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Vai ser preciso trabalho com os mais novos, mas chegou

Notou-se a falta de trabalho e de tempo para trabalhar os novos enquanto estiveram onze de cada lado. O Sporting já ganhava quando o Moreirense ficou com menos um (Neto viu dois cartões amarelos em meia hora), mas só a partir daí a equipa de Jorge Jesus se libertou para se habituar a jogar com quem acabou de chegar e ganhar (3-0) sem problemas. Além de Dost e Campbell, que marcaram, Markovic e André também se estrearam

Diogo Pombo

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PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Antes de passarmos ao jogo, há três coisas que vos quero contar.

A primeira é que, já lá vão os anos (1994/95), houve um português que treinou uma época o Bordéus e se fartava-se de dizer aos jogadores que era preciso trabalhar no duro para o jeito para a bola dar em alguma coisa. A palavra que mais repetia era “trabalho”. Por isso é que, há uns quatro ou cinco anos, quando o Estádio da Luz acolheu um daqueles jogos contra a pobreza, Toni foi ter ao hotel onde sabia que estavam Christophe Dugarry e Zinedine Zidane, para lhes dizer um olá. Mal o viu a entrar pela porta, o primeiro disse: “Travail, travail, travail”.

A segunda, mais recente, é que no dia em que foi apresentado como treinador do Real Madrid, o careca mais conhecido do futebol disse, por 14 vezes, a palavra “trabalho”. Uma coisa pode não ter a ver com a outra, ou então podemos deduzir que aquilo entrou tanto na cabeça de Zidane que ele não mais se esqueceu de uma das máximas desta vida: nada se consegue sem trabalho. O que me leva à terceira coisa e a Jorge Jesus.

Porque já todos ouvimos o treinador do Sporting falar de trabalho e da forma como trabalha, que ele há bem pouco tempo disse ser especial, por ser capaz de fazer de um jogador médio um bom jogador, de um jogador bom um grande jogador e por aí fora. Ele gaba-se da forma como trabalha nos treinos, que nós não vemos, mas que conseguimos imaginar pelo produto final que nos aparece à frente cada vez que a equipa joga. O que começa por não ser muito famoso devido ao muito que o Moreirense mostra que trabalhou.

Os jogadores treinados por Pepa entram de peito feito em Alvalade, a pressionarem os leões uns dez ou quinze metros para lá da linha do meio campo. São chatos, apertam os espaços, fazem pequenas faltas e montam aquelas armadilhas invisíveis no espaço que convidam os médios e extremos do Sporting a caírem nelas. Tentam, pelo meio, passar a bola a Alan Ruiz ou Bas Dost, os dois avançados, mas falham quase sempre e percebem que o melhor é insistir pelas alas e com cruzamentos para a área. E aqui voltamos à questão do trabalho, pois Jesus faz jogar Campbell, Ruiz e Dost, homens com poucos dias de treinos juntos que não lhes chegam para se atinarem uns com os outros..

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Enquanto há bolas cruzadas da forma errada ou desmarcações do holandês com um segundo de atraso, o Moreirense faz bem as coisas simples. Interceta passes com fartura e tenta mostrar o que Dramé e Nildo têm de bom nos contra-ataques. Não ameaça nem assusta Rui Patrício, mas o seu trabalho é uma encrenca para o do Sporting, que precisa do tempo que ainda não teve para jogar com tanta gente nova ao mesmo tempo. Mas entre as novidades ainda havia vários do costume, como William e Gelson, que há muito trabalham juntos e se ligaram através de uma bola que o primeiro picou para a área - na primeira jogada em que os jogadores do Moreirense não o pressionaram - e o segundo apanhou para, com dois toques, a enfiar (27’) na baliza.

Mas os leões tiveram de esperar mais sete minutos até a sola direita da chuteira de Ângelo Neto lhes tornar a vida mais fácil. O médio brasileiro entrou com os pitons na bola e na canela de William, viu o segundo cartão amarelo em troca e conseguiu tocar em dois trabalhos: deu cabo do de Pepa e tirou um homem ao campo para facilitar o de Jorge Jesus.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

O adversário ficou vulnerável e o treinador terá dito à equipa para aumentar de rotação. Era preciso matar um jogo que já estava moribundo para ele poder rodar jogadores e manter vivas as pernas para terça-feira, quando o Sporting for a Madrid jogar contra o Real para a Liga dos Campeões. Os leões saírem do túnel de acesso ao relvado tão rápido quanto começaram a pressionar o Moreirense, assim que o árbitro voltou a apitar. Dost foi apertar com Marcelo Oliveira, o central que perdeu a bola nas barbas do holandês e o viu a rematar com o pé esquerdo para Makaridze não o deixar marcar. Segundos depois, o georgiano defendia uma bola rematada por Adrien à porta da área. O Sporting trabalhava para marcar.

Já havia mais espaço. O que significava mais tempo para os jogadores terem a bola e maior aso para aos novos ganharem a confiança para se entrosarem com os antigos. Ou entre eles. Porque ninguém importunou Alan Ruiz quando o argentino levantou a cabeça e viu que tinha de cruzar para a diagonal com que Joel Campbell entrava na área. O costa-riquenho marcou de cabeça (52’) e, cinco anos depois, houve um número sete do Sporting a marcar em Alvalade (o último fora Valeri Bojinov, em outubro de 2011).

Depois o jogo ficou mais de meia hora em velocidade cruzeiro. Dividiu-se pelo silêncio no estádio quando pareceu que Bas Dost se lesionou. Pelo tempo que houve para estrear também Markovic e André e voltar a ver Elias. E pela quase nulidade que, com menos um jogador, o Moreirense fez a atacar - após um livre colado à área, aos 32’, só voltou a rematar à baliza de Rui Patrício aos 87’, noutro livre que o guarda-redes parou com as mãos. O Sporting acabou com cinco caras novas (Dost, Campbell, André, Markovic e Elias) em campo e, pelo que Jesus diz, os jogadores médios - que, a ver, será apenas André - ficarão bons e os bons - que já são os restantes - ficarão grandes jogadores. Assim, como estão, chegaram para resolver contra um equipa que foi boa até ficar com menos um em campo. Venha daí o trabalho.

  • Em direto: Sporting 3 - 0 Moreirense (final)

    Sporting

    Siga aqui, na Tribuna, o jogo da quarta jornada da Liga portuguesa e perceba o que há de novo neste Sporting pós-mercado de transferências. Os leões bateram o Moreirense com golos de Gelson, Campbell e Bas Dost. São quatro vitórias em quatro jornadas