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Sporting, ou como flertar com os limites do relógio e sair por cima

Um golo aos 90'+7 deu a vitória ao Sporting frente ao Feirense (3-2) e o quinto triunfo em cinco jogos para a equipa de Jorge Jesus, que começa a habituar-se a resolver jogos in extremis

Lídia Paralta Gomes

FRANCISCO LEONG/Getty

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Há quem fale de “carne para canhão”, mas também há quem fale de “propostas de jogo”. São termos em voga no nosso futebol por estes dias. E se já desconfiávamos desde o ano passado, esta época veio confirmar que o Feirense é uma dessas equipas com “proposta”. Ou melhor, tem um treinador, Nuno Manta Santos, que tem a sua “proposta”.

Diga-se que a proposta do Feirense é diferente, por exemplo, da proposta do Rio Ave, uma equipa de vocação ofensiva, que gosta de ter a bola, de a tratar bem, jogando em futebol apoiado. O Feirense é, essencialmente, uma equipa muito sólida, metódica, que não dá espaços, principalmente em casa. Pode não ser tão vistoso quanto um Rio Ave, mas tem resultado - a equipa de Santa Maria da Feira chegou a esta 5.ª jornada como uma das cinco que ainda não tinha perdido.

A derrota chegou esta noite, mas só aos 90’+7 após uma 2.ª parte diabólica em que o Sporting esteve a vencer por 2-0, viu o Feirense empatar e só conseguiu chegar à vitória para lá do tempo regulamentar, aquela linha fina com que o Sporting tem flertado em quase todos os jogos do campeonato. E sempre com bons resultados.

Senão vejamos: à 2.ª jornada, vitória frente ao V. Setúbal por 1-0 com uma grande penalidade aos 86 minutos. Na 4.ª jornada, dois golos anulados nos últimos minutos pelo vídeo-árbitro e esta noite, vitória com um golo aos 90’+7.

E como o jogo só acaba quando o árbitro apita, são cinco vitórias em cinco jogos e liderança do campeonato garantida durante mais uma semana para os leões.

Voltas e reviravoltas

Há clichés deliciosos no futebol. O preferido desta vossa escriba é o “meter toda a carne no assador”. Um dos menos preferidos é o “um jogo com duas partes distintas”.

Mas, perdoem-me a falta de criatividade, não dá para usar outra expressão para falar deste Feirense-Sporting.

JOSE COELHO/EPA

É que a tal proposta do Feirense, do futebol sólido, metódico, secou o Sporting nos primeiros 45 minutos, principalmente depois da lesão de Piccini, que provocou uma espécie de efeito dominó na estratégia do Sporting. Jesus havia apostado em Battaglia para o lugar de Adrien e em Bruno Fernandes a 10, mas com a saída do italiano, o argentino foi para lateral, Bruno Fernandes recuou e Alan Ruiz entrou para o apoio a Bas Dost.

O reset baralhou os leões: sem ideias e sem fio de jogo, o Sporting foi praticamente inexistente na 1.ª parte, de tal forma que, em protesto, uma das torres de iluminação do Marcolino de Castro desligou-se para nunca mais voltar.

Fez mal, porque a 2.ª parte do jogo foi, bem, completamente distinta da 1.ª.

Porque houve golos, voltas e reviravoltas, emoção, incerteza no resultado, enfim, aquelas coisas que valem os preços dos bilhetes.

Um pouco farto da proposta do Feirense, o Sporting entrou mais veloz e logo à entrada do 2.º tempo, um cruzamento de Acuña para Bruno Fernandes só não deu golo porque Caio Secco tem excelentes reflexos.

Aos 60 minutos, a bola só não se aninha na baliza do Feirense porque Cris Santos fez um sprint digno de velocista olímpico para tirar o pão da boca (bem, do pé) de Bas Dost, que estava prontinho para responder a um cruzamento de Bruno Fernandes. O mesmo que, dois minutos depois, marcou o canto que deu origem ao primeiro golo do Sporting. Caio Secco, que é bom de reflexos, mas menos bom a sair a cruzamentos, hesitou e Coates aproveitou para cabecear. O primeiro remate bateu no guardião brasileiro, mas na recarga o central enviou um míssil para a baliza do Feirense.

Nem dois minutos depois, mais um golo. Com o Feirense menos coeso, Gelson conduziu bem um contra-ataque, cruzou para Bruno Fernandes que com um toque de classe só ao alcance de uns quantos rapazes com muito talento, fez um chapéu a Secco.

O jogo parecia feito, mas a rapaziada de Santa Maria da Feira não é só sólida de futebol, também o é de cabeça: João Silva reduziu aos 69’ e aos 81’ os da casa empataram, com um grande golo de Etebo. Edson deixou para o nigeriano que em corrida na diagonal ultrapassou Coates na área e disparou cruzado, muito forte, sem hipóteses para Patrício.

Mas, e voltando aos clichés e às frases feitas, também há aquela que diz que até ao cair do pano há peça e foi ao cair do pano que surgiu a grande penalidade que deu a vitória ao Sporting, conseguida já mais na base do coração do que na organização, após um cruzamento longo para a área de Doumbia, que terminou com uma falta sobre o grandalhão Coates que tinha ido à área tentar a sua sorte.

Conseguiu-a e Bas Dost, na sua tranquilidade holandesa, escreveu mais um capítulo desta história de amor entre o Sporting e o relógio. Sportinguistas cardíacos, cautela.