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Sporting: o problema é que o Ronaldo quando bate, bate bem

O Sporting teve a vitória e, depois, o empate na mão, mas o destino fugiu-lhe nos últimos instantes do jogo em Madrid

Pedro Candeias

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Denis Doyle

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Há uns dias, o Financial Times trazia uma história sobre a BCA, uma financeira canadiana que se pusera a teorizar sobre o fim do mundo e que o fim do mundo seria a mãe de todos os tail risks. Coisas de investimentos e altas finanças e especulação, não sei se me estou a fazer entender. Mas o que a BCA calculava - e isso é que o FT e, a bem de ver, toda a gente queria saber - era o Armageddon, o Dia do Juízo Final, o Fim do Mundo.

E era assim que estava no FT: “Há uma grande hipótese de a raça humana vir a desaparecer em 2290 e uma hipótese ainda maior de ser extinta em 2710”. E a BCA lá tentava justificar-se, recorrendo aos índices de fertilidade do homem e da mulher, que subirão para três, o que tornará escassos os recursos e o espaço. Assim, quando todos estivermos acotovelados, uns nos outros, o mundo, tal como o conhecemos... puff. O fim.

Mas os que lá chegarem a 2290 ou a 2270 olharão para trás, para 2016, e saberão que uma equipa de Portugal que se chama Sporting Clube de Portugal e não Sporting Lisbon - é uma exigência expressa dos seus adeptos - foi a Madrid bater o pé ao melhor clube do século XX. E que esse dia, 14 de setembro de 2016, poderia ter sido o ideal para isto tudo terminar em beleza, com um triunfo improvável e histórico, sim, mas sobretudo justo - até às 21h07m, hora portuguesa.

Porque foi nesse instante que as coisas começaram a mudar: Zidane trocou Benzema por Morata e Lucas Vázquez por Gareth Bale - e, fundamentalmente, Gelson Martins saiu de cena para entrar Markovic. O Real soltou-se e acelerou, o Sporting encolheu-se e deixou de ter quem pudesse dar velocidade; e as oportunidades que os merengues não tinham criado antes foram aparecendo, obrigando o Sporting a recuar e a entregar-se ao jogo da sorte contra uma equipa que tem Ronaldo, a quem o azar não costuma bater duas vezes à porta - na primeira vez, atirou ao poste; na segunda, fez o empate num livre direto e foi o seu terceiro golo ao Sporting em três encontros. Depois, numa perda de bola escusada de João Pereira, o Real chegou à vitória, por Morata.

E isso, a que Jorge Jesus acabaria por chamar de inexperiência, apaga um bocadinho o que fora feito até à derrocada. Por exemplo, que o Sporting entrou em Madrid a olhar para o Ronaldo e para o Benzema e para o Bale e para o Modríc e para o Ramos e para o Casemiro como se eles fossem uns quaisquer. Que Jesus, por não ter o que Zidane tem, teve de ser mais esperto do que o francês, inventando soluções onde estas não existiam para tentar reequilibrar o que, à partida, nasceu desequilibrado. E que foi com estes esquemas que o Sporting amarrou Modríc (com Adrien e William e Bruno César) e controlou a profundidade da equipa que melhor contra-ataca no planeta (a defesa não esteve tão subida como de costume). E que, por fim, foi Gelson e não Ronaldo ou Bale (ou outro qualquer) o melhor futebolista em campo.

Esta derrota não foi o fim do mundo, mas pode ser o começo de outro, suportado numa ideia que muitos destes futebolistas trazem do Euro2016 - tudo é possível.