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Bas Dost e a nobre arte do gif, por Rogério Casanova

Rogério Casanova receia que Rui Patrício possa apanhar uma gripe e faz uma ode à perfeita dentição de Bryan Ruiz. Dois jogadores que pouco tocaram na bola na noite em que o Sporting tratou da saúde ao Arouca

Rogério Casanova

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JOSE MANUEL RIBEIRO/Getty

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Rui Patrício

A campanha de vacinação contra a gripe, coordenada pela Direcção-Geral de Saúde em parceria com a SPMS – Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, com a Administração Central do Sistema de Saúde, com o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, com as Administrações Regionais de Saúde e com os Serviços Regionais de Saúde das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, arrancou no início de outubro, vai decorrer durante todo o outono, e é gratuita para todos os cidadãos com mais de 65 anos, pessoas vulneráveis internadas em instituições, e guarda-redes que não levem um casaquinho para dentro de campo. Fica a informação.

João Pereira

Nota-se que o vaivém de correrias implica um esforço físico, ao contrário de Schelotto, para quem o maior esforço é caminhar a passo ou ficar quieto. Após vários jogos ausente do onze, fez a mesma exibição que anda a fazer desde novembro do ano passado: bem com os pés, bem com as mãos (o 1-0 nasce de um lançamento seu), bem com o corpo, e bem com a cabeça – tanto a pensar, como a rematar, como aconteceu ao minuto 50 quando apareceu sozinho na área, não fazendo golo por centímetros.

Coates

Terão sido tardes de domingo como esta que imaginou quando tomou a decisão de trocar o frenético campeonato inglês pelo nosso, ao invés de se tornar operador de farol ou guarda-florestal. Coates é claramente uma alma poética, que não deseja mais da vida que um emprego estável e tranquilo, que lhe permita apreciar a beleza do mundo natural, procurar rebentos de flor entre as folhas de relva, admirar a silhueta do orvalho contra os holofotes. De vez em quando, é certo, é preciso ir lá à frente fazer uma assistência para golo, ou magoar um adversário maroto que alimente intenções de fazer mal ao Sporting, mas assim que esses assuntos desagradáveis são resolvidos, regressa logo à contemplação.

Rúben Semedo

É precisamente nestes jogos, em que quase tudo acontece em apenas cinquenta metros de relvado, que é um descanso tê-lo lá atrás. Nas raríssimas ocasiões em que o Arouca tentou saídas rápidas em contra-ataque, e Semedo invariavelmente chegava primeiro às desmarcações ou interceptava variações de flanco com o calcanhar, era possível ouvir no estádio um murmúrio espectral, como se um coro invisível entoasse uma litania cuja letra consiste em nomes de fantasmas: Naby Sarr, Torsigilieri, Onyewu, Polga, Hugo...

Zeegelaar

A década de 80 foi pródiga num tipo específico de comédia, normalmente protagonizada por Dudley Moore ou Steve Martin, em que duas personagens trocavam de corpo e começavam a viver a vida uma da outra sem que ninguém desse conta. Talvez seja uma explicação rebuscada, mas começam a escassear alternativas. De qualquer modo, se a minha teoria é correcta, há aproximadamente duas semanas que Paolo Maldini, algures no seu palácio nos subúrbios de Milão, anda constantemente a tropeçar pelas escadas abaixo e a mirar-se ao espelho com um ar triste e confuso.

William Carvalho

Tal como Adrien, esteve praticamente ausente do jogo no primeiro quarto de hora, quando Coates e Semedo se encarregaram da primeira fase de construção, deixando-lhe a função de travar potenciais contra-ataques. Com o passar do tempo começou a participar mais na circulação e é dele a abertura que descobre João Pereira na área. Na segunda parte permitiu que lhe roubassem a bola a meio de um rodopio, uma ocorrência rara que lhe deve ter mexido com a auto-estima, pois não descansou enquanto não arranjou maneira de ir rodopiar à frente da mesma pessoa.

Gelson Martins

Não sei se foi um alívio para ele participar num jogo em que o resultado final não dependeu da sua participação activa. Para mim foi. Para vocês também. Não deslumbrou – não foi preciso – mas esteve bem.

Adrien

Há uma extensa lista de vantagens que se perdem com a sua ausência e se ganham com a sua presença. Muitas delas são óbvias. Mas outras são muito mais fáceis de identificar nas presenças do que nas ausências. Nem nos tínhamos apercebido, por exemplo, da falta que nos fez aquela capacidade, tanto a defender como a atacar, de fazer coisas simples muito depressa em espaços muito curtos (a reacção muscular de micro-segundos que transforma um passe transviado numa tabela, ou o desarme em esforço numa desmarcação). E já em esforço, ainda teve discernimento suficiente para fazer trabalho de recuperação anímica com o colega de meio-campo, falhando generosamente um penalty. Um líder.

Um líder: até quando falha grandes penalidades, Adrien fá-lo por generosidade

Um líder: até quando falha grandes penalidades, Adrien fá-lo por generosidade

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Joel Campbell

Mostrou genica e vontade do primeiro ao último minuto, muito literalmente (ainda andava a puxar pelo 4-0 nos descontos, perante a consternação dos colegas, e temeu-se que levasse um par de chapadas de alguma pessoa mais cansada). Mas continua a parecer muito melhor nos momentos de definição já dentro da área do que nas jogadas de envolvimento, onde mesmo hoje falhou mais do que uma vez o penúltimo passe. Tem uma capacidade técnica curiosa, capaz de deixar adversários nas covas com uma mistura de frenesim, persistência e trapalhice que fazem de muitas das suas jogadas individuais uma recriação daquele patético golo do saudita Al-Owairan contra a Bélgica no Mundial de 94.

Bryan Ruiz

Aquela boca sem uma única cárie ou diastema, constituída por dois sólidos anfiteatros de marfim encaixados em cada mandíbula, fazem do seu sorriso um tributo à arte da estomatologia. Que a sua presença em campo hoje nos sirva a todos de lembrete: devemos escovar bem os dentes, especialmente depois das refeições.

Bas Dost

A recepção orientada de coxa com subsequente cabrito ao adversário no minuto 34 terá sido a sua primeira candidatura à arte do .gif. Mas merece igual atenção a tentativa de assistir Castaignos ao minuto 75, quando tentou um amortecimento de cabeça dentro da área depois de mergulho lateral à rectaguarda. E também o seu ternurento hábito de festejar cada golo procurando imediatamente os colegas que nele colaboraram, sempre com o sorriso radiante de quem desembrulha um par de peúgas no Natal e garante: “como é que adivinhaste? Era exatamente isto que eu queria!”

Castaignos

Rompeu pela direita ao minuto 83, com o hat-trick de Dost completamente solto na marca de penalty. Um último passe daqueles, sem qualquer oposição, só pode mesmo acontecer numa situação de 3-0 contra o Arouca, ou a nossa relação arrisca-se a ficar comprometida.

Bruno César

Entrou em campo e dele voltou a sair. É também destas pequenas simetrias que se faz o desporto.

Elias

O assobio preventivo: eis um hábito que pode e deve ser enfiado no mesmo espaço anatómico previamente ocupado pelos “olés” com margem mínima no marcador.