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Gelson é o 4x4x2, o 4x3x3, a dinâmica, a basculação, a intensidade, o overlapping, a entrelinha e a posse de bola. E o golo

O Sporting venceu o Varzim por 1-0 em jogo a contar para a Taça da Liga.Os leões têm seis pontos em dois jogos nesta competição

Pedro Candeias

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Esta não é uma crónica normal, porque não falaremos dos 22 jogadores que jogaram de início e dos outros que entraram. Nem escrevermos sobre treinadores, modelos, dinâmicas, 4x4x2 clássico, losango ou assimétrico, entrelinhas, linhas subidas e blocos baixos, diagonais, bloqueios, basculações e contemporizações, transições ofensivas e defensivas, esquemas táticos, faltas táticas, overlapping (uma das preferidas do autor deste texto), intensidade, descanso com bola e sem bola, e, claro, posse de bola.

Com a vossa licença, a crónica de hoje - que não é normal como já foi dito - vai para um puto de 21 anos nascido em Cabo Verde, a coisa mais imprevisível que já se viu nos últimos tempos por aqui. E diz-se isto no bom sentido, na medida em que ninguém sabe o que vai acontecer de cada vez que ele pega na bola.

É provável que drible um adversário com um túnel, como fez a Villagrán há um par de horas, e siga com a jogada à procura de um colega ou da baliza.

É possível que arranque e pare e arranque novamente, provocando o tombo de quem o defende, como fez várias vezes a Delmiro, coitado, que terá consulta de nefrologia marcada na Póvoa de Varzim.

Pode dar-se o caso, até, de Gelson olhar de frente o adversário, pôr a bola pelo lado direito e acelerar pelo lado esquerdo.

Ou então, se estiver para aí virado, marcar um golinho como o de há pouco, que não se sabe se foi sem querer ou de propósito, mas também é aí que está a beleza do jogo - ele é imprevisível, lembram-se?

O Sporting hoje jogou bem a espaços porque Gelson jogou bem nos espaços que eram dele mas também dos outros: à direita, centro direita e pelo meio, uma espécie de geringonça de futebolista catita que funciona, diria o outro. Se a imagem do campo inclinado fosse uma realidade, este estaria sempre tombado para o lado em que Gelson corresse.

E isto cria dois problemas: para quem é da mesma equipa do que ele mas está na outra ponta (1); e para quem é da equipa contrária e o apanha pela frente.

Exemplo 1: um cruzamento de Campbell descreve o arco de uma parábola e a bola pinga; um cruzamento de Gelson é como que uma linha paralela ao chão. A Física dirá que isto é difícil ou impossível, porque cruzar implica que a bola faça uma trajetória ascendente se esta for chutada ao nível da relva - mas esta não é uma crónica normal.

Exemplo 2: Delmiro, o defesa esquerdo, foi hoje o profissional de uma profissão de risco, ou em risco, porque tentou de todas as formas parar o compatriota mas nunca lhe apanhou o jeito, mesmo quando o apanhou a jeito.

Obviamente, Gelson não é perfeito e falhou uma ou duas vezes naqueles instantezinhos finais, os que podem levar ao golo, mas numa equipa que alinhou com dois pontas-de-lança seria injusto atribuír-lhe a culpa pelo resultado magro (1-0). É que foi ele quem disfarçou o momento frágil de Adrien Silva (acabou por sair lesionado) e de William Carvalho, que não estão frescos e alegres, como diz Jorge Jesus; e foi ele também quem defendeu quando o Sporting se pôs a descoberto.

Não é o melhor do mundo, mas é, de longe, o melhor do Sporting.