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Podence levou para casa o melhor guião original

O Sporting ganhou por 3-2 ao Moreirense num jogo em que tudo aconteceu: um auto-golo de Bruno César, dois disparates de Rui Patrício e uma grande exibição de Podence, o miúdo que há 15 dias jogava no Moreirense. É a melhor história da noite

Pedro Candeias

Carlos Rodrigues

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Era uma vez uma equipa que tinha contratado um, dois, três, quatro craques para atacar um título em fuga há não-sei-quantos-anos. Durante uns tempos, essa equipa, treinada pelo melhor treinador no país, alimentou-se desse sonho até que a realidade bateu de frente: os craques não eram assim tão bons, os rivais tinham mérito, e os erros próprios (e de outros) atiraram-na para fora de uma corrida que era a três e passou a dois.

E assim, nos primeiros dias de janeiro do ano do senhor de 2017, três craques foram recambiados e três miúdos foram repescados para que a segunda parte da história fosse escrita com protagonistas jovens e a moral de antigamente: atenção, que ninguém se esqueça que o Sporting - é este o nome do clube desta equipa - é formação. Seja feita a vontade.

Talvez esta reviravolta no argumento tenha sido mais reação do que ação, porque longe do primeiro lugar e a leste de todas as outras competições, o Sporting tinha gente a mais a ganhar dinheiro a mais para os poucos objetivos que lhe restavam - e a partir de uma certa derrota contra um certo adversário nortenho, passaram a ser apenas um, o de chegar à Champions e de tentar preparar o que aí vinha. Podia ser que assim se afugentasse o mau-olhado.

Nada feito. A improvável época do Sporting iria conhecer novos capítulos que lhe devem garantir um prémio qualquer pela originalidade do argumento.

Este final de tarde, a coisa passou-se assim.

O Sporting sofreu um golo que se pensou primeiro que fosse de Dramé, um ex-sportinguista, mas que afinal foi de Bruno César - o que faz disto um auto-golo. Foi um lance caricato, em que Coates, Bruno César e Rui Patrício fizeram asneira, mais uma asneira inexplicável. Depois, os leões conseguiram chegar ao empate através de uma assistência de Bas Dost, que está em constante evolução, para Alan Ruiz, que está melhor do que Bryan Ruiz.

Durante uns nanosegundos, o jogo esteve empatado até Cauê bater [ele bate bem, tem confiança] um penálti após outro disparate de Rui Patrício.

Talvez já se possa dizer duas coisas sobre este Sporting: Semedo tem medo e São Patrício não anda por ali.

O 2-1 ao intervalo queria dizer que Augusto Inácio cumprira o que prometera, uma pequena surpresa para o seu arqui-inimigo Jorge Jesus. Num 4x4x2 meio assimétrico, com Nildo a fazer dois papéis, e três corredores de 800 m (Boateng, Dramé e Sougou) que sprintam e têm resistência, o Moreirense conseguiu tapar os buracos que só Alan Ruiz ou Gelson tentatam destapar.

Depois, veio a segunda parte e, sobretudo, veio Podence, que substituiu a versão-desacelerada do Bryan Ruiz de 2015-16, e o Sporting ganhou outro andamento. Num remate à barra à baliza do Moreirense deste miúdo que há quinze dias estava no Moreirense [é, ou não é uma boa história?] resultou o 17.º golo de Bas Dost no campeonato. E um empate.

A partir daqui, o Moreirense, que já só jogava num 5x5X0, ainda se encolheu mais, asfixiado pela vontade de Podence, Gelson, Bas Dost e do inevitável Adrien Silva. O 3-2 aconteceu num pontapé de pé esquerdo de Adrien [qual a probabilidade?] após um bom cruzamento atrasado de Schelotto [repito, qual a probabilidade?].

Obviamente que, depois disto, o Sporting iria sofrer um primeiro susto, por Dramé, e ainda outro susto, por Rebocho, pondo à vista de todos a estranha fragilidade defensiva da equipa de Jesus - mas o resultado estava feito.

Pela segunda vez neste campeonato - pela terceira nesta época (FC Porto, para a Liga; Praiense, para a Taça de Portugal) - o Sporting conseguiu virar um resultado e esta foi mais uma reviravolta neste improvável guião.

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