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O filme de um pesadelo em tons de verde e branco

A eliminação do Sporting da Taça de Portugal, depois da derrota nos quartos-de-final, frente ao Chaves, é apenas o último capítulo de uma época que prometia muito, mas que para já só tem dado desilusões aos adeptos leoninos. Fora das taças, fora da Europa e já a 8 pontos do líder, o Benfica, no campeonato – e ainda estamos em janeiro... – lembramos as derrotas inesperadas, os golos sofridos nos últimos minutos, as queixas das arbitragens e as numerosas contratações que pouco ou nada têm acrescentado

Lídia Paralta Gomes

DESILUSÃO William Carvalho e Adrien Silva (e Bruno de Carvalho, lá atrás) desolados após a eliminação do Sporting da Taça de Portugal

José Coelho/Lusa

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Fora das taças, fora da Europa e em 4.º lugar do campeonato, a 8 pontos do líder Benfica. Tudo isto a meio de janeiro. É o próprio presidente Bruno de Carvalho que admite que a época desportiva do Sporting tem sido “uma desilusão”, depois de uma pré-temporada em que a chegada de jogadores como Bas Dost, Lazar Markovic, Joel Campbell ou Luc Castaignos fizeram dos leões muito mais candidatos ao título do que em anos anteriores.

Do entusiasmo inicial, cimentado nas quatro primeiras jornadas do campeonato, em que o Sporting não perdeu pontos e pelo meio ganhou ao FC Porto, até aos gritos de “joguem à bola” nas esperas dos adeptos às portas de Alvalade, foram apenas cinco meses de uma cronologia que teve derrotas inesperadas, golos sofridos de forma inexplicável, lesões inoportunas, queixas de arbitragem e contratações que tardam em impor-se. O filme de um pesadelo, explicado em capítulos.

OS PONTOS BAIXOS

O minuto 36 do V. Guimarães-Sporting (1 de outubro, jornada 7 do campeonato)
Até podíamos ir mais atrás, à jornada 5, quando o então líder Sporting perdeu frente ao Rio Ave por 3-1. Mas o início da queda começou verdadeiramente ao minuto 36 do V. Guimarães-Sporting. O Sporting vencia por 1-0 quando Adrien Silva sofreu uma lesão muscular e deu lugar a Elias. É certo que já depois da saída do capitão o Sporting fez o 2-0 e depois o 3-0, mas a recuperação do V. Guimarães até ao 3-3 final em muito se deveu à ausência da acutilância defensiva de Adrien no miolo do terreno. E a partir daí iniciou-se uma série de cinco jogos infernais para o Sporting: depois de uma vitória difícil em casa do Famalicão para a Taça de Portugal, os leões perderam o duplo confronto com o Borussia Dortmund para a Champions e, mais inesperado, empataram com o Tondela e Nacional para o campeonato. Elemento em comum nestes jogos: Adrien lesionado e fora do onze. E à 9.ª jornada o Sporting já estava a 7 pontos da liderança.

DIFICULDADES. Sem Adrien no onze, o Sporting tem sido uma equipa muito mais vulnerável

DIFICULDADES. Sem Adrien no onze, o Sporting tem sido uma equipa muito mais vulnerável

José Coelho/Lusa

Legia-Sporting (7 de dezembro, última jornada da fase de grupos da Champions)
Depois de uma derrota ao cair do pano com o Real Madrid, em Alvalade, o Sporting chegava à última jornada da fase de grupos da Champions com a qualificação para a Liga Europa na mão. “Bastava” um empate na Polónia, frente a um Legia que em Lisboa tinha perdido 2-0 mas podia ter sido goleado. Tudo parecia assim encaminhado para a continuidade do Sporting na Europa. Parecia, até Jesus entrar em campo com um sistema de três centrais, que deu cabo das dinâmicas da equipa, que nunca conseguiu responder com pés e cabeça ao golo de Guilherme ainda na 1.ª parte. Jesus ainda voltou ao sistema habitual na 2.ª parte, mas a falta de eficácia de André e a expulsão de William Carvalho no final deitaram por terra o primeiro objetivo da época dos leões, que em início de dezembro já estavam fora da Europa, com muitas queixas de arbitragem pelo meio.

