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Um manual para totós: como ser borracho em 15 minutos

O Sporting estava a ganhar por três em Guimarães e parecia estar a passear no parque. Só que julgou que o jogo estava morto, relaxou, não se certificou que o tinha matado e o Vitória empatou entre os 74' e os 89'. E Jesus não teve mão para dar a uma equipa que pareceu um borracho (uma cria de pombo que nada faz sem ajuda) durante o último quarto de hora do jogo

Diogo Pombo

MIGUEL RIOPA

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Nada se faz sem talento. Tê-lo em muito dose quando se é novo, ajuda, dá jeito. É como ser miúdo, ter aspeto de mais velho e não ter que mostrar um cartão para o porteiro da discoteca não duvidar da idade. Na bola, quando alguém é muito novo e, ao mesmo tempo, muito bom, a coisa funciona um bocado ao contrário: quanto mais se mostrar, melhor, porque assim evita as bocas de ser verde em demasia, ingénuo demais ou demasiado miúdo. Eis o raciocínio que me faz começar pelo rapaz de quem toda a gente fala antes de acontecer o que seja em Guimarães.

Como já devem ter percebido, é o Gelson Martins.

O miúdo é bom de bola, já o era na época passada. Só que, este ano, na troca de cromos para a caderneta do verão, os leões venderam um médio que desequilibrava pela calma que tinha (João Mário) e arranjaram espaço para entrar este extremo que abana pela frenesim e repentismo. Ele foi titular, ganhou confiança, não fez cerimónia em casa do Real Madrid, já marcou e deu golos e tudo isto chegou para ser chamado à seleção. É uma viagem num TGV apressado para o novato que apenas se estreou na equipa principal há 400 e tal dias.

Além do jeito, do talento, das fintas, das exibições e da atitude que ele tem, Gelson tem a sorte de estar no meio de uma equipa que faz o que Jorge Jesus se costuma gabar: dá-lhe condições. Ele está numa equipa em que quase todos os titulares jogam juntos há um ano, conhecem-se, sabem o que o treinador lhes pede e fazem-no de forma automática e sem terem de puxar pelas memórias que têm na cabeça. Quando Jesus acertou à terceira no ditado que citou antes do jogo - “Ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo" -, era mais ou menos isto que quereria dizer (e decore este ditado, por favor).

Mas, lá está, a equipa tem de funcionar para ele, que ainda não é um craque que dá o clique sozinho, render. Porque, durante mais de 25 minutos, o estádio do Guimarães prova-nos como o futebol pode ser um jogo feio, à base de ressaltos, passes falhados, perdas de bola e jogadas que não aprendem a tabuada dos passes. Os médios do Vitória não deixam que se jogue e a linha de quatro defesas do Sporting vai brincando com a sorte, mantendo-se subida enquanto Marega pede passes no espaço que têm nas costas.

Nada de mais interessante posso escrever até Gelson me provar que estou enganado. Está de costas, a 30 metros da baliza, e chega-lhe um passe lento, à queima. Ele recebe-o com o pé esquerdo, em rotação, transforma uma receção em finta e tira Rúben Fernandes deste parágrafo antes de driblar outro adversário. Depois remata, com tanta força que Douglas defende a bola para a frente, dele e de Markovic, que desvia a recarga (29’) para a baliza. O miúdo desbloqueia o castelo de Guimarães e obriga os anfitriões a abrirem-se, arriscarem, a atacarem em vez de se protegerem.

MIGUEL RIOPA

O jogo nem por isso melhora. As corridas de Marega não recebem passes, Hernâni confunde-se nas próprias fintas e os leões, que tentam acalmar as coisas, apanham um susto que lhes é pregado pelo músculo de uma coxa. Adrien lesiona-se e Jesus berra e gesticula para que Elias se apresse a substituí-lo. O Vitória vê um médio atrasado no ritmo do jogo a entrar e, por isso, acelera mais. Ataca mais rápido. Parte um jogo com o qual não sabe lidar partido. Isto abre espaços para William, o mutante que se transforma em bully opressor se não for vigiado de perto, e impor a toda a gente o jogo que quer.

Os leões já acabavam jogadas, ligavam-nas com passes pela relva até terem alguém em posição de cruzar a bola para a área e isso resultar em remates tentados ou desviados. Como o que deu o canto que Zeegelaar bateu para a cabeça de Sebástian Coates rematar (41’) e marcar na linha da pequena área. Era um prenúncio para o Sporting ir e voltar do balneário descansado.

Tinha mesmo tudo para ser um passeio no parque, tranquilo. Ainda mais quando, mal o jogo recomeça, Elias e Markovic rematam à baliza vimaranense - um a começar e a fechar uma jogada na área, o outro a ser desmarcado e a tentar desviar na cara do guarda-redes. Falham, como o pé esquerdo torto (é esquisito escrevê-lo) de Bryan Ruiz, que não acerta o remate de primeira na enésima bola que um galgo chamado Schelotto cruza, a correr, da direita. Nos entretantos, o Vitória separa os jogadores pela preocupação que tem em reagir, atacando.

Mas a equipa só atacava com pressa, coxa por vontade própria, por querer ter a perna direita mais comprida. Do lado onde está Hernâni, o rápido e ousado nas fintas a atacar, e Zeegelaar, o errático e desengonçado a defender. A equipa repara de Bryan Ruiz já não ajuda muito o tremido lateral holandês e insiste por aí. O extremo cruza, remata, corre e assusta, tudo em vão porque as mãos de Douglas veem um frango em vez da bola que Elias, de longe, remata (70’) à sua figura sem antes a deixar tocar na relva.

MIGUEL RIOPA

A partida parecia morrer aqui. E estava, mas quem vivia ficou moribundo e deixou qque, quem morria, começasse a renascer. E aposto que num parágrafo consigo resumir tudo.

Mal se viram a ganhar por três, os leões fizeram o contrário do que deviam; abrandaram, não se aproximaram uns dos outros, não fizeram por ter a bola, aguentá-la e irritar os adversários, puseram calma neles próprios em vez de acalmarem o jogo. E o Vitória, vendo isto, pressionou, foi com tudo às segundas bolas, correu mais com garra do que cabeça e mostrou como o futebol é um jogo bonito por causa destas coisas. Marega sofreu o segundo penálti do jogo e marcou aos 74’. Esperou dois minutos para fazer outro e chegar aos sete golos no campeonato, a cruzamento de João Aurélio, da direita. Do mesmo lado em que a enésima falta de Zeegelaar deu o livre que Raphinha cruzou para a cabeça de Soares marcar, aos 89’.

O jogo acabou empatado, com os jogadores do Sporting incrédulos na cara e o treinador, impávido, sem reação. Antes de tudo isto acontecer, Jesus disse que olhava para “dados científicos” quando decidia que jogadores rodar entre os jogos que os leões têm tido a cada três/quatro dias. Não terá sido apenas pelo cansaço que a equipa adormeceu - pareceu que foi pela quebra na atitude, de organização, do cada um saber o que tinha de fazer para agarrar uma partida que todos sabiam que o adversários lhes queria roubar.

Todos pareceram um borracho, o pombo sem plumagem que não consegue voar sozinho, que Jesus citara num ditado no dia antes de tudo isto acontecer. Só que falava de Gelson, não de uma equipa inteira.