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Jesus deu a aula, nós fazemos a revisão da matéria

Aqui está um resumo do que Jorge Jesus disse ao “Record” numa entrevista partida em duas edições e com muitos temas para discutir

Diogo Pombo

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PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Jorge Jesus deu uma entrevista grande, tão grande, ao “Record”, que tudo o que disse teve de ser dividido por duas edições distintas do jornal. O treinador falou do início que o fez pensar em ir embora do Sporting e do fim (leia-se, do estado atual) que o faz ter confiança para a época que está a arrancar. No meio, ficou o campeonato, Bruno de Carvalho, o ego de Jesus, Adrien Silva - e uma analogia com pinguins.

Jesus teve o que Jesus queria há muito tempo

Não deve existir um treinador que tenha sempre tudo o que quer, quando quer. E às vezes tem-se tarde o que se quis cedo e o treinador do Sporting viu chegar nomes que já queria quando estava no Benfica. Em alturas diferentes, a imprensa falou que Bas Doost, Douglas, Joel Campbell e Elias (sobretudo estes dois) eram jogadores que interessavam a Jorge Jesus. Agora já os tem a todos. Daí que ele tenha dito que “já conhecia” alguns e que outros “não jogavam onde estavam”.

O treinador chegou a pensar maior do que o clube

“Olhei para o que tinha e pensei: ‘Mas o que é isto? Quando cheguei ao Sporting, e o presidente é minha testemunha, ao fim de um mês quis ir-me embora.” A novidade desta entrevista não é o facto de Jesus proclamar o trabalho que já fez nos leões, algo que já disse e redisse. Fê-lo, ao que parece, pelas diferenças que terá encontrado entre os seis anos que passou no Benfica e as primeiras quatro semanas que teve no Sporting.

E a frase com que desvendou a intenção de sair do clube, que lhe passou pela cabeça, nem é a melhor para o ilustrar. É mais a que Jesus utilizou para falar sobre o papel que Bruno de Carvalho também teve no crescimento do clube. “Até lhe disse: presidente, você tem a ambição de fazer o Sporting muito grande e eu também, mas o que está aqui dentro é muito pequenino. Não chega para a nossa ambição, por isso temos de fazer isto crescer”.

E o Sporting melhorou. Mas porquê?

É algo ao qual Jesus responde, mas com fintas, como um extremo que não sabe jogar de outra maneira. O treinador diz que “o início de tudo” aconteceu quando o clube conseguiu “valorizar os jogadores” que lá estavam. Algo que lhe permitiu agora vender João Mário por €40 milhões (mais cinco milhões em variáveis) e Slimani, por €35 milhões.

Ou seja, as mudanças estiveram no dinheiro, porque para mudar é preciso investir. Só que os euros não terão sido apenas gastos em jogadores, como Jesus tanto falou - “A partir daí o clube pôde melhorar os investimentos na aquisição de outros jogadores” -, mas também a mexer na forma como, por dentro, as coisas acontecem e funcionam no Sporting. Quais? Pois, Jorge Jesus não falou nelas.

MIGUEL RIOPA

Adrien e a braçadeira

Foi tudo muito repentino. Um dia após a vitória sobre o FC Porto, para o campeonato, Adrien Silva afirmou que pretendia sair; falou-se no Leicester, de muito dinheiro e de interesses. O capitão ficou e tudo o que aconteceu, disse Jesus, não fará com que o médio perca a braçadeira: “Não é por estes motivos que um jogador meu deixa de ser capitão”. Mas poderá ser por isto que JJ pensa que o internacional português pode melhorar nessa função. E ficou um recado. “Adrien é um bom capitão, mas ainda tem muito a aprender para ser um capitão a 100%, em defesa dos interesses da equipa”, avaliou, na entrevista ao “Record”.

Um bom capitão, diz Jesus, “é igualmente feito com base naquilo que o treinador quer que ele seja”. Portanto, Adrien ainda não é tudo o que o treinador quer dele.

O ego está na mesma: grande

O que Jesus diz fica sempre na fronteira entre um ego inflacionado e o que, de facto, corresponde à realidade. E nessa ténue linha está uma coisa que se chama ‘moral’. Que o treinador tem, porque, de facto, o Sporting melhorou em quase tudo desde que ele aterrou em Alvalade: um campeonato discutido taco a taco e terminado com 86 pontos ajudam a prová-lo. E quem amealhar esses pontos esta época “será campeão”, acredita J.J..

Três exemplos:

“Se tivesse que sair amanhã daqui, o clube ficava muito melhor do que quando cheguei. Em todas as áreas…”.

“Acho que nestes 12 meses, se eu tivesse de sair amanhã daqui, o clube ficava muito melhor do que quando cheguei. Em todas as áreas…”.

“A partir da minha chegada ao clube, o Sporting passou a ser um problema muito grande para o Benfica e o FC Porto”.

