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De tanto baralhar, Jesus quase se assustou

O Sporting jogou em Famalicão com várias caras novas no onze e a qualidade de jogo ressentiu-se - e de que maneira! Jorge Jesus não desesperou, mas quase, e só terá suspirado de alívio quando William entrou e colocou ordem no meio-campo. Os leões venceram por 1-0 e estão na 4.ª eliminatória da Taça de Portugal, num jogo pobre e enfadonho, onde a equipa da casa até foi a mais afoita

Lídia Paralta Gomes

HUGO DELGADO/LUSA

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Minuto 2: Jesus esbraceja, dá indicações, corrige uma série de posicionamentos. O Famalicão ataca mais.

Minuto 6: Jorge Jesus continua impaciente. Está visivelmente irritado. Aquela pastilha elástica sofre. De braços atrás das costas, lança olhares fulminantes a uns quantos jogadores.

Minuto 11, segundos após o golo do Sporting: Jesus não larga Petrovic. Diz-lhe que movimentações tem de fazer, onde deve estar posicionado. Não é William Carvalho quem quer.

Minuto 20: Jesus vê mais um passe longo do Sporting e só lhe falta entrar em campo para distribuir puxões de orelhas.

Este é o filme dos primeiros 20 minutos do jogo desta quinta-feira para Jorge Jesus e nem sequer estamos aqui a falar da bronca que deu a Beto por uma reposição mais arriscada ou do desespero a cada erro dos laterais. Com um onze de segunda linha, Jesus chegou a assustar-se em Famalicão e só terá respirado melhor na 2.ª parte, depois da entrada de William Carvalho e Gelson Martins. O Sporting venceu os minhotos por 1-0, está na 4.ª eliminatória da Taça de Portugal, mas nem sempre foi a melhor equipa em campo e nem sempre foi a mais perigosa, principalmente na 1.ª parte, 45 minutos em que Jesus não se sentou nem uma vez.

Depois de uma semana dedicada às seleções, Jesus deu descanso a uma série de internacionais, chamando Beto, Douglas e Paulo Oliveira pela primeira vez esta época e dando o lugar de William Carvalho a Petrovic, que partilhou o miolo com Elias.

E foi aqui mesmo que nada funcionou. Sem ritmo e, essencialmente, sem rotinas, o sérvio e o brasileiro nunca conseguiram pautar o jogo ou decidir com critério. A 1.ª parte do Sporting foi um amontoado de passes falhados e de perdas de bola, em que a única jogada com início, meio e fim calhou dar o golo de Markovic que acabou por decidir o encontro.

Aquele golo aos 10 minutos caiu mesmo do céu: até aí, o Sporting nem sequer tinha por uma vez chegado à área do Famalicão. A equipa da casa, por seu turno, ia atacando, afoita mas pouco eficaz. Porque outra equipa teria aproveitado sem misericórdia os consecutivos erros dos laterais - tentar encontrar um lance que João Pereira e Jefferson não tenham perdido é mais ou menos como esperar que chova no Deserto da Saara - e as atrapalhações de Douglas.

Pois bem, a primeira vez que o Sporting chegou à área do Famalicão, André cabeceou ao poste mais longínquo e na sequência Elias colocou na área, onde Markovic disse que sim a uma bola vinda de Elias a meias com um dos defesas do Famalicão. Remate de primeira, sem grande preparação e que surpreendeu o guardião Gabriel.

De bom, a 1.ª parte do Sporting teve isto e só se voltou a vislumbrar algum futebol ao minuto 40, quando Elias desperdiçou uma jogada de entendimento com Alan Ruiz, rematando ao lado quando estava praticamente isolado.

William é outra coisa

A 2.ª parte começou com uma notícia que pode parecer má, mas provavelmente foi a melhor coisa que aconteceu ao Sporting nesta desinteressante noite de quinta-feira. Petrovic saiu lesionado e Jesus foi obrigado a chamar um William Carvalho que estaria a poupar para o jogo da Champions frente ao Borussia de Dortmund, na terça-feira.

HUGO DELGADO/LUSA

E com William, mesmo sem bigode, é outra coisa. O Sporting não começou miraculosamente a jogar melhor - nunca o fez, diga-se - mas ganhou posse, critério e até alguma magia. Aos 54’, o internacional português, talvez aborrecido com o quão enfadonho estava o jogo, ‘sacou’ de uma trivela que isolou Markovic. Pena o sérvio ter rematado por cima.

Com o médio em campo, o pêlo na venta do Famalicão amainou um pouco, mas a verdade é que a equipa da casa sempre foi criando perigo aqui e ali. Aos 56 minutos gritou-se inclusivamente golo no Municipal de Famalicão, quando Medeiros ganhou de cabeça a João Pereira (who else?) ao segundo poste e fez a malha lateral abanar.

Ainda inquieto, Jesus colocou Gelson em campo, na esperança que a velocidade do miúdo desse algum alento a um anémico ataque do Sporting. Dez minutos depois Gelson respondeu também à trivelada, depois de tirar dois adversários do caminho à entrada da área. É certo que o Sporting não merecia ganhar por mais que um, mas caramba, era um golo tão bonito.

O jogo não terminou sem antes o Famalicão provocar novo ataque de suores frios a Jorge Jesus, com Pedro Correia a cabecear ligeiramente por cima da baliza de Beto.

Quando se baralha e dá, nem sempre se fica com o melhor jogo. Jesus terá uns recados para transmitir a alguns dos jogadores menos utilizados que desaproveitaram estrondosamente a oportunidade dada, mas ficará para depois: o Sporting segue na Taça e terça-feira há Champions e Borussia Dortmund em Alvalade. E aí não há lugar para experiências.