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O sistema e os 10 por cento que foram a diferença entre a Europa e ir para casa

O Sporting só precisava de empatar em casa do Legia para assegurar um lugar na Liga Europa, mas a aposta de Jesus numa tática de três centrais desequilibrou uma equipa que no domingo tem novo jogo decisivo. O Legia venceu por 1-0 e agarrou o 3.º lugar. O treinador leonino bem disse na véspera que o foco para o encontro de Varsóvia estava "a 90 por cento". Pois, os 10 que faltaram fizeram muita falta

Lídia Paralta Gomes

Leszek Szymanski/EPA

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Ele há semanas tramadas. Como aquelas que podem decidir boa parte da época. São essas as épocas que pedem foco a 100%. Na véspera do jogo com o Legia, Jorge Jesus admitiu que o Sporting estava focado “a 90 por cento”. Pois foram aqueles 10% em falta que deixaram Guilherme ganhar aos centrais dos leões e fazer o golo que atirou o Sporting para fora da Europa.

Há mais, claro. Muito mais do que uma desatenção dos defesas leoninos, nomeadamente de Paulo Oliveira (aposta de recurso de Jesus à falta de João Pereira e Schelotto), o que tramou o Sporting foi mesmo a mudança. Desfalcado, o treinador do Sporting deixou Esgaio no banco e apostou num sistema de três centrais, com o qual a equipa nunca se sentiu à vontade na 1.ª parte. Os leões tiveram mais posse, remataram mais, mas nunca foram a equipa de ataque pendular que tem dominado os adversários grande parte da época.

Fica a lição: em dia de decisões, talvez não seja boa ideia inventar.

Pois bem, os primeiros 45 minutos foram verdadeiramente atípicos para o Sporting. Com Bruno César também ocupado com tarefas defensivas (à direita, incompreensível), o ataque não teve peso e o Sporting falhou na hora de jogar sem bola. Sem pressão, o Legia conseguia facilmente criar perigo em contra-ataque, com a defesa do Sporting a salvar bem, ao deixar os avançados polacos muitas vezes em situação de fora de jogo.

Até que por uma vez os centrais falharam: aos 30 minutos, Rúben Semedo perdeu o duelo com Prijovic, que cruzou para a área onde Guilherme, antigo jogador do Sp. Braga e Gil Vicente, antecipou-se a Paulo Oliveira e emendou para a baliza. Um golo que, mais do que um percalço, era um castigo para um Sporting que terá subestimado o Legia. Na 1.ª volta, em Alvalade, os polacos estavam em plena crise e foram um adversário tenrinho. Esta quarta-feira, em casa, na sua terrível casa, transfiguraram-se: coesos, aguerridos, surpreenderam o leão.

Na 2.ª parte, foi hora de tentar tudo. Jesus, reconhecendo o erro de casting inicial, tirou Paulo Oliveira e colocou Esgaio, voltando o Sporting ao seu esquema tático habitual. Lançou também Bryan Ruiz para a vez de Markovic, que desperdiçou mais uma oportunidade dada por Jesus: o sérvio foi uma nulidade no apoio a Bas Dost.

Expulsão de William Carvalho foi a machadada final nas esperanças do Sporting

Expulsão de William Carvalho foi a machadada final nas esperanças do Sporting

Leszek Szymanski/EPA

E, de facto, a partir dos 60 minutos, o Sporting foi outra equipa. Voltaram as rotinas de sempre, com Adrien a agarrar o jogo e a distribuí-lo pelas alas, onde Bruno César e principalmente Gelson começaram a criar perigo. Aos 65’, Bas Dost teve finalmente bola, não conseguindo responder a um cruzamento do brasileiro.

Cinco minutos depois, em desespero, Jesus colocou mais um homem no ataque, o avançado André, começando então uma sequência de golos falhados onde o brasileiro ex-Corinthians foi o principal protagonista. Não estava ainda há 60 segundos em campo quando pontapeou o ar em vez da bola em plena pequena área e aos 75 minutos deixou Gelson Martins fazer tudo bem e cruzar de forma perfeita para, ao 2º poste e sozinho, falhar escandalosamente o golo. Nem dois minutos depois rematou seco para a defesa da noite de Malarz.

A partir daí o Sporting atirou-se desesperadamente para a área, com o Legia a espreitar sempre o contra-ataque, estratégia que só não resultou porque Rui Patrício salvou dois golos feitos já dentro dos últimos 10 minutos. Talvez tenha sido aos 85 minutos, quando William Carvalho recebeu o segundo amarelo e foi expulso, que caiu a ficha aos leões: a eliminação era mesmo uma realidade.

O Sporting pode queixar-se de algumas decisões de arbitragem que deixaram dúvidas - parece haver uma mão na bola de Hlousek na área no início da 2.ª parte - mas perdeu por culpa própria. Sai da Europa pela porta pequena, depois de uma fase de grupos em que se bateu de igual para igual com equipas como o Real Madrid e B. Dortmund. O que torna esta derrota ainda mais incompreensível.

Segue-se o dérbi no domingo. A época já se começou a decidir esta semana e não foi como Jesus queria.

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