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Podem esquecer Slimani. Bas Dost é o mercúrio para curar as feridas de Jesus

Sporting regressa às vitórias com o holandês a marcar dois e a mostrar que é aposta certeira para substituir o argelino. Triunfo por 4-2 frente ao Estoril coloca os leões na liderança (à condição, claro). Jesus pode dormir mais descansado.

Lídia Paralta Gomes

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PATRICIA DE MELO MOREIRA/getty

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Slimani? Who? O argelino mora lá longe, naquela fria cidade inglesa bem no miolo do país. Está longe e já ninguém se lembra. Em Alvalade há um novo patrão da área e até tem quase mais 10 centímetros. Chama-se Bas Dost. O nome é estranho mas até entra no ouvido. Bas Dost. Parece o slogan de uma qualquer marca de automóveis alemã. O homem é grande, mas tem processos simples. Finaliza, mas também faz jogar. Move-se bem, nem parece ter altura de basquetebolista.

Jorge Jesus vai hoje dormir descansado. Porque é líder, porque voltou a vencer, porque parece ter acertado em cheio na hora de substituir Slimani. E porque William Carvalho voltou a ser William Carvalho. Jesus vai recuperar as horas de sono que perdeu. Ai acham que aquela tirada das feridas “com crosta e sem crosta” saiu do nada? O homem não lida bem com a derrota, quanto mais com duas seguidas.

O Sporting venceu o Estoril e venceu bem. Bas Dost fez dois, Coates outro e André ainda foi a tempo de se estrear nos a marcar. Começou ligeiro, terminou arrasador, apesar daqueles golos do Estoril nos minutos finais, já mais fruto do relaxamento leonino do que outra coisa qualquer.

“Entrada de leão, entrada de leão, entrada de leão”. Ai se pudéssemos ouvir o que vai na cabeça dos jogadores antes do apito inicial. A pressão existe e das bancadas pedia-se atitude e concentração. Os adeptos do Sporting dizem “ei, não se sintam pressionados, mas desta vez é para ganhar”. E o Sporting tremeu.

Os quilos a mais não impediram o reforço estorilista Paulo Henrique de criar o primeiro momento de perigo do jogo. Aos 4 minutos, o brasileiro que há um par de anos esteve com pé e meio em Alvalade e entretanto foi para o exílio na China, enganou Rúben Semedo (sim, é verdade) pela esquerda e na área só faltou quem desse aquele toque final.

O aviso funcionou, mas o Sporting demorou uns 10 minutos a organizar-se, com William Carvalho (que grande exibição) a chamar a si o controlo do jogo. E ainda antes dos 15 minutos, Bryan Ruiz aborreceu-se com a impertinência inicial do Estoril. À entrada da área, o costa-riquenho viu uma maré amarela a caminhar na sua direção, foi contra ela e no momento certo simplificou o que parecia complicado, colocando a bola na ala, onde Gelson tinha sido abandonado. Que erro do Estoril. O miúdo cruzou de primeira e apareceu Bas Dost, 1,96 m de gente, a voar rasteirinho e a cabecear exatamente para o lado contrário do movimento de Moreira. Simples e eficaz.

No campeonato dos pinheiros made in Benelux, o Sporting parece ter saído a ganhar.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/getty

A partir daí não houve muito mais Estoril, mas o Sporting também só voltou a criar perigo uma vez. Aos 28 minutos, a bola chegou caprichosamente aos pés de Bryan Ruiz que no coração da área e completamente sozinho rematou muito por cima. Outra vez Bryan?

E a primeira parte, no fundo, foi isto.

Muito Gelson e William

Jesus não queria simplesmente ganhar, 1-0 não chegava. Era preciso vingar Madrid e Vila do Conde. Jesus queria ganhar por muitos e a 1.ª parte foi apenas um suficiente na pauta. E ao intervalo lançou André para o lugar de um Alan Ruiz cuja titularidade continua a ser um mistério. Jesus muda o onze, troca de avançados, muda os alas, mas Alan Ruiz continua lá. Até quando?

Adiante. Morninho o arranque da 2.ª metade, até que Gelson e William perceberam que estava na hora de abanar. O miúdo nas arrancadas pela direita, William na hora de pensar, de escolher a melhor linha de passe. Mas antes do Sporting ser verdadeiramente dominador, Moreira saiu imprudente a um canto de Bryan Ruiz e o latagão Coates saltou mais alto, ainda fora da pequena área. Aos 59 minutos, o leão já estava descansado.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/getty

A partir daí o Sporting soltou-se. E três minutos mais tarde, uma triangulação entre André e William terminou com o internacional português a desmarcar Bas Dost que de pé direito tirou a bola do alcance de Moreira. Quarto golo para o holandês neste campeonato, que pouco depois saiu para a entrada de Markovic.

O jogo entrou então naquela fase em que já não há organização que aguente. O Sporting atirava a pressão para o lado de tal forma que até deu para Rúben Semedo se distrair e deixar Bruno Gomes antecipar-se e reduzir, aos 85’. Já com o relógio nos 90’, André estreou-se a marcar, após mais um daqueles passes longos de um William Carvalho em versão vintage, para segundos mais tarde Bruno Gomes fechar em 4-2 uns últimos minutos demasiado malucos para o gosto de Jorge Jesus.

Mas isso vale o que vale. Talvez Jesus guarde uns bons minutos do próximo treino para desancar os seus jogadores por aquelas duas distrações. Mas, por esta altura, o técnico leonino deve estar mais feliz por ter encontrado o mercúrio para curar as suas feridas.