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Vão todos para o raio que vos parta (e outras lamentações de Rogério Casanova sobre o Rio Ave-Sporting)

O Sporting perdeu em Vila do Conde por 3-1 e Rogério Casanova lembrou-se de escrever sobre os Panama Papers

Rogério Casanova

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Rui Patrício

Desde 22 de junho, dia do jogo contra a Hungria no Europeu, que não era obrigado a fletir escalenos e trapézios, esternocleidomastóideos e esternotireóidios, mas chegou finalmente a hora de desenferrujar todos esses músculos entorpecidos e levantar a cabeça.

Schelotto

Perdeu duas bolas fáceis ainda antes do meio-campo, deixou-se antecipar pelo menos duas vezes por jogadores do Rio Ave, transformou um atraso para Patrício num canto para o adversário, entre outros azares avulsos a defender. A atacar, mostrou a compenetração habitual na perseguição de formas esféricas. Tal como o cachorrinho que persegue o veículo automóvel, a sua intenção não será realmente alcançar o veículo automóvel, e não é claro que exista sequer um plano de contingência para o momento em que o veículo automóvel reduza a velocidade, mas vejam como ele corre! Vejam-no correr todo contente!

Coates

Ao minuto 44, já com o marcador avariado e a exibir algarismos incongruentes, fez uma daquelas cavalgadas solitárias até à área contrária, o equivalente futebolístico a música de intervenção: não alterou nada, mas pelo menos exprimiu a sua revolta perante a sociedade. Antes disso, o cidadão Roderick Miranda fez-lhe aquilo que Ronaldo, Benzema e Bale não conseguiram, apesar de várias tentativas, o que serve para demonstrar mais uma vez a magia do futebol etc, etc, vão todos para o raio que vos parta.

Rúben Semedo

Iniciou o primeiro ataque do Rio Ave ao primeiro minuto, mas no geral esteve comedido na perda de bolas. Dobrou pela primeira vez Bruno César aos 13 minutos, mas cedo se percebeu que "dobrar Bruno César" hoje era actividade só ao alcance de um batalhão de capacetes azuis. Se tudo correr como se espera na sua vida, daqui por 20 anos vai andar a dar entrevistas ao Rui Miguel Tovar, respondendo à pergunta "Qual o avançado mais difícil de marcar que defrontou?" num tom nostálgico, mas bem-disposto "os do costume, caro Rui: Ronaldo, Aubameyang, Lewandowski, Guedes..."

Bruno César

Protagonista inesperado de um romance de fantasia, Bruno César encontrou um portal para outra dimensão e tão cedo não deve voltar a ver o Kansas. Em vez de Oz ou Narnia, no entanto, deu por si numa povoação ancestral chamada Vila do Conde, dominada por um pérfido feiticeiro chamado Gil que se diverte a torturar inocentes em masmorras. Apesar dos seus melhores esforços, Bruno César foi incapaz de completar as tarefas mágicas que lhe permitiriam regressar à sua modesta aldeia, onde exerce humildemente as funções de boticário, e ainda lá deve estar encolhido algures, embrulhado num xaile, e a tentar aquecer as mãos numa chávena de chá quente.

William Carvalho

Bom, vamos lá ver: Shakespeare tinha um vocabulário contabilizado em 29066 palavras, mas a verdade é que 40% da totalidade das obras utilizam apenas 40% desse repertório vocabular. É assim que se fazem as coisas, é normal. William de Carvalho hoje acordou, fez a barba, colocou os suspensórios e a cartola, e pensou “que belo dia para fazer passes longos perfeitos”. Portanto fez vários passes longos perfeitos ao longo do jogo, embora sem o cuidado adicional de se certificar que os fazia sempre para Gelson, pois pelo menos três desses passes longos perfeitos foram parar respectivamente a Campbell, Alan Ruiz e Schelotto.

Gelson Martins

Perdeu hoje uma excelente oportunidade para cumprir o ritual de passagem pelo qual passam todos os extremos talentosos formados em Alvalade: fazer uma péssima exibição logo a seguir a uma grande exibição e ouvir os assobios da praxe. Teimoso, preferiu jogar outra vez bem, sendo o único jogador a conseguir aliar com alguma consistência velocidade e qualidade.

Adrien Silva

Um jogo perfeito para ilustrar o excelente desenlace que teve a sua abortada transferência no último dia do mercado: mostrou, especialmente na segunda parte, (quase) todas as qualidades emocionais que o tornam num jogador absolutamente essencial para a equipa onde está, e (quase) nenhuma das qualidades que poderiam levar algum clube estrangeiro a separar-se de vários milhões de euros.

JOSE COELHO/LUSA

Joel Campbell

Então e os Panama Papers, hem? Disso é que ninguém fala.

Alan Ruiz

Lembra a personagem de David Bowie em The Man Who Fell to Earth: nota-se a léguas que chegou de uma civilização tecnologicamente avançada e que transporta no crânio montes de ideias revolucionárias, mas a verdade é que a atmosfera terrestre deixa-o muito cansado e não lhe permite movimentar-se sem pausas para hiperventilar de quantos em quantos segundos. E para alguém que pensa tão claramente o jogo como médio-ofensivo (e que só consegue funcionar adequadamente quando recua dez metros), continua a ser difícil ver nele o avançado que pelo menos uma pessoa insiste em ver.

André

A sua titularidade volta a confirmar alguns dados positivos, nomeadamente que em nenhum momento nas últimas semanas André raptou uma prostituta em Peniche, ganhou uma menção honrosa numa competição de braço-de-ferro organizada numa discoteca do Barreiro, nem apareceu na Academia às quatro da tarde com a tatuagem de uma âncora no abdómen e a queixar-se que tinha perdido o passaporte numa aposta com alguns marinheiros. Só boas notícias, portanto. Quanto ao jogo, mostrou o suficiente para tirar duas conclusões: 1) vai ter a sua utilidade ao longo da época; 2) Bas Dost é titular indiscutível.

Bas Dost

Surgiu na marca de penálti a cabecear com relativo perigo, cinco minutos depois de entrar. Fez um remate de dificílima execução ao minuto 64, numa situação em que muitos outros tentariam amortecer a bola para trás. À terceira oportunidade marcou. Não jogou de início, tanto quanto foi possível apurar, porque estava sentado no banco. (Duvido que exista uma explicação que faça mais sentido que esta).

Bryan Ruiz

O homem cuja função é resolver problemas, como Harvey Keitel em Pulp Fiction, apareceu em campo para resolver problemas, como Harvey Keitel em Pulp Fiction. A analogia seria mais eficaz caso Harvey Keitel em Pulp Fiction, em vez de entrar em cena para ensinar duas pessoas a limpar um carro e a mudar de roupa, tivesse 45 minutos para construir um mecanismo de movimento perpétuo, cindir o átomo, e negociar uma paz duradoura no Médio Oriente.

Markovic

Aproveito esta oportunidade para perguntar ao Markovic se, naquela ocasião em que caiu ao chão na grande área, não terá por acaso visto o meu isqueiro? É que não o encontro em lado nenhum.