Esta época é mesmo para apostar em tudo

Posso garantir uma coisa: esta época vamos fazer tudo, mesmo tudo, para sermos apurado para a próxima fase da Liga dos Campeões”.

Mas o ano passado eu já queria fazer isso, só que não consegui. Estive quase a ganhar o campeonato… A Taça da Liga não coloquei como prioridade, é um facto. Mas este ano vamos avançar com esse objetivo. O Sporting a isso nos obriga”.

O fim das bocas ao rival?

Começou em agosto e durou quase até ao natal da época passada. Jorge Jesus foi inventando alfinetes para os atirar contra Rui Vitória e o Benfica. No final, foi o próprio treinador que se picou (com a perda do campeonato na última jornada) e, talvez por isso, J.J. esteja mais contido nas palavras que vai dedicando ao rival.

Sinceramente, nem sequer quero falar mais sobre isso. Quero é falar sobre o Sporting e sobre tudo aquilo que fomos fazendo ao longo dos últimos meses. É isso que quero valorizar.

Ou talvez não

Porque o técnico lá disse que “o Benfica quer correr com o Luisão”, quando foi questionado sobre “um verão difícil” para os capitães dos rivais lisboetas, apesar de ter sido a única frase em que visou, diretamente, o clube da Luz.

“Do lado de lá, os nossos rivais vão desvalorizar ao máximo tudo aquilo que o Sporting fizer. Porque, até agora, o Sporting não era um problema”, desenvolveu o treinador, que, como uma cassete que rebobina, voltou à mesma ideia. Vamos estar preparados, pois sabemos que as pessoas ligadas à comunicação dos nossos rivais vão tentar, todos os dias, desvalorizar o Sporting, o treinador do Sporting, o presidente, os jogadores…”.

É um tipo engraçado

Um dia o Sporting teve como treinador um homem que chegou a falar de basquetebol para falar de mãos para reforçar o futebol que se joga com os pés. Hoje tem Jesus a ir buscar uma analogia com animais selvagens para discutir sobre as vezes em que a bola toca numa mão ou braco e os árbitros sopram, ou não, no apito. O conteúdo faz sentido, a forma como o diz fá-lo ter piada.

“Hoje em dia há jogadores que que são uns autênticos artistas da mentira. Tocam-lhe com a unha e parece que lhe deram com um pau, tudo para tirarem proveito de situações normais do jogo. Um jogador quando protege o seu espaço de ação e quando quer guardar a bola, tem de jogar com os braços. Não podes saltar a uma bola com os braços encostados ao corpo! Não és nenhum pinguim! Os pinguins é que não têm braços, só têm barbatanas, não é?”.

JOSE MANUEL RIBEIRO

Jorge Jesus e Bruno Carvalho, amigos como sempre

Na entrevista ao “Record”, o treinador do Sporting também respondeu a algumas perguntas sobre o estado do tu cá, tu lá, com o presidente do clube. Jesus garantiu que os dois se dão bem, ou, pelas suas palavras, identificam-se “muito melhor um com o outro do que há 12 meses”. De discussões ou fricções, “nada”, garantiu. E pelos vistos nem o caldo se entornou sobre a mesa quando quem treina pediu a quem preside um jogador (Elias) que, há tempos, dissera que Bruno de Carvalho era “meio maluco”.

E Jesus é uma pessoa difícil, também

A relação entre ambos só pode ser boa e os dois vão tendo mão na colher que confecciona tudo o que se serve no Sporting. Mesmo que Jorge Jesus admita que “não é fácil” trabalhar consigo “porque é dono e senhor” das suas palavras. E explicou-o. “A primeira coisa que faço quando vou para um clube é dizer aos presidentes: ‘Querem um treinador em que são vocês, estrutura, que dizem qual é o caminho, ou querem um treinador que comande a estrutura do futebol? Se a resposta for a primeira, então não é a mim que têm de contratar”.

Isto, em parte, também poderá ajudar a explicar o porquê de o português nunca ter entrado num clube de topo do futebol europeu. Dos que tratam os maiores troféus por tu, lucram milhões e milhões todos os anos e estão habituados a ter éne craques na equipa.

Vem aí um futebol mais rápido?

Tabelas, toca e vai, muitos jogadores a trocarem de posições, bola a ser passada rapidamente. O Sporting de Jorge Jesus é intenso em quase tudo o que faz com a bola, mas também sabia ser pausado e ter calma quando era preciso. Quem muito ajudava nessas alturas era João Mário, cuja saída faz com que o Sporting possa “ter perdido qualidade no ataque posicional”. É quase um facto.

Mas a equipa, defendeu Jesus, “melhorou no contra-ataque” e “vai ficar mais forte”. O que é mais ou menos a mesma coisa que dizer que, com Markovic e Gelson e até com Elias, os leões poderão ganhar outra velocidade a fazer as coisas quando tiverem a bola.