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Bastões de sinalização, gás pimenta, pancada em polícias: os adeptos do Legia vistos por quem joga na Polónia

Marco Paixão está há dois anos e meio na Polónia, um país de adeptos apaixonados. Às vezes até demais, como se viu há duas semanas na receção do Legia Varsóvia ao Dortmund. “E não são só os do Legia, são todos”, garante o jogador do Lechia Gdansk. A polícia portuguesa está preparada e desde sexta-feira que tem os adeptos polacos debaixo de olho. E nem as rolotes escaparam.

Lídia Paralta Gomes

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Foi esta a receção dos adeptos do Legia Varsóvia ao Borussia Dortmund, na 1ª jornada da Champions. Só depois veio a violência.

KACPER PEMPEL/Reuters

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Gás pimenta, objetos arremessados, cânticos racistas. O ramalhete completo. Não foi bonito o espetáculo que se viu em Varsóvia na 1ª jornada do Grupo F da Liga dos Campeões. Pouco felizes por ver o Borussia Dortmund passear classe na capital polaca - venceram por 6-0 -, adeptos do Legia invadiram a zona destinada aos alemães, provocando violentos desacatos e agredindo quem lhes aparecesse à frente (stewards, principalmente). Esta quinta-feira, o Comité de Controlo, Ética e Disciplina da UEFA decidirá o castigo e é provável que a receção ao Real Madrid, a 2 de novembro, seja feita à porta fechada.

Mas por agora, qualquer coisa como oito centenas destes rapazes estão em Lisboa ou a caminho. O Sporting recebe o campeão da Polónia esta terça-feira, na 2ª jornada da Champions, e na memória ainda está a visita pouco amigável de há quatro anos, na altura para a Liga Europa, que terminou com dez polacos detidos por roubo e confrontos entre adeptos dos dois clubes junto ao estádio José de Alvalade. As autoridades já sabem com que contar e prepararam a operação ao milímetro, num encontro considerado de alto risco.

Há quem conviva com esta realidade quase diariamente. Marco Paixão está na Polónia há dois anos e meio. Garante que nunca teve problemas graves, mas que por lá o futebol é vivido intensamente e que não é um exclusivo dos adeptos do Legia.

“Não são só os adeptos do Legia, são todos! É uma coisa do outro mundo. As claques são organizadas e seguem os clubes para onde quer que a equipa vá. Vivem muito os clubes”, conta o jogador do Lechia Gdansk. “Os adeptos têm uma presença forte, organizam encontros, gostam de estar presentes e mostrar que estão presentes, percebes?”, diz ainda o avançado de 32 anos, que acredita que esta é “uma forma dos polacos libertarem o stress do dia-a-dia”.

Exemplos dessa “presença”? Aí vão alguns: “Às vezes estás a meio de um jogo e atiram aqueles bastões de sinalização para o meio do campo. Outra coisa estranha para mim é quando andam à pancada com a polícia. Mas muitas vezes os agentes também não se portam bem com os adeptos, principalmente com os que vêm de fora”.

Marco Paixão recua ainda alguns anos para se recordar da situação mais complicada que viveu na Polónia: “Ainda estava no Slask Wroclaw e num jogo contra o Lech Poznan atiraram um gás que tornou o ar impossível de respirar. Tivemos de sair para o túnel para respirar ar puro”.

Para Marco, um dos gémeos Paixão (o irmão Flávio também joga no Gdansk), a passagem dos adeptos do Legia por Lisboa será tranquila caso as autoridades estejam preparadas. “Mas se a polícia tiver uma atitude agressiva, aí sim, poderá acontecer algum problema”.

LESZEK SZYMANSKI/EPA

Polacos monotorizados desde sexta-feira

Os acontecimentos de há quatro anos, reforçados pelos confrontos da 1.ª jornada, levaram as autoridades nacionais a considerar o jogo Sporting-Legia de alto risco. A operação policial será assim semelhante à de um clássico ou dérbi.

O Comissário Sérgio Soares, do Comando Metropolitano de Lisboa, garante que a PSP está preparada e que desde sexta-feira os adeptos polacos estão a ser acompanhados pela Unidade Metropolitana de Informação Desportiva - os ‘spotters’. “Têm feito um trabalho incisivo de monitorização nos locais onde os adeptos se concentram, nomeadamente em zonas de diversão noturna como o Cais do Sodré, Bairro Alto ou Doca de Santo Amaro”, explica o responsável. A polícia tem também procurado nomes polacos nas listas de chegadas das unidades hoteleiras da capital.

O “trabalho de retaguarda”, como lhe chama Sérgio Soares, está também dirigido a adeptos do Sporting “nomeadamente dos grupos organizados”, também eles debaixo de olho dos ‘spotters’.

Vários adeptos do Legia foram avistados no Estádio de Alvalade na última sexta-feira, durante o encontro dos leões frente ao Estoril, mas para já “não há qualquer informação de incidentes”, garante o Comissário, que confirma que a PSP pediu à Câmara Municipal de Lisboa para “não atribuir licenças para rolotes nas zonas envolventes aos Estádio de Alvalade”, para assim evitar encontros acalorados entre adeptos do Sporting e Legia. Assim que, se vai ao jogo, o melhor é jantar em casa.

Quanto ao contingente policial, como é habitual a PSP não dá números, mas avança que tem “as várias valências preparadas”, nomeadamente “equipas de intervenção rápida, spotters e brigadas cinotécnicas” além de um “apoio mais musculado das unidades especiais da polícia”.

Apesar do Legia ter pedido 800 bilhetes ao Sporting, as autoridades ainda não sabem ao certo quantos adeptos polacos se vão deslocar a Lisboa, mas Sérgio Soares descansa quem quiser estar esta terça-feira em Alvalade: “As pessoas não devem ter receio, será um jogo como outro qualquer e as autoridades tudo farão para que as pessoas se sintam seguras”.

Marco Paixão está na Polónia há dois anos e meio. Diz que os adeptos são "do outro mundo"

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LECHIA GDANSK

Sporting não terá dificuldades

Apesar de ter passado pela equipa B do FC Porto, Marco Paixão é “sportinguista de coração” e acredita que os leões não terão dificuldades em vencer o Legia, que vive uma inesperada crise de resultados.

“De onde poderá vir o perigo do Legia? Neste momento não é muito fácil responder a essa pergunta. Eles estão muito mal, estão em terceiro a contar do fim”, diz o avançado português. “Começou por ser um momento físico muito mau, que depois afetou a equipa a nível psicológico. Sinceramente não me parece que o Legia vá criar problemas ao Sporting”.