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Os testes psicotécnicos de Zeegelaar, os chinelos de William e o ponto de não retorno de Elias (e outras considerações de Rogério Casanova)

O autor desta prosa diz-se triste pelo que aconteceu e acaba o texto assim: “Oh pá, eu sei lá. Larguem-me”

Rogério Casanova

Comentários

Gonzalo Arroyo Moreno

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Rui Patrício

Passou um mês em França a testemunhar o óbvio declínio de Cristiano Ronaldo como marcador de livres directos. Bolas orgulhosamente chutadas contra a barreira, bolas enfaticamente atiradas para a bancada, bolas pedagogicamente apropriadas a Raphael Guerreiro. Deve portanto ter sentido um indisfarçável alívio quando viu o colega de selecção, ao minuto 87, preparar-se para mais do mesmo. Há uma tira famosa de Peanuts em que Charlie Brown finalmente consegue executar o remate que Lucy passou a vida a sabotar-lhe. Foi assim. Foi isto. E não foi Peaners.

João Pereira

Da mesma maneira que uma criança nunca esquece a primeira vez que vai ao planetário, não vai esquecer tão cedo o minuto 12, quando Bale deu um saltinho ao seu corredor para lhe fazer um cabrito, deixando-o a olhar para o firmamento durante alguns segundos, com a humildade natural de quem contempla a futilidade da existência. Ao contrário do que esse episódio prometia, o jogo até nem lhe correu mal. Certinho, concentrado, atento nas dobras e relativamente esclarecido nas raras vezes em que passou o meio-campo. O lance do 2-1 nasce de um erro seu (na verdade dois), mas numa altura em que já não era razoável pedir-lhe força e lucidez.

Coates

Bem no corte perante Benzema logo a abrir, bem a cancelar uma incipiente cavalgada de Ronaldo ao minuto 7, bem no corpo a corpo com Ronaldo ao minuto 19, bem a dobrar Semedo e a desarmar Benzema ao minuto 19, e assim sucessivamente, guardando dois dos melhores avançados europeus em duas desconfortáveis bolsinhas de poliéster durante grande parte do encontro. Além disso, a serenidade habitual a distribuir, e arranjou tempo até para fazer um dos três melhores remates do Real Madrid em todo o jogo, mas a bola saiu por cima da barra, negando-lhe merecidamente o autogolo.

Rúben Semedo

Na fase de maior sufoco do Real, destacou-se a cortar bolas aéreas na área e as duas perdas de bola na primeira parte foram resultado de confiança. Não “excesso” de confiança, mas confiança na medida exacta, que é a do seu potencial. Os erros que certamente ainda vai cometer (e poucos serão tão aterradores como tentar sair a jogar no Bernabéu) serão sempre erros a crédito, que lhe devem ser automaticamente perdoados em função dos, pelo menos, 30 milhões que vai render daqui a, digamos, duas épocas.

Zeegelaar

Foi, talvez por larga e trágica margem, o jogador em campo com menos aptidões naturais para a prática do desporto a que os permissivos testes psicotécnicos do ensino holandês o condenaram. O melhor que se pode dizer é que nem sempre esse diferencial se notou. E nem sempre se nota, com Zeegelaar, que se arrisca a ser várias vezes titular este ano, e a ter uma das carreirar mais positivamente desfasadas do seu potencial aparente desde que Dimas andou lá no meio da geração de ouro.

William Carvalho

Tem duas maneiras distintas de caminhar: uma assemelha-se ao trote de alguém que caminha descalço pela praia na hora em que a areia está mais quente, outra ao deslizar descontraído de quem acabou de sair da sauna montado no seu par de chinelos preferido. Tem também duas maneiras distintas de reagir ao ritmo dos jogos que não é ele a controlar sozinho: uma é discordando do mesmo, e começando a jogar ostensivamente num compasso alternativo; outra é assentindo com resignação e procedendo aos ajustamentos necessários. Hoje não concordou com o ritmo dos primeiros 15/20 minutos, mas depois pensou melhor e mudou de opinião.

