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O Zeegelaar é ternurento para os adversários (e Rogério Casanova vai beber hidromel a pensar em William)

Rogério Casanova não percebe como Coates andou a ajudar economias emergentes em Guimarães e não encontro porquê de Markovic ser incapaz de criar perigo. Mas viu um Gelson "incapaz de não dar seguimento lúcido à jogada"

Rogério Casanova

MIGUEL RIOPA

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Rui Patrício

Um livre directo que agarrou sem problemas ao 3º minuto e outro remate à figura uma hora depois: foi a soma total das suas intervenções. De resto assumiu-se como parceiro institucional, promulgando alguns atrasos, inaugurando algumas jogadas, e tentando não arrefecer no seu soporífero papel cerimonial. E depois sofreu três golpes de estado em quinze minutos, o que só costumava acontecer na Tailândia ou na Bolívia. Pelos vistos é esta a sua vida, agora.

Schelotto

Estragou um fora-de-jogo aos 12 minutos que só não deu golo por acaso e viu um amarelo totalmente desnecessário aos 16 que só não me provocou um enfarte porque eu ando muito a pé, como bastantes vegetais, e não sou obrigado a vê-lo jogar todos os dias. Mesmo quando toma a opção certa, mesmo quando saca um gesto técnico eficaz (uma surpreendente recepção orientada com o peito, um surpreendente sprint na direcção correcta) sente-se sempre o alívio de quem viu uma calamidade ser evitada no último segundo.

Coates

Comporta-se como uma potência dominante, mantendo uma ordem hegemónica que depende tanto da violência como da ameaça de violência. Provavelmente julgou que a cacetada da ordem no avançado do Guimarães logo ao segundo minuto seria suficiente para manter os nativos sob controlo. Não se lhe podem atribuir as maiores culpas directas na hecatombe, mas o certo é que na segunda parte andou ali a subsidiar economias emergentes, em vez de bombardear o Vietname.

Rúben Semedo

Bringing out the Dead, de 1999, é um filme de Martin Scorsese sobre um paramédico à beira de um esgotamento. Sucessivos turnos da noite a responder a emergências e desgraças deixaram-lhe os nervos em franja e começa a sofrer por alucinações. O papel principal foi desempenhado por Nicolas Cage. Se continuam a rodear Semedo todas as semanas com estes laterais, poderá ser ele a fazer o remake.

Zeegelaar

O cruzamento para trás da baliza a meio da primeira parte foi uma comovente homenagem a Jefferson, mas depressa se emancipou da sombra do colega de posição com um lance ofensivo que só podia ter sido ele a desenhar: desmarcou-se involuntariamente e recebeu um passe de William que deixaria qualquer outro jogador a entrar na grande área isolado, e com pelo menos duas opções para definir a jogada; no caso de Zeegelaar, a jogada acabou com um lançamento lateral para o adversário do lado oposto do campo. Demonstra grande ternura pelos adversários, que se manifesta em múltiplos abraços.

William Carvalho

A ideia de que a sua felicidade foi de alguma forma comprometida por esta noite, mesmo que por um curto período de tempo, é motivo suficiente para nos levar a todos a contemplar o suicídio? Fica aqui lançado o debate, que tenciono acompanhar enquanto bebo hidromel artesanal.

Gelson Martins

Sessenta minutos a ilustrar um hipertrófico momento de forma em que nada lhe sai mal. Criou um estado de coisas, por exemplo, em que é virtualmente impossível passar-lhe mal a bola. Venha o passe por alto ou rasteiro, com demasiada força ou demasiado devagar, seja feito por William Carvalho ou por um qualquer Farnerud, seja uma esfera, um paralelepípedo, ou uma âncora de porta-aviões, Gelson é nesta altura incapaz de não dar seguimento lúcido à jogada. Veja-se a quantidade de recepções que fez, de costas para o marcador directo, e usando a sola da chuteira como amortecedor para reduzir a velocidade da bola apenas o suficiente para se virar e ir apanhá-la sozinho, quatro metros à frente. O primeiro golo surge assim. Podiam ter surgido mais.

Adrien Silva

Nos primeiros minutos teve um tufo de cabelo vimaranense a fazer-lhe aquilo que ele andou a fazer a médios galeses e croatas durante o Europeu, acompanhando-o para todo o lado. Recuou várias vezes à zona dos centrais para se libertar da sombra, mas ainda teve raio de acção suficiente para aparecer na área contrária e fazer o primeiro remate enquadrado do Sporting. Um transporte de bola prolongado poucos minutos depois deixou-o agarrado à coxa. A notória preocupação no seu rosto se calhar deveu-se menos à gravidade da lesão do que à ominosa imagem de Elias a equipar-se para o substituir.

Bryan Ruiz

Raramente deixa passar muito tempo sem exibir um sinal da sua inteligência, capacidade de temporização, ou qualidade técnica em espaços curtos, mas claramente não começou a época com a mesma exuberância do ano passado e, de jogo para jogo, vai-se assemelhando a uma criatura que sobreviveu demasiado tempo no seu próprio ecossistema, sem predadores naturais, e com as decisões tão pouco escrutinadas por ameaças exteriores que reduziu o seu jogo a uma elegante complacência. Precisamos de mais, e depressa.

Markovic

Um minuto antes do intervalo, lançado em profundidade e com metade do campo livre à sua frente, viu-se confrontado com um dilema que não se deseja a ninguém. Tinha basicamente duas opções: ou passava ao único outro colega solto de marcação, Schelotto, com uma uma abertura larga na diagonal, para o ver falhar inevitavelmente a recepção, ou então prosseguia o lance sozinho e dava um toque demasiado pesado já dentro da área para ser desarmado in extremis e ouvir uma quantidade insuficiente de assobios. Mostrando a sua criatividade, encontrou uma terceira alternativa, que desactivou qualquer hipótese de perigo de uma forma ainda mais frustrante.

Bas Dost

Era uma questão de tempo até acontecer um jogo em que o facto de não ser Slimani seria a conclusão mais óbvia. Quando passa tanto tempo fora da área, as suas características permitem-lhe acalmar a manobra ofensiva, mas não enervar a organização defensiva dos outros. Continuando (correctamente) a recusar correr na direcção das inúteis diagonais longas que alguns colegas insistem em continuar a fazer, passou o jogo como uma abstracção: uma ideia de ponta-de-lança à qual as circunstâncias nunca forneceram a geografia concreta para se materializar.

Elias

Continua por esclarecer o que é suposto acrescentar à equipa. Não pode acrescentar a intensidade frenética de Adrien, e a hipótese de acrescentar calma e maturidade, numa equipa com William e Ruiz, parece uma esperança tautológica. Dois momentos paradigmáticos. Ao minuto 63 tentou fazer de William Carvalho: incomodado por sucessivas vagas de adversários no meio-campo, usou o corpo para proteger a bola e ganhar um falta; acabou por perdê-la, e dar origem a um contra-ataque perigoso. Ao minuto 85 tentou fazer de Adrien: galopou freneticamente para fazer pressão alta a um adversário; não travou a tempo e fez falta.

Bruno César

Correspondente especial enviado do banco de suplentes para testemunhar de perto a catástrofe humanitária que já se adivinhava, revelou-se um observador atento e imparcial que fará certamente um relatório exemplar dos acontecimentos.