Benfica-Sporting (11 de dezembro, jornada 13 do campeonato)
Depois de ver o Benfica desperdiçar 5 dos 7 pontos de vantagem que tinha, o Sporting chegou ao dérbi com hipóteses de ultrapassar o rival da Luz. Mas apenas quatro dias depois da eliminação da Europa, novo momento de desolação: apesar de até ter sido a melhor equipa em campo, o leão voltou a ser ineficaz, perdendo por 2-1 num jogo em que a atuação do árbitro Jorge Sousa foi muito contestada em Alvalade, com o Sporting a reclamar duas grandes penalidades não assinaladas. Na jornada seguinte, o cenário piorou ainda mais, com uma derrota em casa frente ao Sp. Braga (1-0, golo do ex-leão Wilson Eduardo) e a Juve Leo a bater à porta da Academia de Alcochete. Oito pontos de diferença para o líder antes do Natal era algo que não passaria pela cabeça dos adeptos do Sporting em agosto...

V. Setúbal-Sporting (4 de janeiro, última jornada da fase de grupos da Taça da Liga)
O ano novo não trouxe um novo Sporting e 2017 começou da pior maneira. Num jogo em que, à semelhança do que tinha acontecido na Polónia, os leões só precisavam de empatar, tudo o que podia ter corrido mal, correu. Aos 20 minutos o Sporting já perdia e ficava de fora da final four da Taça da Liga pelo curioso critério da menor média de idade dos jogadores utilizados. Um critério que caiu por terra quando Elias marcou a 10 minutos do fim. Os adeptos passaram a mão pela testa: tinha estado perto a saída pela porta pequena em mais um dos objetivos da época. Mas a Lei de Murphy quando tem de atacar, ataca a sério e depois de André - tal como na Polónia, curioso - ter desperdiçado uma, duas vezes a oportunidade de marcar o golo do descanso, veio o descalabro: a polémica grande penalidade de Edinho aos 90’+4 e o árbitro Rui Oliveira a sair do relvado sob escolta policial, depois de ser rodeado e confrontado por jogadores e técnicos do Sporting. Mais uma taça perdida.

Chaves-Sporting (17 de janeiro, quartos-de-final da Taça de Portugal)
Três dias depois de empatar com o Chaves para o campeonato (2-2, com Fábio Martins a fazer a igualdade para os transmontanos aos 87 minutos), desperdiçando a oportunidade de se aproximar do Benfica e com Bruno de Carvalho a pedir satisfações ao plantel no balneário, o Sporting voltou a jogar com uma das equipas-surpresa da época, desta vez para os quartos-de-final da Taça de Portugal. Em jogo, uma das últimas, senão a última esperança para a conquista de um troféu na temporada. E com uma equipa amorfa em campo, um Jorge Jesus a rezar na bancada e um Bruno de Carvalho desolado no banco, o Sporting tombou com mais um golo nos últimos minutos (de novo aos 87’), agudizando a crise. À chegada a Alvalade, uma centena de adeptos recebeu a equipa com insultos.

FORA DE JOGO Castigado, Jesus viu a eliminação do Sporting na Taça desde a bancada. E nem as rezas o ajudaram

FORA DE JOGO Castigado, Jesus viu a eliminação do Sporting na Taça desde a bancada. E nem as rezas o ajudaram

José Coelho/Lusa

ÚLTIMOS MINUTOS FATAIS

Depois de uma primeira época de Jesus em Alvalade marcada pela solidez defensiva, 2016/17 trouxe um Sporting bem mais permeável na linha mais recuada e os golos consentidos nos últimos minutos têm sido decisivos para a crise. Os dois jogos com o Real Madrid para a Champions são paradigmáticos. No Santiago Bernabéu, os leões venciam por 1-0 e permitiram à equipa da casa dar a volta ao resultado com golos aos 89’ (Ronaldo) e Morata (90’+4). Em Lisboa, Benzema marcou o golo da vitória (2-1) aos 87’. Sem estas duas derrotas, o Sporting não seria afastado da Europa.