Gelson Martins

A chita, ao aparecer de surpresa perto de uma manada de gazelas de Thomson, provocando a esperada comoção, não costuma atacar as duas ou três que ficam paralisadas, mas sim uma das muitas que desata a fugir. É uma técnica de caça invulgar que parece especificamente concebida não para apanhar a presa desprevenida, mas para provocar o pânico e uma corrida lúdica. Este parágrafo teve o patrocínio da National Geographic. Vamos agora à internet confirmar a cláusula de rescisão do rapaz, que, espera-se, seja alvo de um processo disciplinar quando regressar a Lisboa, para aprender a não jogar desta maneira em estádios de clubes com imenso dinheiro.

Adrien Silva

Casemiro cumprimentou-o com uma cotovelada nas costas ao terceiro minuto de jogo, uma cotovelada nas costas que parece ter doído bastante. Depois veio dar-lhe outra cacetada meia-hora depois, desta vez na perna, que parece ter doído ainda mais. Foi recompensado com um amarelo, por algo que não parece ter doído a ninguém. Fez um jogo imenso e a sua saída (esgotado) foi um momento de viragem. Se continuar a jogar assim, há outras coisas do passado recente que depressa vão deixar de doer.

Bryan Ruiz

O desacelerador de serviço, entrando em cena sempre que a equipa (a dele ou a outra) ameaçava tornar tudo demasiado urgente para ser gerido. Participou no golo como criador de conteúdos, mas também como revisor atento, corrigindo rapidamente a gralha inicial em que tentara desmarcar Bruno César através do tornozelo de Ramos. Três minutos depois, num lance que definiu a sua exibição, veio à sua própria área cortar um cruzamento perigoso num cabeceamento em esforço, com a mesma atitude do prestigiado artista plástico que manda simpaticamente a empregada para casa e vai ele próprio despejar o lixo.

Bruno César

Fez o primeiro remate do jogo, que passou pouco ao lado do poste. Foi participando nos melhores momentos de retenção e circulação de bola. E depois, bem, depois marcou um golo. No Santiago Bernabéu, Bruno César marcou um golo. O mais espantoso, no entanto, é que alguns minutos depois, quando ainda estava visivelmente no interior do Santiago Bernabéu, voltou a rematar à baliza, mostrando no mínimo um domínio precário das leis da probabilidade. Uma coisa é certa: está a fazer tudo e mais alguma coisa para que se torne impossível tirá-lo da equipa titular.

Bas Dost

Foi o equivalente futebolístico ao Curiosity ou à Voyager 2: um mecanismo enviado para os confins do universo, equipado com dispositivos de comunicação provisórios, e condenado a enviar os seus solitários relatórios de volta à civilização enquanto duram as pilhas. De vez em quando ia dando sinais, sempre positivos: aqui e ali interagia com um asteróide, mandava fotos, cantava uma musiquinha para si próprio, cabeceava na área, mas revelando sempre (ao nível do primeiro toque e do jogo de corpo) uma capacidade técnica de que a NASA se orgulharia.

Markovic

Tal como Elias, provoca questões semelhantes à do ovo e da galinha. A entrada coincidiu com a pior fase da equipa, ou ajudou a causá-la? Uma coisa é certa: não tendo estado mal, perdeu pelo menos duas bolas escusadas no meio-campo, numa altura em que tinha frescura física para se lhe exigir o esclarecimento que já faltava aos outros.

Elias

É um debate que ocupa os especialistas há muito tempo: qual é a imperial que bate mais, e a partir da qual se atinge o ponto de não retorno? A oitava? A nona? Outro debate que ocupa os especialistas há muito tempo é: a partir de que cerveja é metabolicamente impossível voltar a ficar sóbrio de repente, mesmo que o Morata marque um golo no último minuto? É um debate fascinante, e longe de ficar encerrado.

Joel Campbell

Oh pá, eu sei lá. Larguem-me.