Tribuna Expresso

Perfil

Sporting

Antes da guerra, a Battaglia

O Sporting deu uma parte de avanço ao Moreirense e muito se explica pela ausência de Battaglia no onze inicial - e pela inclusão de Alan Ruiz. O jogo acabou empatado (1-1) e o FC Porto escapou-se na liderança do campeonato a uma semana do clássico de Alvalade

Pedro Candeias

MIGUEL RIOPA

Partilhar

Como é óbvio, Jorge Jesus é um optimista. Só um otimista pode achar que as coisas lhe vão correr bem, sim senhor, mesmo que tudo tenha acabado de lhe correr mal - como no Benfica, quando perdeu três competições e voltou no ano seguinte, e no ano depois desse, para ganhar.

E só um otimista como ele pode achar que é possível ganhar jogos em Moreira de Cónegos - de todos os lugares, o mais próximo que há de um campinho de batalha no futebol tuga - só com um trinco como William, um médio como Bruno Fernandes, dois alas como Bruno César e Gelson, e dois avançados como Bas Dost e Alan Ruiz. Nenhum deles é mau de bola da mesma forma que nenhum deles é rapaz para grandes correrias e batalhas como, bom, Battaglia é.

De todos eles, Ruiz é o menos dado a coisas do corpo-a-corpo, e por aqui também se explica a pouca intensidade que o Sporting pôs na primeira-parte. Com Battaglia no banco e Acuña a descansar para a Champions, Jesus quis atacar o jogo com muitos artistas e poucos artesãos, e deu-se mal.

O meio-campo foi sempre um território explorado residualmente, e nem trocando os extremos (Gelson à esquerda e Bruno César à direita) os sportinguistas foram capazes de combinar, ligar pontinhos, fazer jogadas, ou mesmo de controlar o adversário quando este ultrapassava a frágil zona de pressão para se chegar à frente; enfim, e resumindo, o Sporting não foi capaz de jogar o futebol que já jogara este ano.

A isto somou-se a evidente baixa de forma de Gelson, que resolvia sozinho o que dois não conseguiam, e os disparates crónicos de Piccini, que continua a correr como um jogador de râguebi dos anos 90 com uma bola nos pés. Naquele instante em que Rafael Costa disparou para Rui Patrício e o golo apareceu antes do intervalo, ficou claro que Jesus teria de puxar orelhas no balneário e pôr sangue fresco, ou quente, vá, na segunda-parte.

E então entrou o enérgico Doumbia para o lugar do dandy Ruiz, e o Sporting cresceu a espaços e chegou ao empate num lance caricato; mas os auto-golos também contam e este entra diretamente para a contabilidade dos mais disparatados do ano: o guarda-redes defendeu para os pés do defesa e, pronto, já está. Mas se acha que isto foi o suficiente para o Sporting dar um passo seguro rumo à vitória, desengane-se, porque o Moreirense continuou juntinho e à espreita de uma nesga de espaço, normalmente pelo talentoso Tozé - e o jogo partiu-se.

As rotações subiram um bocadinho, é verdade, porque Jesus pôs Battaglia lá dentro, mas, ao fazê-lo, retirou Bruno Fernandes, provavelmente a pensar no Barcelona, e o meio-campo continuou amputado: se antes tinha cérebro e pouco músculo, agora tinha cabedal e pouco critério; num mundo ideal, os dois conceitos devem coexistir, mas Jesus quis construir uma realidade alternativa e até ao fim houve correrias, coração, força, algumas ocasiões e poucas ideias. E nenhum golo.

O Sporting perde os seus dois primeiros pontos, vê o FC Porto escapar-se na liderança da Liga, recebe o Barcelona a meio da semana e os portistas no final da mesma.

Este resultado, claro, muda as contas.