Tribuna Expresso

Perfil

Sporting

O jogo de cabeça de Patrício, a instalação artística de Zeegelaar, a cueca de Paulista e outras 10 análises de Rogério Casanova

Uma lição de história, física, biomecânica e de moral futebolística, por Rogério Casanova

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Partilhar

Rui Patrício

O elemento mais recuado do trio de centrais, mostrou-se surpreendentemente adaptado à nova posição, nunca comprometendo quando recebeu a bola de um dos outros centrais, e atrevendo-se até pelas funções de distribuição, com alguns razoáveis passes longos para o meio-campo. Tem, no entanto, de melhorar o seu jogo aéreo, pois não fez um único corte de cabeça.

João Pereira

enos expansivo do que nas duas primeiras jornadas, pois cedo percebeu que desta vez não era possível correr com a bola muito depressa e passar pelas pessoas do outro lado, mas que, ao invés, era teoricamente possível as pessoas do outro lado correrem com a bola muito depressa e passarem por ele. Ainda assim, evitou-o quase sempre.

Coates

Mais uma vez muito bem a defender, apesar de hoje ter cedido a credencial de protagonismo ao colega do lado. Não vacilou sequer nos momentos em que supostamente será mais vulnerável, quando apanha um adversário ágil e rápido de frente no 1x1: o desarme a André Silva ao minuto 53 foi um fortíssimo candidato ao prémio de "suspiro colectivo" do jogo. Parece ter metido na cabeça que gosta de viajar e conhecer partes distantes do relvado, mas as duas subidas com a bola controlada que tentou terminaram ambas com perdas de bola (e de paciência).

Rúben Semedo

Antecipação na área logo no primeiro minuto, corte imperial de cabeça na área depois de um canto ao minuto 6, desarme crucial ao minuto 15, evitando um potencial sarilho logo a seguir ao empate – e assim sucessivamente. E ainda arranjou tempo, depois de uma das cavalgadas abortadas de Coates, de lhe mostrar como se faz, ensaiando uma pequena subida pela faixa esquerda em homenagem à sua secreta ambição de se reinventar, mais tarde na carreira, como extremo "brinca na areia". Só por duas vezes deixou André Silva ganhar-lhe espaço nas costas; das duas, conseguiu galgar metros com velocidade suficiente para cancelar o perigo. Foi o melhor jogador em campo.

Zeegelaar

Ao tentar descrever Zeegelaar é compreensível que se comece por um hesitante "desengonçado?", mas "desengonçado" não serve sequer como ponto de partida. Há um compasso de tempo que antecede cada movimento seu – como se tivesse de fazer uma pausa para recordar a sequência correta das centenas de vogais que constituem o seu nome – e o efeito cumulativo é menos o de fluidez biomecânica do que o de uma sequência de polaroids ou de uma animação em stop-motion. Que esta instalação artística de Jan Svankmajer tenha tido, num jogo difícil, uma exibição globalmente positiva a defender (tirando os primeiros 25 minutos) e esporadicamente eficaz a atacar é um milagre sem explicação.

William Carvalho

Em 1798, o físico inglês Henry Cavendish calculou o peso total do planeta Terra com uma experiência científica envolvendo duas esferas de metal unidas por um eixo. É a melhor imagem que temos para descrever o estilo de jogo de William Carvalho quando se encontra nestes momentos de forma: uma constante universal calculada e mantida através de um enorme par de bolas. Os típicos rodopios que utiliza para exteriorizar serenidade são agora apenas um truque no seu vasto repertório; outro truque, mais impressionante, consiste em ficar quieto e obrigar antes o resto da realidade visível a rodopiar à sua volta, como se andasse por ali a fazer tabelinhas com a força gravitacional. Felizmente ainda não aprendeu a rematar ou a cláusula de rescisão começaria a parecer demasiado curta.