Frente ao V. Guimarães, à 7.ª jornada do campeonato, o Sporting vencia por 3-0 e deixou-se empatar com golos aos 73’, 75’ e 89 minutos. A qualificação para as meias-finais da Taça da Liga escapou com um golo do V. Setúbal aos 90’+4, a célebre grande penalidade de Edinho. E agora, no duplo confronto com o Chaves, o primeiro para o campeonato e o segundo para a Taça de Portugal, o Sporting cai com golos aos 87 minutos.

AS CONTRATAÇÕES FALHADAS

Já com a janela de mercado do verão a fechar, o Sporting perdeu João Mário e Islam Slimani, mas a permanência de Adrien Silva, William Carvalho e as numerosas e sonantes contratações pareciam dar garantias de um plantel capaz de lutar em todas as frentes. No papel, os nomes de Bas Dost, Lazar Markovic, Joel Campbell, Luc Castaignos, André, Elias e Alan Ruiz (que custou mais de 5 milhões de euros) impressionavam, mas destes apenas o avançado ex-Wolfsburgo tem sido uma verdadeira e constante mais-valia para a equipa. Dost leva já 15 golos na época, 13 deles no campeonato - é o melhor marcador da Liga. De resto, muito pouco. Lazar Markovic é uma sombra daquilo que mostrou no Benfica, Joel Campbell alterna boas exibições com jogos de total atrapalhação, Luc Castaignos continua a ser uma promessa adiada, André é mais vezes notícia pelos golos que falha do que pelos que marca, Elias não faz esquecer Adrien e Alan Ruiz demora também a adaptar-se (e a emagrecer).

Quanto às restantes contratações, o lituano Spalvis lesionou-se com gravidade ainda na pré-época e foi entretanto emprestado ao Belenenses, Douglas parece sempre demasiado duro, Marcelo Meli já foi recambiado para a Argentina e Petrovic fez estonteantes 138 minutos ao longo de três jogos. Só Beto não tem comprometido, enquanto suplente de Rui Patrício.

AS DESILUSÕES

Procura-se: Bryan Jafet Ruiz González, internacional costa-riquenho, esquerdino, 31 anos, 78 quilos e 1,88m, visto pela última vez em março de 2016, depois de falhar um golo de baliza aberta no dérbi Sporting-Benfica da época 2015/16.

Depois de uma boa primeira época de leão ao peito (46 jogos/13 golos), Bryan Ruiz eclipsou-se completamente esta temporada, apesar da insistência de Jesus, tanto nas alas como na posição de segundo avançado, no apoio a Bas Dost. Em qualquer das posições, o costa-riquenho pouco ou nada tem produzido. Ruiz não sabe tratar mal uma bola de futebol, é certo, mas a falta de intensidade e alheamento do jogo tem exasperado os adeptos leoninos. Convém recordar que desde o defeso de 2013 que Bryan Ruiz não tem umas férias descansadas: em 2014 esteve no Mundial, em 2015 na Gold Cup e na última temporada na Copa América Centenário. E não sendo o avançado um portento físico, o cansaço começa a fazer-se notar.

ALHEADO Rendimento de Bryan Ruiz (ou falta dele) tem sido um dos dramas do Sporting esta temporada

ALHEADO Rendimento de Bryan Ruiz (ou falta dele) tem sido um dos dramas do Sporting esta temporada

Pedro Sarmento Costa/Lusa

Outra das apostas de Jesus na última época que demora a afirmar-se é Marvin Zeegelaar, que continua a não dar garantias do lado esquerdo tanto a atacar como a defender. O lado esquerdo da defesa tem sido uma dor de cabeça para Jorge Jesus: sem total confiança em Zeegelaar ou Jefferson, o técnico tem chamado também o polivalente Bruno César para a posição.