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Oh! Leonina melancolia, que me enches a vida de alegria!

Pedimos ao escritor João Ricardo Pedro que nos escrevesse sobre o que era o Sporting e o que significa ser sportinguista

João Ricardo Pedro

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Será sempre o jogo mais importante da época, o jogo mais importante das nossas vidas. Pelo menos, para aqueles que, tal como eu, cresceram numa das periferias de Lisboa, coleccionando cromos e caricas com as caras dos jogadores, tentando imitar as fintas dos craques em baldios semeados de calhaus.

Nessa altura, ouvíamos os relatos de futebol em rádios Philips ou Grundig, sintonizados em onda-média nas traseiras dos prédios, nos cafés, dentro dos automóveis, na solidão dos quartos. Ficávamos depois a aguardar as primeiras imagens televisivas que passavam nas notícias das oito e os resumos alargados do Domingo Desportivo apresentado por Mário Zambujal, na ânsia de perceber se determinado lance havia sido como tínhamos imaginado.

Quando um miúdo novo aparecia no bairro, impunha-se a pergunta: “És do Sporting ou do Benfica?” Consoante a resposta, traçava-se de imediato um perfil psicológico, uma história familiar, um destino. Ainda hoje, quando conheço alguém, apetece-me fazer essa pergunta.

Na maioria das vezes, não tenho coragem, mas tento sempre adivinhar qual seria a resposta, como se fosse possível detectar, através de uma série de sinais exteriores — a roupa, os sapatos, o aperto de mão, a voz, o olhar, uma certa maneira de segurar a chávena de café —, a preferência clubística de alguém. Haverá alguma marca, visível ou invisível, que diferencie um sportinguista de um benfiquista? Uma inscrição inequívoca?Algo que não emane apenas de contextos sociais diversos, mas que seja fruto de uma relação íntima e profunda com um clube de futebol?

Socorro-me do narrador do livro “Um Postal de Detroit”, quando, a propósito do pai, escreve o seguinte: “Ocupar um modesto lugar nas bancadas do topo norte ou do topo sul, diluir-se entre os núcleos sportinguistas da Amadora ou de Almada, entoar cânticos da Juventude Leonina ou da Torcida Verde, eram para ele experiências, já por si, tão compensadoras que não só ganhar parecia ser irrelevante para o seu coração de adepto, como a derrota, com todos os seus cambiantes dramáticos, se revelava muitas vezes mais gratificante.”

Que espécie de gratificação será esta que se retira de uma derrota? Seja qual for a resposta, só poderá ser encontrada num sportinguista. Não conheço outro clube que, face ao investimento emocional dos seus adeptos, lhes devolva tão poucos dividendos. E, ainda assim, jornada após jornada, as bancadas do estádio enchem-se de antigos e novos lagartos.

Há muitos anos, após um daqueles desaires duros de roer, com bolas à trave e golos mal invalidados, ouvi este belíssimo lamento da boca de um amigo já bastante embriagado: “Oh! Leonina melancolia, que me enches a vida de alegria!” Talvez a resposta esteja então escondida nesta leonina melancolia, nesta disponibilidade rara não só para abraçar, mas sobretudo para usufruir do infortúnio, neste desejo absurdo de sofrer, à maneira de Cesário.

Alguns dos momentos mais dolorosos e, por isso mesmo, mais inesquecíveis, que vivi enquanto sportinguista, aconteceram em dérbis. Os seis golos do Benfica, em 1994, com um João Pinto endiabrado e um Carlos Queiroz desorientado, permanecem na minha memória com uma frescura de anteontem. Vinte e três anos depois, sou capaz de dizer de cor a formação inicial da equipa e as substituições desastrosas do professor.

O golo do egípcio Sabry, ao minuto 88, na penúltima jornada da época 1999/2000, ainda me enche de calafrios em certas noites de insónia. O falhanço do Bryan Ruiz, na época passada, à boca da baliza, ainda me leva ao consumo exagerado de álcool. Nesse fatídico dia de Março de 2016, perdemos o jogo e perdemos o campeonato. Os meus filhos, que nunca tiveram a felicidade de festejar um título de campeões nacionais, regressaram a casa de lágrimas nos olhos. Eu, talvez para os consolar, disse-lhes que, apesar de tudo, o falhanço do Bryan tinha sido um belo lance de futebol.

Tentei explicar-lhes que pode existir uma beleza poética que não se esgota na simples contabilidade do perder e do ganhar. Eles chamaram-me parvo, e com toda a razão. Mas tenho a certeza de que, daqui a vinte ou trinta anos, eles vão guardar esse falhanço incrível do Bryan como uma das memórias mais preciosas das suas infâncias. Será a memória mais antiga que vão ter de um dérbi entre o Sporting e o Benfica. É bem possível até que cheguem a recordar esse falhanço com saudade, o falhanço que lhes roubou o primeiro título, e os seus olhos se humedeçam de novo de leonina melancolia.

Quanto a mim, o dérbi mais antigo de que me lembro é o de 1982. Tínhamos ido almoçar a casa de uns familiares que moravam no Cacém. Arroz de polvo e mousse de chocolate. Mais de vintes pessoas em quatro assoalhadas minúsculas. A meio da tarde, eu, o meu irmão e o meu pai escapulimo-nos à socapa e fomos ouvir o relato para dentro do nosso Fiat 128. Nessa altura, o meu pai fumava cigarros PORTO, o desenho de um barco rabelo na caixa, o boletim do totobola pousado no tablier. Ele e o meu irmão recostaram-se nos bancos da frente. Eu deitei-me no banco de trás.

Era a equipa de Meszaros, Eurico, Inácio, Carlos Xavier, Manuel Fernandes, Jordão. O Oliveira não jogou essa partida, estava lesionado, ou castigado, ou simplesmente não apareceu. O Benfica marcou primeiro. Depois, o Bento deu um murro ao Manuel Fernandes e foi expulso. O Jordão marcou dois golos. Ganhámos 2-1. No entanto, desse meu primeiro dérbi, recordo sobretudo as bolas de fumo que o meu pai lançava da boca e se desfaziam no tecto branco do carro. E uma certa prima que nunca mais voltei a ver. Viva o Sporting!