Gelson Martins

Tem feito um esforço notável para subordinar a inconsciência (que era um dos seus atributos mais empolgantes) à unidade da equipa e ao aborrecido cálculo de custo-benefício e, talvez por isso, ainda não parece o driblador imprevisível que se adivinhava. Mas mostra uma capacidade física, de recuperação de terreno, e até de desarme que o transformariam num candidato óbvio à próxima adaptação de Jesus a lateral, não fosse o seu igual talento para estar envolvido em lances decisivos, seja a assistir, seja a rematar contra a parte mais frágil dos guarda-redes adversários, nomeadamente o antebraço de Aquiles.

Adrien Silva

Apesar das diferenças (atléticas, técnicas e até de dimensão de talento) tem uma óbvia semelhança com Steven Gerrard: os seus melhores lances quase nunca são fruto de estratégia ou sequer da falsa lentidão típica dos médios que "pensam" o jogo, mas sim de frenéticas micro-intuições no meio do caos. Hoje foi mais uma vez importantíssimo nos momentos de pressão alta, por vezes complicou um pouco quando teve bola e espaço, mas foi compensando com descomplicações várias em momentos de molhada.

Bruno César

Relativamente anónimo enquanto andou pelas alas, a sua passagem para o meio, já depois do livre directo na origem do empate, coincidiu com a melhoria colectiva da equipa. Há um lance ao minuto 75 que encapsula bem as suas actuais limitações e virtudes: ganhou (bem) uma bola, depois perdeu-a (mal) por falta de rasgo e poder de explosão, e depois recuperou terreno suficiente (bem) para fazer uma crucial falta ofensiva. Claramente transformado num jogador de equilíbrios e não de desequilíbrios, é esta a tripla função que Bruno César cumpre hoje no Sporting: a) criar problemas ao adversário; b) deixar que o adversário resolva os problemas que ele cria; c) resolver os problemas que ele próprio cria à equipa. Para a parte das "soluções", entretanto, vai havendo outros.

Bryan Ruiz

Com tanta urgência à sua volta, de ambas as equipas, coube-lhe a ingrata função de andar de um lado para o outro no recreio, a dizer aos meninos para terem calma. Tal como em Paços não esteve particularmente inspirado, mas continua a gerir como poucos as acelerações e desacelerações colectivas, e a fazer com que a lucidez pareça uma consequência natural da invisibilidade. E deve ser um pesadelo para os autores de compilações de YouTubes: faz sempre duas ou três coisinhas tecnicamente engraçadas por jogo, mas muitas vezes nos momentos em que estamos distraídos.

Slimani

As fantasias legítimas sobre o que se pode ganhar com a sua substituição por avançados com mais "escola" vão ser esclarecidas nos próximos meses, mas o seu último jogo deixou bem evidente o que se vai perder: aquelas dramáticas aparições nos calcanhares dos defesas adversários para recuperar bolas impossíveis não vão certamente acontecer com a mesma frequência. Resta saber se os golos também. Tendo em conta registo que deixa em jogos contra o Porto, é difícil saber que grupo de adeptos ficou mais comovido com a despedida.

Bruno Paulista

Entrou mais cedo que o habitual e tentou as suas já habituais aberturas longas à quarterback, hoje sem resultados práticos. Fez, no entanto, uma cueca puramente arbitrária e bem sucedida no meio-campo, gesto que é sempre de realçar.

Joel Campbell

Estreou-se em Portugal com um corte na linha lateral e, poucos minutos depois, com uma bela cacetada do comité de boas-vindas liderado por Alex Telles. Falhou uma desmarcação em profundidade para Slimani, e tentou um remate fora da área, que lhe saiu frouxo; terá tempo para melhorar o segundo aspecto, mas não o primeiro. Muito bem a segurar a bola longe das zonas de perigo nos últimos minutos.

P.S: Pessoas Que Gritaram "Olés" Nas Bancadas Nos Últimos Minutos: Epá, por amor de Deus? Olés nas bancadas? Com 2-1 no marcador? Neste clube, com esta história, com este karma? Mas as pessoas não lêem livros? Não conhecem tragédias gregas? Eurípides e Sófocles é só isto: tudo muito entretido em Atenas, a ver a malta a trocar a bola inofensivamente, e quando menos se espera há uma cidade a arder, e morre toda a gente. Mais tino no futuro, sff.

Partilhar