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Crónica de uma vitória anunciada

Este sábado é dia de eleições no Sporting. Nicolau Santos explica qual foi o grande erro de Pedro Madeira Rodrigues - abdicar de Jorge Jesus - e pormenoriza aquilo a que Bruno de Carvalho fica obrigado daqui em diante

Nicolau Santos

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O Sporting Clube de Portugal decide este sábado o seu futuro próximo, escolhendo o presidente do clube entre Bruno de Carvalho ou Pedro Madeira Rodrigues. Em cima da mesa não estão dois projetos radicalmente diferentes. E, por isso, se por um lado a desgraçada campanha da equipa principal do Sporting na época futebolística 2016-17 penaliza Bruno de Carvalho, por outro a ausência de grandes novidades por parte de Madeira Rodrigues não o favorece.

Quer as eleições em que Godinho Lopes derrotou Bruno de Carvalho, quer as seguintes, em que Bruno derrotou José Couceiro, foram vividas muito mais intensamente do que estas. Por uma razão: havia na altura uma clara clivagem etária entre os sócios que apoiavam Bruno de Carvalho e os que viam em Godinho Lopes a melhor aposta. A esmagadora maioria dos jovens estava com Bruno, que conseguiu ganhar também para junto de si personalidades como Eduardo Barroso, Daniel Sampaio, Jaime Marta Soares ou Marçal Grilo. E isto garantiu-lhe a vitória numa altura em que o Sporting encolhia todos os dias e se atrasava irremediavelmente em relação ao Benfica e FC Porto em quase todas as modalidades, mas com enorme evidência no caso do futebol profissional.

Nos seus mandatos, Bruno de Carvalho conseguiu algo impensável. Inverteu o declínio do Sporting. Trouxe de novo o entusiasmo e o orgulho a Alvalade. Levou os bancos a aceitar que, sem aumentar o orçamento para o futebol, nunca o clube poderia gerar mais receitas, de forma a pagar as suas dívidas. Contratou dois excelentes técnicos, Leonardo Jardim e Marco Silva, e provocou um forte abalo no outro lado da segunda circular, ao conseguir trazer Jorge Jesus para treinador da equipa principal de futebol do clube. Relançou várias modalidades.

Avançou com a construção do pavilhão, de que o clube tão necessitado estava. E conseguiu galvanizar os sócios, que voltaram a encher o estádio. No ano passado, o Sporting merecia ter ganho o campeonato. Se isso tivesse acontecido, Bruno de Carvalho não teria sequer opositor nestas eleições. Assim, vai a jogo, com fortes probabilidades de ganhar, mas sem o entusiasmo que de outro modo existiria, porque ainda por cima a época está completamente perdida e a única esperança é o clube ficar pelo menos em terceiro lugar no campeonato para poder aceder à pré-eliminatória da Liga dos Campeões.

MÁRIO CRUZ / LUSA

Isso obrigou o presidente a descer à terra. Percebeu que tinha de reduzir drasticamente os custos com a equipa de futebol, que subiram vertiginosamente no início da época para atacar o título e ir o mais longe possível na Champions e noutras provas internas. O falhanço em todas as frentes obrigou à redução desses custos, devolvendo à procedência, vendendo ou emprestando vários jogadores que tinham chegado ao clube nas janelas do mercado. E levou também a uma redefinição em matéria de aproveitamento de jogadores da casa, formados na Academia, que se encontravam emprestados, alguns dos quais foram mandados regressar e começam a ter lugar na equipa principal (Palhinha e Podence, em particular).

Só que Bruno de Carvalho representa agora o “establishment” e Pedro Madeira Rodrigues o desafiador do poder. Por isso, este tem de ser mais agressivo e de tentar marcar diferenças, porque obviamente parte em desvantagem. Mas cometeu um erro de monta ao anunciar que não conta com Jorge Jesus para treinador, tendo em contrapartida anunciado o espanhol Juande Ramos. Ora, no Sporting não há boa memória dos treinadores espanhóis. E apesar desta época desgraçada, Jorge Jesus colocou o Sporting a jogar com uma personalidade que há muito não se via pelas bandas de Alvalade. Mesmo nesta época de má memória, o Sporting fez alguns jogos fabulosos (contra o Real Madrid em Madrid) ou muito bons (contra o Borussia em Dortmund, contra o Benfica na Luz e contra o FC Porto no Dragão), embora tenha perdido todos. Mas Jesus devolveu aos sócios o orgulho na principal equipa de futebol do clube e o prazer em vê-la jogar (embora a qualidade tenha caído muito nos últimos dois jogos para a Liga). Muito poucos sócios terão ficado entusiasmados com a possibilidade de Juande Ramos treinar o Sporting, que perde claramente na comparação com Jesus.

mario cruz/lusa

Tudo somado, seria uma enorme surpresa que Bruno de Carvalho não ganhasse esta eleição e por uma margem confortável, embora seja de prever uma menor afluência às urnas que nas duas anteriores. Mas se vencer, como é bastante provável, Bruno de Carvalho fica obrigado a tornar o Sporting campeão nacional de futebol nos próximos quatro anos. Se tal não acontecer, esta será a última vitória de Bruno de Carvalho. Ou, pelo menos, uma sua recandidatura daqui a quatro anos enfrentará adversários bem mais difíceis.