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No campeonato dos salários, o FC Porto lidera, o Sporting é segundo e o Benfica segue logo atrás

Aposta dos ‘leões’ no futebol duplica valor do plantel em ano e meio. Mas salários disparam. Tanto que, ainda que ligeiramente, superam os do Benfica no primeiro semestre

O Estádio de Alvalade faz parte do património do Sporting.O total do ativo consolidado ascende a 180 milhões de euros.O passivo é 175 milhões de euros superior

Luis Barra

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A diferença é "peanuts", mas pela primeira vez em muitos anos o Sporting tem uma folha salarial mais elevada do que a do Benfica. No primeiro semestre deste ano, o clube de Alvalade gastou 31,5 milhões de euros em custos com o pessoal. Um pouco mais do que o Benfica, que totalizou 30,4 milhões.

As contas da SAD do Benfica foram tornadas públicas este domingo, depois de, no sábado, o semanário Expresso já ter noticiado que os custos salariais do clube da Luz tinham sido inferiores aos de Alvalade, que por sua vez publicara as contas na semana passada. As contas das SAD dos dois clubes já haviam sido entregues na Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP): têm de sê-lo sempre até ao final de fevereiro de cada ano, para efeitos de licenciamento para as competições.

No sábado, em declarações ao Expresso, o administrador financeiro do Sporting, Carlos Vieira, estranhava, aliás, que o Benfica ainda não tivesse apresentado as suas contas, uma vez que já haviam decorrerido vários dias desde a entrega da informação à Liga. “As contas estão nas mãos de outros que não os acionistas”, comentava. O Sporting questionou a CMVM sobre se também pode entregar as contas mais tarde. No dia seguinte à notícia no Expresso, o Benfica publicava as contas semestrais.

Salários sobem 34,5%

Os dois clubes de Lisboa aumentaram a folha salarial, mas é a do Sporting que mostra um crescimento cada vez maior (ver gráfico). No primeiro semestre deste ano, o clube de Alvalade gastou mais 34,5% em salários do que no mesmo período do ano passado.

Em causa está a política de contratações dos últimos anos, uma aposta da presidência de Bruno de Carvalho que se tornou visível sobretudo desde 2015/16, ano que ficou marcado pela contratação de Jorge Jesus ao rival da Segunda Circular. A 31 de dezembro último, o plantel do Sporting estava avaliado em 42,4 milhões de euros. Este valor subiu 10 milhões face a 31 de junho, mercê sobretudo da contratação de Bas Dost. Mas se a análise for um pouco mais longe, então o plantel do Sporting vale neste momento mais 120% (mais do dobro) do que valia a 31 de junho de 2015, isto é, no final da época antes de Jesus.

Apesar de a folha salarial do Sporting estar próxima da do Benfica e de o investimento na equipa de futebol ter aumentado muito, o valor do plantel leonino é significativamente inferior ao do Benfica, que no final da época passada era de 115 milhões de euros (não são ainda públicas, repete-se, as contas do primeiro semestre do Benfica). Em grande parte, esta diferença de 170% entre o valor nos balanços dos plantéis dos dois clubes é explicada com o facto de o Sporting ter um peso de jogadores de formação na sua equipa mais elevado do que o Benfica (e, já agora, do que o FC Porto). E os jogadores da formação, como nunca foram transacionados, são registados no ativo a zeros.

Isto significa que jogadores como Rui Patrício, Gelson Martins e William Carvalho estão contabilizados a zeros no balanço. Adrien está valorizado em apenas 1,2 milhões de euros porque recebeu um prémio de assinatura. Mas qualquer um destes jogadores teria um valor de mercado, caso fosse vendido, de muitos milhões de euros.

O reverso desta valorização do plantel é o aumento dos salários. Neste momento, Jorge Jesus continua a ser o ‘empregado’ mais bem pago do Sporting. Na equipa, os jogadores com salários mais elevados são Bas Dost, Rui Patrício e Adrien.

FRANCISCO LEONG/GETTY

Analisando toda a era Bruno de Carvalho no Sporting, verificam-se dois movimentos nos custos salariais semestrais do clube. Nas duas primeiras épocas, uma queda súbita (de 31% nos primeiros seis meses de 2012/13 face ao mesmo período do ano anterior, seguida de mais 21% no ano seguinte), após a qual há uma subida acelerada (de 94% no primeiro semestre de 2015/16 face ao período homólogo do ano anterior, mais 34,5% no primeiro semestre deste ano).

A folha salarial a 31 de dezembro de 2016 mais do que duplicou (um crescimento de 107%) face ao primeiro semestre da primeira época de Bruno de Carvalho como presidente do Sporting.

Lucros garantidos este ano

No segundo semestre deste ano, é provável que o Sporting venha de novo a ter custos salariais inferiores aos do Benfica. É que a venda e a devolução de jogadores emprestados também significa pagar menos salários, podendo estimar-se que o clube de Alvalade pague entre menos 4 a 5 milhões de euros nos últimos seis meses desta temporada do que pagou no primeiro semestre.

As contas semestrais do Sporting, apresentadas esta semana, revelam um lucro de 46,5 milhões de euros. Este resultado líquido deverá ser menor no final da época, até porque já não há receitas de competições europeias. Resta saber se o clube venderá ainda jogadores. Essa decisão deverá ficar, no entanto, para depois do final da época. E dependendo da classificação no campeonato.

Se o Sporting acabar a temporada em terceiro lugar — a sua posição atual —, terá acesso aos playoffs da Liga dos Campeões. Só por si, isto significa uma receita garantida, porque, mesmo que não seja apurado nos playoffs, recebe 3 milhões de euros. Parte das receitas das competições europeias do Sporting estão vinculadas a amortização da dívida bancária. Aliás, o clube tem neste momento um calendário financeiro que agenda uma redução da dívida bancária no próximo mês de julho.

Tecnicamente falido... há anos

A análise às contas consolidadas do Sporting na última época, que foram publicadas no site em janeiro deste ano, revela sem surpresa que o clube continua com capitais próprios negativos. Tal é uma herança de prejuízos acumulados de anteriores administrações, tendo a direção de Bruno de Carvalho iniciado a reestruturação do clube no sentido inverso. Na época passada, contudo, os capitais próprios agravaram-se em 12 milhões de euros, por causa da provisão de 15 milhões de euros constituída no âmbito do processo da Doyen.

A 30 de junho de 2016, os capitais próprios consolidados do Sporting eram de 175 milhões de euros negativos. No primeiro ano completo de Bruno de Carvalho, 2013/14, os capitais próprios negativos ascendiam a 259,4 milhões de euros. A redução neste período foi de um terço do ‘buraco’.

Texto publicado na edição de 4 de março de 2017 do Expresso e atualizado com as contas do Benfica entretanto publicadas.

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