os futebolistas do FC Porto são como aqueles alunos que estudam e fazem diretas, e entram a todo o gás no exame para despejarem o que leram a martelo. E isso sucede porque há muita coisa e muita coisa ao mesmo tempo para decorar, já que o futebol de Nuno Espírito Santo está na ponta oposta do futebol de Lopetegui. O mais normal é que o efeito se perca e se instale a dúvida - é tudo muito fresco e novo, sobretudo quando se tem pela frente adversários matreiros e que se conhecem há anos.

Ainda houve tempo para alguns tremeliques, quando Jorge Jesus foi expulso do banco de suplentes, mas com mais ou menos solavancos, o Sporting lá foi sustendo o ataque final de Nuno Espírito Santo (Depoitre com André Silva lá à frente) e ainda lançou Campbell lá para a frente para aguentar Alex Telles lá atrás.

No final das contas, foi apenas mais um clássico que Jesus abichou.